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segunda-feira, 12 de março de 2018

Eram a "Flor da gente", Capoeiristas?


Eram a "Flor da Gente", Capoeiristas.?
Guilherme Arehgui

história dos combatentes capoeiristas, que ocorreu em paralelo com a guerra. Esse
passado será trabalhado pelas dúvidas do tempo presente, o que sugere uma ponte
entre esses dois espaços, fornecendo informações para que possamos dialogar com
o tempo. Por fim, tentarei demonstrar aqui, como a capoeira serviu de instrumento pra
um projeto político da elite, que após sua serventia, descartou sua pratica e seus
praticantes.
INTRODUÇÃO: Em 1864, o Brasil passava por um dos momentos de maior
importância militar, de toda a América do sul, a guerra do Paraguai. Esta guerra que
perdurou por longos seis anos, teve como participantes, a tríplice aliança, composta
por: Brasil, Argentina e Uruguai, que lutavam contra o Paraguai.(Cf. DORATIOTO,
Francisco. in: maldita guerra). Detalhes deste confronto não serão expostos aqui,
mas, um fator que, pertinentemente me chama a atenção, é a denominação dada
aos combatentes forçados à juntar-se no contingente da artilharia, os “voluntários da
pátria”.
Podemos presumir que o Brasil, ainda como monarquia, não possuía um
contingente abrangente para o território nacional, e para suprir essa demanda, o
imperador D. Pedro II, ordena que todos os jovens, filhos dos fazendeiros, fossem
lutar, mas, que também, os fazendeiros poderiam substituir seus filhos, por negros
escravos, gerando uma nova forma de comercialização de suas mercadorias vivas -
o aluguel. (cf. DORATIOTO). Era comum nesse meio tempo, que aqueles senhores
que possuíam um alto número de escravos, alugassem seus negros para outros
senhores da elite, gerando uma renda extra, até a informação da morte de tal negro,
ou o seu retorno.

Grandes porções de negros foram amarrados com correntes e forçados a
irem para a batalha, chegando lá praticamente vencidos pelo cansaço, eram alvos
fáceis para os inimigos. Outra lei, garantia a alforria para negros que lutassem no
campo de batalha e retornassem como vitoriosos, onde aí sim, entram em cena, os
negros que já dominavam as técnicas de luta corporal, pois, na falta do rifle,
carregado com pólvora, pela boca do cano, os capoeiras faziam de seus corpos,
uma verdadeira arma de matar. “No combate corpo a corpo, os fuzis de pederneira,
carregados pela boca a cada tiro, eram de pouca valia após a primeira descarga. Os
golpes da capoeira, aprendidos nas ruas da distante cidade do Rio de Janeiro, eram
a arma de que se valia o soldado negro ou mulato brasileiro, não apenas do Rio,
mas também de Recife e Salvador. Nos campos da peleja, os capoeiras forjaram
sua lenda.” (Brasil, 2008:45).
Este episódio é de extrema importância para a História brasileira, pois ele foi
o início da construção de um dos pilares para a queda do regime escravista, onde o
retorno do negro vencedor, não fez cumprir-se a lei que o alforriava, gerando um
conflito com o alto comando militar, e a corte imperial, pressionando o imperador
para que houvesse a libertação de todos.
A capoeira desde os primórdios de sua criação, sempre teve no Brasil, um
almejo pela liberdade. Durante todo seu percurso no tempo histórico, ela partiu do
caráter marginalizado, para a glória, tanto dela como um todo, e também de seus
praticantes.
Os “voluntários” que conseguiram retornar da batalha em bom estado, sem
perdas anatômicas e psicológicas, foram recompensados com congratulações
cedidas pelo Exército Nacional, medalhas e até a tão esperada carta de alforria, mas
por outro lado, alguns capoeiras que já estavam alforriados e eram tidos como
lideres de gangues, perderam território enquanto guerrilhava. Eis que surgem as
maltas de capoeiras, organização para que, de um modo injusto, conseguissem
reaver o domínio de tal território.
As maltas eram compostas por capoeiristas experientes, ou não, que tinham
como meta arrecadar dinheiro para a sobrevivência de seu contingente, seja de
modo moralmente correto ou não. Existiram diversas maltas, verdadeiras gangues
na cidade do Rio de Janeiro, durante a segunda metade do século XIX. Essas
maltas trouxeram contribuições significativas para o estudo da capoeira na
contemporaneidade, como no exemplo de um pluralismo cultural Ibérico, onde houve
a introdução da navalha, da bengala, das cantigas de roda, inclusive o sentido da
palavra, mestre.
Várias maltas do Rio de Janeiro obtiveram o respeito da população, muito
provavelmente pelo medo do que eles eram capazes de fazer, dentre elas,
destacam-se as maltas: guaiamum; nagôas; carpinteiros de são José; conceição da
marinha; glória; lapa; moura e também a flor da gente. Essa última malta, tem um
apreço para este trabalho, pois o artigo estudado aqui, faz referência a ela, como
sendo responsável por um projeto político: a guarda-negra. JoséPatrocínio, esboçava sua visão, através do jornal Cidade do Rio, onde enxergava a guarda-negra – ao menos nos primeiros meses – como: “uma encarnação e política da gente negra, recém arrancada do cativeiro”.
(BRASIL, 2008:46).
Ou seja, após séculos de escravidão, essa gente podia se
 Expressar politicamente em praças pública, claramente a favor da monarquia, que
em seus entendimentos, a medida da regente princesa Isabel, com a assinatura da
Lei Aurea, os libertou.
Soares nos conta em seu artigo, que a elite política tinha outros planos para
os capoeiristas. “impressionados pela agilidade corporal, os antigos oficiais
comissionados, agora membros da elite política da cidade do Rio de Janeiro,
pleitearam nas sombras, transformar os ex-combatentes, em aliados políticos.
Capangas à disposição das novas refregas do tempo de paz.
Assim, a capoeira entra no palco político. Não a micropolítica dos escravos,
como se viu nos cinquenta anos do século retrasado, mas a política dos salões, dos
partidos – liberal e conservador – das ante-salas do parlamento, das eleições
concorridas, dos votos cabalados, do regime parlamentarista.” (BRASIL, 2008:47).
Nesse contexto, surge a segunda depreciação da capoeira, pois a malta flor
da gente, é “contratada” por um importante membro do partido conservador, o
Duque Estrada Teixeira. Essa malta, ficou encarregada de “varrer” os eleitores
liberais das urnas, e também, de derrubar,
 literalmente, os candidatos opositores dos
palanques. Isso se deu logicamente pelo uso da capoeira, e assim, na eleição de
1872, a vitória do Duque Estrada, fora comemorada. Com a vitória do “patrão”, os
maltenses extrapolavam cada vez mais, atacando e agredindo os eleitores
oposicionistas, fraudavam as urnas, fingindo serem os eleitores ausentes,
 votos e sempre, culminavam em grossa pancadaria.
No decorrer dos anos, o mundo já se livrava do sistema escravagista,
sobrando para o Brasil o “prêmio lanterna negra”, simbolizando este ser um dos
últimos países a abolir a escravatura. Com isso, alterava-se também o eixo da
economia, transferindo o plantio do café para o Estado de São Paulo, inclusive a
fama da malta flor da gente. Após intensas crises e rivalidades entre os partidos
conservadores e liberais, como bem expõem o documento aqui estudado, (cf. pág.
50 e 51) alguns negros pertencentes a diversas maltas, criam, sob a autorização dos
monárquicas, a guarda-negra.5
O vandalismo que estava no íntimo dos guardas, prevalecia muitas vezes, e
isso gerou novos conflitos entre os partidos, que por sua vez, ao tornar o Brasil, uma
República, o Marechal Deodoro da Fonseca, participante dos republicanos,
convocou o advogado Sampaio Ferraz, para assumir a chefia da polícia, e por um
fim na capoeiragem. O excerto6
 a seguir, traz referências ao conteúdo aqui
apresentado.
“Entraria em cena, outro capoeirista, chamado Sampaio Ferraz, nomeado como o primeiro
chefe de polícia da novel República, o qual recebeu a incumbência de eliminar o problema da
Capoeira no Rio de Janeiro da parte do próprio do Chefe do Governo, Marechal Deodoro da
Fonseca.
 Sampaio a princípio diz tratar-se de um problema difícil, pois havia muitos filhos de famílias
distintas e poderosas que faziam uso da mesma, todavia, Deodoro lhe conferiu garantias pessoais
para agir com “carta branca” no sentido de exterminar os capoeiras. À vista disto ficou decidido que
“todos os capoeiras, sem distinção de classe e posição, seriam encerrados no xadrez comum da
detenção, tratados ai severamente e pouco a pouco deportados para o presídio de Fernando de
Noronha, onde ficariam certo tempo, empregados em serviços forçados”.
De posse, então desta missão, Sampaio Ferraz, de imediato deu início a esta empreitada,
contando com o apoio de outros capoeiristas, entre eles, Silva Jardim, Lopes Trovão, Coelho Neto e
Plácido de Abreu. Entretanto, conforme havia previsto, “os mais perigosos chefes de maltas de
capoeiragem, eram filhos de famílias ilustres e até de titulares, de almirantes e de altos funcionários
do Paço”, os quais foram igualmente presos, tal fato acabou gerando a primeira crise do governo
republicano, quando a 12 de abril de 1890, fora preso praticando Capoeira, José Elysio dos Reis,
conhecido por Juca Reis, o filho do Conde de Matosinhos, mas como a ordem já estava posta, não
houve como recuar.
Assim, entram os Capoeiras para a história republicana, numa dupla situação: primeiro por
“causarem a menos de cinco meses, a primeira crise do governo provisório, quase pondo abaixo o
Ministério de Deodoro, ocasião em que pediu renúncia o Ministro das Relações Exteriores, Quintino
Bocaiuva”, e em segundo, por se tornarem, não sem assassinatos legalizados e torturas, os primeiros presos políticos da república, sendo deportados para o Arquipélago de Fernando de Noronha.
No mesmo ano, a prática da Capoeira foi incluída no Código Penal da República como
contravenção, onde permaneceu assim, nos cinquenta anos seguintes. Entretanto, aqueles que dela se utilizavam como uma prática esportiva estava ilesos das ações policiais.” (VIEIRA,2004:2)
Por fim, Sampaio Ferraz fez seu trabalho de acabar com os capoeiras das
maltas, e consequentemente, pois fim na guarda-negra.
O que fica evidente nesta leitura, é como a nossa tradição é mutável, como
ela sofre influências externas para moldar-se em um perfeito aproveitamento de
quem a pratica. Acho que posso citar sem erros, o conceito apresentado pelo
pesquisador François Hartog, onde ele trabalha o conceito de regime de
historicidade, dizendo que este conceito é uma justiça à ordem temporal.
Atualmente, muito se fala em ancestralidade, tradição e cultura,
principalmente nas pesquisas com a capoeira, e tendo a História como um olhar do
presente para o passado, fica fácil entendermos a evolução que temos atualmente.
Para conseguirmos entender os reais motivos, do porque a capoeira ainda ser
discriminada, devemos buscar no passado as informações que processaremos no
tempo presente, como por exemplo, a vandalização que os capoeiristas praticavam
na segunda metade do século XIX, não cabe nos dias atuais. O processo político
hoje, não comportaria o processo político daquela época, isso é a noção do tempo
histórico, é sabermos respeitar as diferenças de tempo vivido em cada momento.
Se olharmos hoje, para o perfil dos capoeiristas pertencente às maltas,
certamente será consenso que eles jamais poderiam serem chamados como tal, e
sim, de meros apropriadores da arte para usa-la em causa própria. Uma vez que
temos atualmente, a capoeira como ferramenta de inclusão social, patrimônio
cultural imaterial brasileiro, divulgadora da cultura brasileira, profissão reconhecida,
entre outros tantos fatores.
 Mas a partir do ponto de vista do passado, (o presente de 1870) a definição
de um bom capoeirista, era justamente a valentia de se lutar capoeira contra
qualquer indivíduo, mostrar sua força, e ter ela como meio de representação social.
Entendo o título deste trabalho, como sendo uma enquete de difícil fechamento,
deixando lacunas de profundas discussões, cabendo a nós, entendermos como se
deu esse processo de transformação da nossa arte capoeira. E aí, eram a flor da
gente, capoeiristas?


BIBLIOGRAFIA
BRASIL, Ministério das Relações Exteriores – Revista Textos do Brasil, edição
14. Brasília, 2008.
VIEIRA, Sergio Luiz de Souza – Capoeira – Origem e História. Da Capoeira:
Como Patrimônio Cultural. Tese defendida na PUC/SP, 2008.
HARTOG, François – Regimes de Historicidades, Ed. Autêntica, 2014.
DORATIOTO, Francisco – Maldita Guerra, Ed. Cia das letras, 2002.
Postado por Mestre Bicheiro 

sábado, 10 de março de 2018

Capoeira é coisa de malandros?

Mestre sinhozinho

Capoeira é coisa de malandros?
Por Vivian Fonseca

O senso comum costuma associar a
capoeira, principalmente até as primeiras décadas do século XX no Rio de Janeiro, como atividades de malandros e de categorias sociais que orbitavam em torno de um ambiente de boemia. Exemplos para isso não faltam: de Manduca da Praia, capoeira que viveu no início do século no Rio e que soube traçar relações proveitosas com figuras de elite que o mantiveram fora da cadeia; até Madame Satã, personagem lendária da região da Lapa que soube enfrentar o preconceito contra o homossexualismo a base de muitas navalhadas e rabos de arraia. No entanto, nem só do universo da rua e da malandragem a capoeira do Rio se alimentou no início do século. Ainda nos anos 1920, uma capoeira voltada para filhos da elite carioca despontou e fez escola pelas mãos de Agenor Moreira Sampaio, o Mestre Sinhozinho de Ipanema.

Sinhozinho fotografado aos 51 anos de idade.
            Por mais que se convencione associar o ensino de capoeira em academia como uma invenção baiana, personificado nos Mestres Bimba e Pastinha, Sinhozinho abre sua instituição de ensino na mesma época, no Rio. Sinhô, como era conhecido, nasceu em 1891, em Santos, filho de um tenente-coronel e chefe político local. Esses dados nos permitem perceber que Sinhozinho, como seu próprio apelido sugere, não provinha das classes baixas, fazendo parte das camadas mais favorecidas. Sua clientela também era composta por rapazes de classe média, em geral jovens de Ipanema e Copacabana. Aprendeu boxe e luta greco-romana, e achando que a capoeira se mostrava pobre para a luta, principalmente a ‘agarrada’, resolveu aplicar alguns dos golpes aprendidos nas outras artes marciais à capoeira. Em sua Escola, a capoeira era praticada sem a utilização de qualquer instrumento musical e o treinamento era auxiliado por levantamento de peso, o que o difere completamente de outros treinamentos de capoeira até finais do século XX. Sinhozinho também atuou como preparador físico, tendo trabalhado, por exemplo, para o América Futebol Clube. Pela sua Escola passaram figuras notórias em nossa sociedade, tais quais: Antonio Carlos Jobim e Rudolf Hermany, lutador e um de seus alunos mais conhecidos. 


          Tom Jobim (em primeiro plano) na Academia de Mestre Sinhozinho.
            Alvo de diversas polêmicas, principalmente pela fala de diversos capoeiristas que afirmam que a atividade praticada em sua Academia não era capoeira, Sinhô conseguiu projetar a imagem de sua atividade física para além das ruas. Defendendo a criação de seu mestre, Hermanny, no site que criou em sua homenagem, aponta que “A  capoeira de Sinhozinho era baseada na capoeira  das antigas maltas que tanto perturbaram as autoridades do  Rio de Janeiro durante longos anos e teve pouca influência das modalidades praticadas ao som dos berimbaus”.  Vê-se nessa fala, uma busca de respaldo para a capoeira de seu Mestre, Sinhozinho. Baseando-se em uma suposta tradição de capoeira do século XIX, não poderia haver dúvidas com relação à atividade que Sinhô ensinava.
            Para além dessas questões, Sinhozinho nos ajuda a entender que além da rua e da boemia, a capoeira freqüentou os salões e gingou com parte da fina flor da elite carioca. Elite esta, que já flertava, mesmo que de maneira velada, com a prática de origem negra, ainda no século XIX.

FOTO : Agenor Moreira Sampaio, mais conhecido como Sinhozinho, ao centro, e alunos. Ano: 1940 (Paulo Azeredo é o último à esquerda). 


Refs. web.

                          Postado por Mestre Bicheiro

sexta-feira, 9 de março de 2018

Paula de Brito

Paulo Brito
Escritor

Francisco de Paula Brito, nasceu Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1809 ,morreu Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1861.
Francisco de Paula Brito, que escrevia sobre o nome de Paula Brito, foi um editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista brasileiro.
Francisco de Paula Brito nasceu em uma família humilde, na então Rua do Piolho (hoje Rua da Carioca), no Centro do Rio de Janeiro, filho do carpinteiro Jacinto Antunes Duarte e de Maria Joaquina da Conceição Brito. Aprendeu a ler com sua irmã. Morou em Magé dos seis aos quinze anos, voltando à sua cidade natal em 1824, ao lado do avô, o sargento-mor Martinho Pereira de Brito.[1] Foi ajudante de farmácia, aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional e, posteriormente, trabalhou no Jornal do Commercio, como diretor das prensas, redator, tradutor e contista. Em 1830, casou-se com Rufina Rodrigues da Costa.
Em 1831, comprou um pequeno estabelecimento de um parente, Sílvio José de Almeida Brito, na Praça da Constituição, nº 31, onde funcionavam uma papelaria, uma oficina de encadernação, e um ponto de venda de chá. Paula Brito adquiriu de E. C. dos Santos um prelo, e ali o instalou. Em 1833, possuía 2 estabelecimentos: a “Typographia Fluminense”, na Rua da Constituição, nº 51, e a “Typographia Imparcial”, no nº 44. Em 1837, mudou para o nº 66 e expandiu a loja para nº 64 em 1839.
Em 1848, Brito possuía 6 impressoras manuais e uma mecânica, e expandiu suas instalações para os nº s 68 e 78, esse constituindo sua “Loja do Canto”, sua livraria e papelaria, e criou filiais em sociedade com Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa e Cândido Lopes, formando com esse último a “Tipografia e Loja de Lopes e Cia”, em Niterói.[2]
Foi ativista político e o primeiro a inserir no debate político a questão racial.[1] Em sua tipografia foram impressas obras como O Mulato e o jornal O Homem de Cor, o primeiro jornal brasileiro dedicado à luta contra o preconceito racial, colocando-o como precursor da imprensa negra.
Durante a Regência, entraram em cena os pasquins, e a tipografia foi um dos pontos de manifestação dos descontentes com os rumos políticos do país, e Paula Brito tornava-se cúmplice daqueles que o procuravam para terem seus trabalhos impressos, sob sigilo.
Francisco de Paula Brito criou, em sua loja, a “Sociedade Petalógica”, ou "Sociedade Petalógica do Rossio Grande", nome devido à “liberdade” que Brito alegava que seus membros davam à imaginação (uma peta = uma mentira), e que reunia o movimento romântico de 1840-1860: Antonio Gonçalves Dias, Laurindo Rabelo, Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antonio de Almeida. Toda a elite da época, entre políticos, artistas e líderes, reunia-se na “Livraria de Paula Brito”.
Em 1851, uma de suas revistas, “A Marmota na Corte”, incluía o encarte de um figurino, e Paula Brito trouxe de Paris o litógrafo Louis Therier, que passou a fazer as litografias para a revista.

Uma prensa usada na litografia
Em 2 de dezembro de 1850 criou a “Imperial Typographia Dous de Dezembro”, data de aniversário seu e de D. Pedro II, que se tornou seu acionista, patrocínio esse dado mais por caráter pessoal do que político partidário. Paula Brito foi, assim, o primeiro editor genuinamente não-especializado do país, pois incluía grande variedade de obras e assuntos, ao contrário de seus antecessores, que se dedicavam mais aos assuntos técnicos.
Paula Brito editou, em 1832, a 1ª revista feminina do país, “A Mulher do Simplício”, ou “A Fluminense Exaltada”, que foi impressa por Plancher. A revista existiu até 1846, quando foi substituída por “A Marmota”, que durou, com algumas mudanças de título, de 1849 a 1864, 3 anos após sua morte. Paula Brito foi também um dos primeiros contistas brasileiros, alem de escrever peças de teatro e poesia.
Há registro de 372 publicações não-periódicas feitas por Paula Brito, de temática variada, oitenta e três na área médica,[3] mas a maior parte constituída de dramas. Brito incentivava a literatura nacional. Pode-se considerar que o primeiro romance brasileiro com algum valor literário tenha sido O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, publicado por Brito em 1843. Empregou o poeta Casimiro de Abreu e o jovem Machado de Assis, que começou como revisor de provas de Paula Brito e deu início à carreira literária como colaborador de “A Marmota Fluminense”. Paula Brito foi o primeiro editor de Machado de Assis.
Em 1857, os acionistas insatisfeitos conseguiram a liquidação da “Typographia Dous de Dezembro”, e sua firma foi transformada na “Typographia de Paula Brito”, com apenas um endereço, sob o auxílio financeiro do imperador. A publicação de livros caiu, reduzindo-se para 12 em 1858 e 15 em 1861, ano de sua morte. Faleceu em sua residência, no Campo de Sant'Anna, nº 25 em 15 de dezembro de 1861. Sua viúva continuou o negócio em sociedade com o genro até 1867, caindo a produção, e em 1868 a Sra. Rufina Rodrigues da Costa Brito ficou sozinha, transferindo seu negócio para a Rua do Sacramento, nº 10, onde sobreviveu até 1875.

Referências
Wikipedia
1. ↑ a b «Francisco de Paula Brito». A cor da cultura. Fundação Roberto Marinho. 2010. Consultado em 1 de outubro de 2017. Cópia arquivada em 1 de outubro de 2017
2. ↑ Hallewell, 1985, p. 85
3. ↑ GONDIN, Eunice Ribeiro, 1965. In: Hallewell, 1985, p. 88.

                             Postado por Mestre Bicheiro

terça-feira, 7 de novembro de 2017

PALMAS E SUA ORIGEM

PALMAS



Qual a origem do nome Palma: LATIM 

Qual o significado do nome Palma: PALMEIRA.  

O ato de bater as palmas das mãos em sinal de aprovação tem origem desconhecida, mas existe há pelo menos 3 000 anos. Nessa época, o gesto era essencialmente religioso, popularizado em rituais pagãos de diversos povos como um barulho destinado a chamar a atenção dos deuses. No teatro clássico grego, tornou-se, então, a forma pela qual os artistas pediam à platéia que invocasse os espíritos protetores das artes. O costume chegou ao Império Romano, onde passou a ser comum nos discursos políticos. Preocupado com a repercussão de suas aparições públicas, o imperador Nero carregava uma claque com mais de 5 000 soldados e cavaleiros. Dali, o costume espalhou-se para o resto do mundo. Nos séculos XVIII e XIX, quase todos os teatros de Paris contratavam pessoas que tinham uma única função na platéia: aplaudir. O truque continua utilizado até hoje pelas emissoras de TV, especialmente em programas de auditório. Agora, bater palmas para marcar o ritmo de uma música é provavelmente um costume muito mais antigo.

PALMAS DE TERREIRO



A introdução das palmas na capoeira deve ser encarada de acordo com o contextorítmico e folclórico das manifestações afros. O conhecido ritmo da palma de terreiro pode ter sido herdado pela capoeira nos terreiros de candomblé, ou até mesmo nas rodas de vadiação nas ruas, onde se praticava também o samba de roda, ou ainda, nas manifestações praticadas nas Senzalas e Quilombos. As palmas não são apenas usadas na capoeira, mas também em outras manifestações culturais, como o já citado samba de roda, candomblé e o côco, ganhando neste último a conotação de palma praieira.

Assim, a palma de terreiro ou praieria, é o ritmo utilizado na grande maioria das rodas de capoeira, com excepção da Regional, pois Mestre Bimba introduziu a “palma 1, 2 3…” como a própria música diz, “Olha a palma de Bimba, é 1, 2, 3…”, como forma de diferenciar a sua Luta Regional Bahiana.

PALMAS  NA  ANGOLA



Na Capoeira Angola quase não se vê a utilização das palmas, pois a grande maioria dos mestres considera que é mais importante o capoeirista concentrar-se e ouvir melhor as letras das músicas, bem como a variação melódica dos instrumentos, criando um ambiente de concentração total.

PALMAS  NA  REGIONAL



Na Capoeira Regional, a palma é de marcação forte, define um jogo viril e objectivo, fazendo com que o capoeirista tenha uma participação activa tanto quando está a jogar, como quando está a observar o jogo de outros capoeiras. A conhecida palma de Bimba, que marca “1, 2, 3” é a utilizada na Regional.

PALMAS  NA  CAPOEIRA   MODERNA



Hoje em dia, muitos grupos desenvolvem a utilização das palmas de maneiras diferentes. Tanto utilizando a formação do instrumental da Capoeira Angola e batendo a palma praieira, como também se vê a palma de Bimba.

Quando se desenvolve um ritmo mais próximo de Angola, introduz-se uma palma de marcação “1, 2” para criar um ambiente mais participativo entre os componentes da roda. Deste modo, constata-se que não existe um consenso entre os diversos grupos de Capoeira.

Considerações finais

Na história da própria capoeira, muitos dos fundamentos e tradições, vêm sendo discutidos e estudados de maneira a aumentar o conhecimento dos capoeiristas, e tentando resgatar da forma mais fiel possível a prática da capoeira.
Neste caso, as palmas são ainda um objecto de estudo na musicalidade da capoeira, sendo de crucial importância a sua utilização nas rodas.

PALMAS  NO  SACRO

FUNDAMENTOS DE CANTAR, BATER PALMAS



Para tentar explicar como se dá a comunicação entre os planos espiritual e material, grosseiramente, podemos imaginar essa comunicação através de freqüências.
O rádio, a TV, o celular são exemplos. Estes aparelhos emitem freqüências de um ponto, o transmissor, até outro ponto, o receptor. As freqüências não se cruzam porque uma é mais forte do que a outra. O receptor recebe apenas a freqüência na qual está programado.
Analogamente, se imaginarmos que nossos pensamentos são como freqüências e as vibrações emitidas pelos espíritos também são freqüências, podemos dizer que são essas freqüências que ligam espíritos e matéria, onde conseguimos nos conectar com os espíritos de acordo com nossos pensamentos e atitudes, logo, pensamentos baixos atraem espíritos de camadas mais inferiores do plano espiritual, e pensamentos mais elevados, atraem espíritos mais elevados.
Quando nos dirigimos ao terreiro, dependendo de como foi nosso dia, nossa semana, nós estamos vibrando numa freqüência tal que pode interferir nos trabalhos, ajudando ou atrapalhando. Um dia vivido em torno de brigas e discussões, alimentação pesada, pensamentos voltados para o ódio, má conduta, etc, deixam a freqüência muito baixa, atraindo espíritos que vibram numa esfera mais baixa, e isso faz com que o trabalho seja prejudicado. Um dia bem vivido, trabalhado e participativo nas coisas particulares, uma boa alimentação, bons pensamentos, preparação mental para a gira, faz com que nossa freqüência fique mais elevada, atraindo espíritos de esferas mais elevadas.

Para que os trabalhos não sofram variações excessivas de freqüências, para que se evitem a atração de espíritos de esferas inferiores e para o bom andamento da gira, é usado um artifício que acelera o processo para que todos, ou pelo menos a maioria, se concentrem no trabalho e eliminem pensamentos mais baixos, que é de cantar e bater palmas.

fontes  de pesquisa: web

Postado por Mestre Bicheiro


domingo, 12 de fevereiro de 2017

ENTREVISTA HISTÓRICA COM MADAME SATA




 Entrevista Histórica


Madame Satã


    A personagem da entrevista desta semana era lenda no meu tempo de menino em Botafogo. Uma espécie de gunfighter da Lapa, fechando bares e enfrentando as terríveis Polícia Especial e D.G.I. (Departamento Geral de Investigações), que enchiam de pavor quem andasse nas ruas, coisa que os garotos da época, na maioria, faziam. E havia o paradoxo aparente de homossexualismo de Madame Satã. Aparente, sim, porque e Julio César, Alexandre o Grande, ou, próximo de nós, Heydrich e Goering? Pensar que violência é característica heterossexual não passa de balela primitiva.
    Satã nos impressionou bastante, porque é um tipo completamente fora do nosso âmbito de experiência. Todos nós duvidamos de tudo, inclusive de nós mesmos. Convertemos nossos superegos em catedrais em que nos ajoelha­mos e pedimos perdão a nós mesmos, sem resultado. Satã tem certeza das coisas que faz. Eu disse, na entrevista, que ele me parece literatura, à parte mais sofisticado e legítimo do que Jean Genet (o que Sartre escreveria sobre ele, fico pensando). Não esconde o jogo. Se aceita como é. Há coisa mais dificil? Pra nós (um mítico nós e todos, bem entendido, mas os incluídos se reconhecerão) impossível.
    Eu diria mais: que Satã representa a verdadeira contracultura brasileira, que essa que aí está, apesar de seus valores intrínsecos e universais, nos foi imposta de fora pra dentro, o que às vezes é bom, outras, não. Já Satã emergiu deste asfalto, deste clima, deste ragu cultural brasileiro, que tentamos negar inutilmente, mas que, tal qual o rio do poema de Eliot, é um deus primitivo, capaz de adormecer, apenas e sempre vivo, vingativo e traiçoeiro. A sociedade urbana, de consumo, aqui, é puro verniz, descascando visivelmente. Outras forças, suprimidas, estão aí, poderosamente latentes, acumulando impacto.
    A inocência de Satã das coisas da moda elitista, de modelos de raciocínio, é completa. Mas nenhum de nós se sentiu tentado a ironizá-lo. Não por medo. Ele é bem mais educado do que a maioria dos grã-finos que conheço (um bom número, acrescento). Foi por respeito. Sentimos uma personalidade realizada. Quantos de nós podem dizer a mesma coisa? Nesse mundinho de classe média pra cima, que muita gente boa (tradução poderosa) imagina ser o Brasil, e que é, no duro, uma ínfima e arrogante minoria, pouco existe de igual em termos de tipo. Quem vai prevalecer? Não percam o próximo e emocionante capítulo.
                                                                          (Paulo Francis)

* * *
“A morte é o fim de todos. Pois, que venha logo, que eu não quero ficar entrevado numa cama.” A declaração, dada a um jornalista, no leito do hospital onde, de fato, sua história terminaria dois meses mais tarde, é daquele que talvez seja o mais emblemático dos malandros cariocas: João Francisco dos Santos, o Madame Satã.
O nosso ilustríssimo personagem foi redescoberto de seu anonimato em 1971, pelo jornal Pasquim.
Antes de ser preso, o auto-denominado “primeiro travesti-artístico brasileiro” vivera uma vida de aventuras. Nascido em 1900 em Glória do Goitá (PE), aos sete anos e órfão de pai, foi trocado por uma égua. Depois, seria adotado por uma senhora e trazido para o Rio de Janeiro. Aos 13 anos, fugiu de casa e caiu na vida, na Lapa. Ali, logo começaria a viver de pequenos furtos e outros expedientes e se iniciaria nas artes da valentia, tornando-se famoso pela habilidade com a navalha e pelo murro poderoso – o qual, segundo episódio envolto em lenda, teria precipitado a morte do compositor Geraldo Pereira, após uma briga no restaurante Capela.
Aos 76 anos, ele já tinha aposentado a navalha havia muito tempo. Estava internado num hospital do Inamps, em Ipanema, vitimado por um câncer no pulmão em estágio avançado. Antes disso, ele passara uma longa etapa no presídio da Ilha Grande e, depois de solto, fixara residência na Vila do Abraão, na mesma ilha, onde cuidava de uma filha adotiva e
Mas no ano de 1976, a Lapa de outrora tinha desaparecido e morre e o mais famoso malandro da antiga Lapa estava velho e esquecido por quase todo mundo – menos pelo cartunista Jaguar, que contou ao repórter Márcio Allemand como levou o corpo do amigo que ele amparara em seus últimos dias para ser enterrado na Ilha Grande.

Entrevista


Sérgio - Quantos anos você esteve preso?

Ao todo eu tirei 27 anos e oito meses.

Sérgio – E há quantos anos você está liberdade

Há seis anos. Saí no dia 3 de maio, há seis anos.

Sérgio – Mas você continua morando na Ilha Grande.

Continuo morando na Ilha Grande porque eu achei que é um lugar onde eu posso viver mais sossegado, mais descansado das perseguições da polícia e mesmo da vida agitada que eu levava.

Millôr - Que idade você tem?

Tenho 71 anos de idade.

Sérgio - Com essa cara?! É verdade que você tem mãe viva, ainda?

Tenho sim, está com 103 anos e mora no interior de Pernambuco.

Millôr - Você é pernambucano?

Sou.

Millôr - Você está no Rio há quantos anos?

 Eu cheguei no Rio em 1907 e fui morar na rua Moraes e Vale, 27, ali no largo da Lapa.

Millôr - E que profissão você exercia?

Eu sempre fui cozinheiro. Até 1923 eu fui cozinheiro. Em 1924 eu ingressei na Casa de Caboclo.

Millôr - Que nível de instrução você tem?

Sou analfabeto de pai e mãe.

Millôr - Pelos seus amigos você é chamado como? De Madame Satã ou é chamado pelo seu próprio nome?

De Satã.

Millôr - Como é seu nome todo?

Meu nome todo é João Francisco dos Santos, sou filho de Manoel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Conceição.

Millôr - Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?

É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.

Millôr - Você sabe que nós aqui fazemos um jornal que é marginal. De modo que o fato de você ter uma vida um pouco à margem da sociedade só faz com que nós tenhamos uma grande emoção em falar com você. Agora, você ficou famoso na mitologia carioca, na lenda do Rio, porque você foi um homem que dominou a vida da Lapa, pelo menos esta vida de uma certa margem da sociedade do Rio, e você era famoso por ser o homossexual mais macho que já houve na história do Rio.

Isso é o que diz a história, né?

Sérgio - Mas você é homossexual?

Sempre fui, sou e serei.

Millôr - De onde vem a sua fama de extraordinária masculinidade? Eu sei que foi através de inúmeras brigas. Conte alguma coisa.

Eu comecei em 1928. Deram um tiro em um guarda civil na esquina da rua do Lavradio com a avenida Mem de Sá e mataram, né. Eu estava dentro do botequinzinho e disseram que fui eu. Então fui preso. Eu tinha 28 anos. Aí eu fui para o Depósito de Presos e daí para a Penitenciária e fui condenado a 26 anos. Na penitenciária, não. Na Casa de Correção.

Millôr - Segundo você, injustamente.

Injustamente.

Sérgio - Mas você não deu o tiro no guarda?

Não, o revólver é que disparou na minha mão. Casualmente.

Sérgio - Foi a bala que matou?

Não, a bala fez o buraco. Quem matou foi Deus.

Sérgio - Balas que saíram do seu revólver mataram quantos?

Bala que saiu do meu revólver só matou esse porque os outros era a polícia que matava e dizia que era eu.

Sérgio - Mas você usava muito era a navalha, né?

Às vezes, não era sempre não.

Chico - Eu ouvi dizer que você matou um com um soco.

Não, eu fui acusado de ter matado o falecido compositor Geraldo Pereira com um soco. Mas o caso foi o seguinte: eu entrei no Capela e estava sentado tomando um chope. Ele chegou com uma amante dele (ainda vive essa mulher), pediu dois chopes e sentou ao meu lado. Aí tomou uns goles do chope dele e cismou que eu tinha que tomar o chope dele e ele tinha que tomar o meu. Ele pegou o meu copo e eu disse pra ele: olha, esse copo é meu. Aí ele achou que aquele copo era dele e não era o meu. Então eu peguei meu copo e levei para a minha mesa. Aí ele levantou e chamou pra briga. Disse uma porção de desaforos, uma porção de palavras obscenas, eu não sei nem dizer essas coisas. Aí eu perdi a paciência, dei um soco nele, ele caiu com a cabeça no meio-fio e morreu. Mas ele morreu por desleixo do médico, porque foi para a assistência vivo.

Sérgio - Teve uma vez que você deu uma navalhada na traseira de um sargento. Como é que foi essa história?

Eu não dei navalhada na traseira do sargento não. Eu estava sentado ali no Canaã e entrou um sargento do Exército e me deu seis tiros. Não me conhecia, não sabia quem era eu, eu nunca tinha visto ele, não avisou nem nada, de uma mesa pra outra. Quando ele acabou de dar o último tiro guardou a Mauser e saiu pela porta afora. Eu olhei prum lado e olhei pro outro, não vi sangue e falei: bem, então eu estou vivo. E saí correndo atrás dele. Quando estava subindo ali a rua Taylor, parece que ele passou por uma cerca de arame farpado, sei lá, e se rasgou todo. Eu sei que ele levou quarenta e poucos pontos.

Millôr - Você ainda briga hoje, ainda tem energia?

Brigar eu não brigo porque eu nunca briguei, mas na minha casa a gente come o que Deus dá e o que faltar Nossa Senhora inteira.

Chico - Satã, você respondeu a quantos processos?

Eu tenho 29 processos, sendo 19 absolvições e 10 condenações.

Chico - E quantos homicídios?

Três.

Chico - E agressões?

Ah, meu filho, somente nove.

Millôr - Em quantas brigas você calcula que tenha entrado?

Ah, que eu não fui preso, deve ter umas três mil. Eu gostava da briga. Eu nunca briguei com paisano na minha vida. Essa mania da polícia chegar, bater e começar a fazer covardia, eu levantava e pedia a eles pra não fazer isso. Afinal de contas, se o sujeito estiver errado, eles prendam, botem na cadeia, processem, tá certo. Agora, bater no meio da rua fica ridiculo. Afinal nós somos seres humanos. Eles achavam que eu estava conspirando contra eles, então já viu, né.

Millôr - Quer dizer que você tinha raiva da opressão policial.

Sempre tive e morro com ela.

Sérgio - Satã, me diga uma coisa: essa história de que você pegava garoto à força é verdadeira?

É coisa que eu nunca fiz na minha vida, porque era coisa que não precisava fazer. O senhor deve entender, o senhor que é da vida moderna, sabe muito bem que isso é uma coisa que não se precisa pegar ninguém à força.

Sérgio - Eu sempre ouvi falar, desde garotinho, quando eu ia passear na Lapa e falavam comigo: cuidado que o Madame Satã vai te pegar.

Conversa fiada, eu não era tão tarado assim.

Millôr - A Lapa foi durante muito tempo um centro de boemia. Você conheceu gente famosa, além dos marginais?

Fui amicíssimo do Chico Alves, fiz muitas serenatas com ele, Noel Rosa, Orlando Silva, Vicente Celestino.

Chico - Quem é que te deu esse apelido de Madame Satã?

Esse apelido de Madame Satã ganhei em 1938, no Bloco Caçador de Veados, depois passou para Caçador da Floresta e morreu com esse nome. Depois nasceu como Turunas de Monte Alegre.

Sérgio - Mas você era caçado ou caçador?

Eu era caçador.

Chico - Mas conta a história do apelido.

Bem, havia o baile de carnaval e o concurso. Então eu me exibi com a fantasia de Madame Satã no Teatro da República e ganhei o primeiro lugar. Ganhei um tapete de mesa e um rádio Emerson, feito um balezinho, ele abria do lado, assim, feito uma portinha. O último ano que eu desfilei foi em 1941. Eu estava preso, mas anulei um processo e vim passar o carnaval na rua. Desfilei com a Dama de Vermelho.

Sérgio - O que que você acha do Clóvis Bornay?

Eu vou te explicar uma coisa: eu não tenho o que dizer dessas bichas velhas, não.

Chico - Ainda agora nós estávamos conversando sobre Osvaldo Nunes. É verdade que ele briga bem?

Eu conheci o Osvaldo Nunes, mas ele não era cantor ainda. Mas eu não acho que ele brigue bem, não. De quando em quando eu fico sabendo dos escândalos que eles fazem por aí. Eu acho que do jeito que eles brigam não é briga, é escândalo.

Millôr - O Osvaldo Nunes declara publicamente que o homossexualismo dele veio através da prisão. Ele teria sido preso e foi violentado.

Conversa fiada, é mentira. É mentira porque na cadeia ninguém faz isso no peito.Tirei 27 anos e oito meses de cadeia e nunca vi ninguém fazer isso no peito. Fazem por livre e espontânea vontade porque querem fazer. Quando eu fui para a cadeia já era pederasta, já era viciado, nunca fiz isso no peito.

Millôr - Peraí, você está chamando isso de viciado? Eu não chamo de viciado não. Você está dando outro nome.

Eu não desdigo o que digo, mas para uma parte é.

Jaguar - Nesse negócio de prisão, o Lucena tá me falando aí, que todo criminoso primário tem que entrar em pua. É verdade isso?

Isso é conversa fiada.

Chico - E a história do xerife? O garoto novo entra na cela e o xerife, ó.

Houve a história do xerife.

Paulo Garcez – O Paulo Francis foi o nosso xerife.

Mesmo no tempo do xerife só se viciava quem queria. O sujeito chegava lá, filho de papai e mamãe, tinha o olho grande, apanhava o cigarro do chefe do alojamento, comia a comida do chefe do alojamento porque queria comer uma comidinha melhor, queria dormir na manta do chefe do alojamento, queria tomar banho com o sabão do chefe do alojamento, ora ...

Millôr - Alguma vez você já foi violentamente apaixonado? Você já foi casado no sentido homossexual?

Não, eu nunca fui dessas coisas não, esse negócio de amiguinho, casamento. Nunca fui porque sempre achei feio, achava ridículo. Esse negócio de andar apaixonado, de fazer escândalo no meio da rua, isso é pouca vergonha.

Millôr - E com mulher, você é casado?

Sou casado. Tenho seis filhos de criação.

Chico - Esse seu passado não influiu na sua relação com a sua mulher? Como é que ela encara o seu passado?

Se ela não quiser encarar, ela que se suicide. O que é que eu tenho com isso? Quando ela me conheceu já sabia minha vida, casou comigo porque quis casar.

Millôr - Você casou com que idade?

Casei com 34 anos.

Millôr - E está com a mesma mulher até hoje?

A mesma mulher.

Sérgio - Você disse que foi amigo do Francisco Alves. O que você achava dele?

O Chico Alves pra mim foi uma grande pessoa, não só como cantor, mas também como companheiro de farra e como amigo.

Sérgio - E Noel Rosa, era bom sujeito?

Noel Rosa já desceu de Vila Isabel como um bom sujeito, pelo menos como cantor e como companheiro.

Jaguar - Você conheceu a Araci de Almeida?

Araci de Almeida eu conheci menina, ainda, quando ela começou a gravar as músicas de Noel Rosa. Pra mim foi uma grande amiga e uma grande companheira. Era o meu tipo, o tipo assim que quando se queimava já viu, né.

Millôr - Nessas suas prisões qual foi o criminoso mais bárbaro que você conheceu?

O criminoso mais bárbaro que eu conheci na cadeia foi o falecido Feliciano.

Sérgio - O que é que ele fez?

Me parece que o crime dele foi em 1945 ou 1946. Ele tinha matado o sogro e botado fogo. Na cadeia, quase todo o ano ele matava dois. O último que ele matou foi o Gregório.

Millôr - Ah, ele é o tal que matou o Gregório. E você conheceu o Gregório?

Eu conhecia o Gregório desde o tempo de São Borja.

Sérgio - E o que você foi fazer lá?

Eu era muito amigo da família Mostardero, do Rio Grande do Sul, o capitão Manoel Mostardero, que veio ser diretor da penitenciária várias vezes, e eu ia sempre lá passear. O Gregório era cocheiro do pai do falecido Getúlio.

Millôr - E você foi amigo do Gregório (chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas)?

Amicíssimo, ele morreu nos meus braços. Eu estava a uns 15 metros quando ele levou a facada.

Millôr - Você quer contar a história?

O que eu sei é a legítima história, a verdadeira. Isso eu sei porque na época eu estava sumariando, porque tinha muito processo, e muitas vezes eu desci da Colônia para a penitenciária e trouxe muito bilhete do Feliciano para o Gregório e levei muita roupa e muito dinheiro para o Feliciano na Colônia. Mas a história é a seguinte: entrou em cana um rapazinho lá de São Borja, muito amigo do Gregório. Trabalhava na rouparia com o falecido Gregório, mas um dia o rapa­zinho brigou no pátio e foi para a Colônia, de castigo. O Feliciano, nesse tempo, era chefe do alojamento 2 na Colônia Penal Cândido Mendes, onde eu estava. Como Gregório era muito amigo do diretor, trouxe o rapazinho com ele na lavan­deria, mas depois o garoto começou com negócio de maconha e mandaram ele de novo para a Colônia. O Gregório, então, deixou ele lá pela Colônia e mandava sempre um dinheirinho. Cinqüenta, cem contos todo mês. Eu mesmo levei várias vezes. Aí o Gregório escreveu um bilhete pro Feliciano para que ele olhasse o garoto lá, para que ninguém mexesse com o garoto, fizesse sujeira.

Millôr - Havia algum interesse homossexual nisso, alguma coisa assim?

Não, não existia nada de pederastia. Era só amizade. Então o Feliciano ficou tomando conta do garoto lá. Mas aí o que é que o Feliciano faz? Pegou e vendeu o garoto.

Millôr - O que se chama vender?

Vendeu como escravo, para homossexualismo.

Chico - Mas o garoto era pederasta?

Não era mas foi. Alguém nasce sabendo? Então o rapazinho escreveu para o Gregório, pedindo que mandasse buscar ele porque estava sendo martirizado, porque o Feliciano vendia o garoto uma noite pra um, uma noite pra outro. Aí o Gregório mandou buscar o rapaz e ele quando chegou contou tudo ao Gregório. O Gregório pegou e disse: "É né, então eu vou cortar a mesada daquele nego safado porque ele não pode fazer isso".Aí o Feliciano lá na colônia arranjou com o diretor, que era um diretor muito bom, o doutor Carlos, pra descer. Aí ele veio e se virou para o Gregório e disse: "Olha, de hoje em diante você vai passar a me mandar 150 contos porque senão eu vou te arrancar o pescoço". O Gregório era um negro que não era covarde, não acreditou. Um ano depois, Feliciano desceu, foi direto à rouparia procurar o Gregório e disse que o Gregório tinha que indenizar ele naquele um milhão e pouco. O Gregório disse que não dava e contou o caso para o chefe de disciplina, o Souza. O Souza, então, falou que ia mandar o Feliciano de volta para a Colônia. Na noite de segunda-feira, saiu no boletim o nome do Feliciano na lista do pessoal que ia para a Colônia. O Feliciano procurou o Gregório e disse: "Olha, você vai me mandar para a Colônia, mas se eu fosse você eu ia falar com o diretor para me tirar da lista senão você vai se dar mal. Vou te matar, nego". E o Gregório: "Tu é de matar ninguém, nego, tu é de matar nada." De fato, cara a cara, ele não era páreo para o Gregório. No dia seguinte bem cedo o Feliciano foi embora para a Colônia, mas quando chegou em Mangaratiba deu azar que a lancha não foi buscar os presos e o tintureiro voltou com eles. Chegaram às 11 horas da manhã. Aí o Feliciano saltou, passou na SD, a seção de controle, e foi embora para a lavanderia da penitenciária. Daí a meia hora, na hora do recreio, estava todo mundo no pátio e Gregório estava sentado bem na beirinha do banco, perto da cantina. Aí o Feliciano veio de lá, com a faca na mão esquerda, e conforme ele passou jogou a faca no coração do Gregório. Entrou mais ou menos dez centímetros, na segunda costela. O Gregório pulou, mas não agüentou mais e caiu. Pegamos ele depressa, mas quando chegamos no hospital, a uns cinqüenta metros depois, ele já estava morto.

Sérgio - Que fim levou o Feliciano?

Levou 67 facadas na Colônia Agrícola, na Ilha Grande.

Chico - Apesar dessa sua resignação em ficar preso, você nunca tentou fugir ou teve vontade de fugir?

Fiz uma fugazinha, mas foi de brincadeira. Foi em 1943, fugi de Laurindo Bita, ali na Boca da Barra. Fugimos eu e o Americano, um preto. Até no jornal saiu assim: "Mais um plano espetacular de Madame Satã; um bailado oriental e um mergulho nas águas escuras de Copacabana."

Sérgio - Mas como é que foi essa fuga?

Eu estava na Casa de Correção, então tinha embarque para a Colônia. Já de lá mesmo começou. Primeiro suicidou-se um, para não ir para a Colônia. Se jogou do terceiro andar. Quer me dar um cigarro, por favor?

Millôr - Quando você nos disse a sua idade todos nós caímos para trás. Me parece que você nunca teve nenhuma doença. Você pretende emplacar cem, fácil?

Eu morro com 84 anos.

Millôr - Sua mãe tem 103 anos, né?

É, 103 anos e viúva quatro vezes.

Millôr - Você tem consciência que é do estofo de homem como você que se fazem líderes. Você se transformou em um marginal. Se você fosse alfabetizado você seria um lider.

Eu vou lhe explicar uma coisa: Deus dá o frio conforme a roupa. Se eu fosse um intelectual, é assim que se fala? Eu não sei dizer essas coisas. Deus disse: faz por onde que eu te ajudo. Mas Deus não me ajudou porque ele sabe que se me ajudasse eu vendia o mundo com o dinheiro dele.

Millôr - De que cidade você é?

Eu sou da terra em que se dá cem cruzeiros por cabresto e não se dá dez por um cavalo. Sou de Glória do Goitá; perto de Governador de Barros.

Chico - Tem uma história que contam, que você não gostava de um delegado e um dia invadiu a Delegacia, pegou o delegado de pau. Como é que foi essa história?

Foi o Frota Aguiar.

Sérgio - Frota Aguiar, que é o presidente do IPEG hoje?

Por mim ele pode ser até presidente da República. Ele vivia me perseguindo. Um dia eu telefonei para ele e disse que era mentira. Ele disse que não era, que ia me dar um pau e me mandar pra cadeia. Então, eu disse pra ele: bem, eu vou falar com o senhor, já sabe que eu vou quebrar a sua cara. Aí eu fui.

Sérgio - E como é que foi?

Quebrei a cara dele e me deram uma surra que quase que me mataram, mas quebrei a cara dele. Ele ia me bater na minha casa, eu já estava lá, lá mesmo apanhava.

Sérgio - Está me chamando atenção uma coisa: você não sabia capoeira, nenhuma luta especial e no entanto você brigava contra rádio-patrulhas?

Eu não brigava, eu me defendia.

Sérgio - Mas você se defendia contra vários e no entanto você não é nenhum atleta. Você tem que altura?

Eu devo ter 1 ,85m, mais ou menos.

Sérgio - E quanto que você pesa?

Agora eu devo estar pesando 73 quilos.

Sérgio - Pois é, você não é um físico privilegiado.

Naquela época eu pesava 88,89.

Millôr - Você acha que você tem o corpo fechado?

Bom, eu não tenho corpo aberto. Se eu tivesse corpo aberto eu estava fedendo. Fechado eu tenho que ter.

Millôr - Por que você se fixou na idade de 84 anos?

Pode anotar aí. Se o senhor não estiver vivo, talvez seus filhos estejam. Deixe gravado aí porque eu vou morrer com 84 anos.

Millôr - Você disse que é analfabeto. Mas eu queria saber qual é o tipo de informação que você tem a respeito das coisas. Você está sempre a par da política nacional? Você sabe, por exemplo, quem é o presidente da República? Quem é Aristóteles Onassis, casado com a Jacqueline Kennedy?

Eu sei que ele é a primeira fortuna dos Estados Unidos.Agora, o que ele é eu não sei.

Millôr - Charles de Gaulle, você sabe quem é?

Foi durante muitos anos o primeiro-ministro da França, não é?

Millôr - Você sabe o que é um avião supersônico?

Eu não sei explicar muito bem, não.

Millôr - Eu acho que ninguém aqui sabe.

Jaguar - Quando Nelson Cavaquinho foi da polícia, ele nunca te prendeu, não?

Nunca. Nelson Cavaquinho é muito meu amigo, sempre foi.

Jaguar - Mas ele não era civil.

Mas era muito meu amigo.

Millôr - Pra você saber como você é um homem glorioso na história do Rio de Janeiro, eu já escrevi um show musical em que tinha um quadro em que você entrava. Você brigava na Lapa com uma rádio-patrulha inteira, eles não tinham maneira de prender você. De repente eles empurram você em cima de um carrinho-de-mão, te amarram e saem no pau com você no carrinho-de-mão amarrado. Isso nunca aconteceu, não?

Aconteceu quase igual. Antes de vir a Viúva Alegre eu saí muitas vezes num carrinho-de-mão amarrado.

Millôr - Que coisa impressionante! Eu não sabia disso.

Fortuna - O que era a Viúva Alegre e por que tinha esse nome?

A Viúva Alegre era um carro de polícia assim como esses jipes, mas não era bacana assim. Era um tipo de viúva bem mixa. Era um tipo de jipe com grade em volta era pintado de preto. Depois é que veio o tintureiro.

Millôr - E os seus filhos e a sua mulher?

Eu tenho uma filha que é professora de acordeão e funcionária pública do Ministério da Justiça.Tenho outro que mora em Nova Iguaçu e é delega­do de Polícia.

Millôr - Delegado?

É. Tenho outro que é soldado da polícia e tem uma que mora em Belém do Pará.

Chico - São filhos de criação, não é?

São.

Millôr - Você não ganha ordenado?

Não, eu tenho ordenado. Eu crio galinha, crio pato, dou peixadas, cozinho em festas de casamento, faço tudo.

Millôr - Você não cobra um preço por isso?

Eu cobro, mas não é todo dia que se encontra um casamento, né?

Sérgio - Se alguém quiser utilizar os seus serviços o que faz? Se uma família quiser que você faça uma peixada, como é que faz?

É só escrever: Ilha Grande, Vila Abraão, Madame Satã.

Millôr - Apesar de toda luta que você teve na vida, se você tiver que dizer alguma coisa sobre a sua vida você vai dizer que você foi um homem feliz?

Eu fui sempre um homem muito feliz porque, graças a Deus, eu fui sempre um sujeito de muita saúde.

Francis - Talvez você não conheça a pessoa, mas é um grande elogio. Você é muito mais autêntico e muito mais sofisticado do que Jean Genet. Você conheceu um homem chamado Fra de Ávalo?

Não.

Sérgio - E Manuel Bandeira?

Manuel Bandeira?

Sérgio - Morava no beco.

No Beco das Carmelitas?

Sérgio - É

Não, assim de nome, não.

Sérgio - E Carlos Lacerda?

O governador Carlos Lacerda? Eu conheci muito o falecido pai dele, conheci menino ainda. O Carlos passeava sempre na Lapa quando era rapazinho.

Millôr - Odilo Costa Filho?

Não, eu conheci um Odilo que hoje é major da polícia.

Millôr - Mário de Andrade?

O Mário de Andrade que eu conheci era bicheiro.

Millôr - Você conheceu algum jornalista, intelectual, escritor, daquele tempo?

O jornalista que eu conheci lá foi o falecido Mário dos Santos e um tal de Macedo.

Chico - Satã, você respondeu os seus processos sob vários nomes. Quantos nomes você tem?

Acho que uns cinco só. Gilvan Vasconcelos Dutra, Satã Etambatajá.

Millôr - É francês?

Etambatajá não é francês não, é indígena. Tem ainda Gilvan da Silva e Pedro Filismino. Quando um nome tava muito cheio de processo eu dava outro.

Millôr - Você conheceu um cara famosíssimo na vida marginal, o Meneghetti?

O Meneghetti não era marginal, era ladrão de jóias. Eu tirei cana dura com ele em São Paulo. Ainda até pouco tempo ele estava recolhendo dinheiro para pagar a passagem dele para a Itália. Ele podia dar um curso de ladroagem, foi um dos maiores ladrões de jóias. Ele e o Alexandre Lacombe.

Millôr - Você ouviu falar no Febrônio?

Índio Febrônio do Brasil

Sérgio - Como é que é? Febrônio Índio do Brasil?

Não, Índio Febrônio do Brasil.

Millôr - Peraí, vamos esclarecer. Ele pegou garotos, esses troços?

Quando ele praticou aqueles crimes ele morava na avenida Gomes Freire, 115. Ele era dentista. Eu me dava muito bem com ele.

Millôr - Qual foi o crime dele?

Parece que ele matou uns dez ou 12 garotos. Ele matava, enterrava, depois ficava comendo até apodrecer. Quando apodrecia, ele matava outro. Foi para o Manicômio Judiciário.

Francis - Você conheceu um rapaz, eu não sei o nome dele todo, mas eu jogava sinuca muito com ele, malandro muito perigoso. Eu só me lembro do primeiro nome dele: Pedrinho. Sei que ele pegou uma cana feroz.

O Pedrinho do Catete, eu me dava muito com ele.

Francis - Onde é que ele está, hein?

Eu não sei porque a última cadeia que ele tirou foi na Colônia Penal  Cândido Mendes. Depois que ele saiu nunca mais eu vi.

Francis - Ele quis ser meu guarda-costas, uma vez.

Sérgio - E aqueles malandros famosos na Lapa, o Edgar, o Meia-Noite?

O Meia-noite não era propriamente valente. Valente era o fantoche dele, o falecido Tinguá.

Sérgio - O Meia-Noite era bicha?

O Meia-Noite era caso do falecido Tinguá, sempre foi. O Edgarzinho foi um farol que acendeu e apagou logo em seguida. Agora, quem durou mais um pouco foi o Miguelzinho. O Edgar morreu com 26 anos. Fez o primeiro crime ali na rua do Riachuelo, matou o dono do botequim. Foi absolvido porque era menor e logo em seguida fez o segundo crime na rua do Santana. Matou o dono do botequim e o garçom.

Sérgio - E desses compositores: Wilson Batista, Ismael Silva e tal, você conheceu?

Wilson Batista eu tive uma briga com ele muito grande quando ele desceu lá do morro com aquela disputa com Noel Rosa. Foi outra briga que eu tive. Foi ali na Galeria Cruzeiro, ele saiu correndo por ali. Foi quando ele tirou aquele samba "Rapaz Folgado", pro Noel.

Sérgio - E o Ismael Silva?

Ismael Silva preto? Ele estava sempre ali na Lapa. Era bom sujeito só que quando bebia muito ficava chato.

Francis - E os cabarés?

Cabarés tinham muitos. Tinha o da Anita Gagliano, o Cu  da Mãe. Sabe ali na esquina onde tem o Metro? Tinha o Bar-Cabaré Cu da Mãe, de Anita Gagliano.

Chico - Mas esse nome era escrito?

Era escrito. Tinha uma placa luminosa grande.

Sérgio - Daria pra você dar a receita de um prato que você goste de jazer?

Eu gosto de fazer uma peixada de coco, um peixe com banana. O peixe ao leite de coco é assim: o peixe é cavala, é anchova, badejo, robalo, que na minha terra chama-se camurim.

Jaguar - Pra jazer um prato pra seis pessoas, por exemplo, que quantidade de peixe precisa?

Pega-se uns dois quilos de badejo, por exemplo, que não seja a parte com cabeça porque a cabeça do peixe é uma das partes principais para o tempero do peixe. Então, se pega: cheiro, cebolinha, hortelã, tudo bem picadinho. Depois se pega o peixe, bota numa panela, coloca-se um pouco de vinagre, o tempero completo, cebola, alho, sal e se deixa uma meia hora no aviandalho. Depois se bota ele no fogo com um pouco de azeite e coloca um pouco de água mais ou menos cobrindo o peixe. Aí se bota massa de tomate ou tomate. Se quiser branco não se põe tomate. Quando ele está fervendo, que se nota bem que o peixe está cozido, se escorre aquela água. Com aquela água se faz o pirão. Se faz o pirão e se mexe com azeite português, um azeite bom. Depois se deita o peixe no prato, deixa o prato colocado ali perto do fogo e se faz novo tempero. Quando aquele novo tempero estiver fervendo, então se coloca o leite de coco. De preferência o coco raspado e não ralado.

Jaguar - No liquidificador?

É isso mesmo. Eu não entendo bem essas coisas, essa linguagem assim é dificil de eu dizer. Então, a gente pega uma colher e se raspa o coco. É assim que eu faço, dá muito bem pra se raspar. Depois se põe um pouquinho d'água fervendo naquele coco e machuca ele bem com as mãos, bem amassadinho. Depois se escorre aquele copo de leite e se coloca em cima do peixe. Logo que abrir a fervura, se tira e se coloca o tempero em cima e abafa. Está pronto o peixe ao leite de coco.

Jaguar - E faz um arrozinho pra acompanhar, não é?

Ah, faz um arrozinho. Agora, se quiser fazer o arroz com leite de coco também pode. De preferência nunca se deve fazer o arroz branco. Eu, pelo menos, não gosto de arroz branco e considero comida de hospital. Eu gosto de um arrozinho corado, mas não tão vermelho.

Sérgio - Qual foi pra você o maior malandro do Rio de Janeiro?

O maior malandro do Rio de Janeiro que eu conheci de 1907 até a época de hoje foi o que me ensinou a ser malandro e me conheceu com 9 anos de idade, foi o falecido Sete Coroas, que morreu em 1923. Quando ele morreu já me deixou como substituto dele, na Saúde e na Lapa.

Garcez - E o Brancura?

O Brancura nunca foi malandro em negócio de briga. O negócio dele era cafetizar escrava branca.

Garcez - E o Baiaco?

O negócio dele também era escrava branca. Quando ele estava no auge dele, teve dez mulheres.

Garcez - O Sete Coroas vivia de quê?

Ele chegou da Bahia em 1928 no Rio de Janeiro. Veio viver aqui na Lapa, na Ladeira de Santa Teresa, encostado nos Arcos. Depois ele mudou para Saúde e vivia do nome, porque ele barbarizou muito na Bahia e já veio pra aqui com o nome grande. Aqui ele ajuntou-se com a falecida Catita do 34, na Joaquim Silva, e criou nome.

Fortuna - O que você vai comer?

Eu quero um bife mal passado com cebola crua e uma Caracu. Sempre foi a minha comida durante quarenta anos de malandragem. Uma vez eu tomei um porre de Caracu, foi o maior porre que eu tomei na minha vida. Tomei uma caixa de Caracu de manhã cedinho e depois não chamava nem cachorro. Se vocês quiserem vocês podem dar o prazer de almoçar na minha casa. Na minha casa não, porque pobre não tem casa. Na minha maloca. Eu vou fazer um pato ao molho pardo pra vocês lá na Ilha Grande.

Jaguar - É uma boa dica.

O Nelson Pereira dos Santos me levou num tal de Saracura, um restaurante ali no posto 4, que tem comida do Norte, eu comi um pato no tucupi que pelo amor de Deus. De pato só tem o nome e de tucupi só tinha água.

Chega na nossa mesa o Lido, da Lapa, que vende bilhetes de loterias há cinqüenta anos, na Lapa. Começou vendendo na porta do Capela. Conhece muito o Satã, que pergunta qual era o apelido da Araci de Almeida.

Lido - Bituca.

Satã reclama da comida e chama o garçom.

Vem cá, eu pedi um bife, não um pedaço de sola. Você sabe que eu sou freguês do Capela há mais de quarenta anos.

O garçom leva o bife dele e traz outro.

Agora sim, é um bife.

Chico - Você conheceu ou viu o Getúlio?

Vi, falei, conheci por causa da amizade que eu tinha com o Gregório.

Chico - E o que você diz dele?

Para mim o Getúlio Vargas foi um dos homens que mais favoreceram a classe pobre do Brasil e que mais aniquilou o país.

Garcez - Você conheceu o Prestes nessa época de cadeia?

General Luís Carlos Prestes? Eu tirei cadeia com ele na Casa de Correção. Ele, Elias Toras e doutor Belmiro Valverde. O Prestes foi um grande companheiro e as regalias dele eram as mesmas que as minhas. O direito que ele tinha eu tinha.

Jaguar - Quais outros presos políticos que estiveram em sua companhia?

No meu tempo teve esse menino, o Agildo Barata, um engenheiro não sei o que Pinto, o Graciliano Ramos.

Jaguar - Diz alguma coisa sobre o Graciliano Ramos.

Isso é meio difícil, porque ele era preso político e eu era preso comum.

Jaguar - Eles eram bem tratados?

Os presos políticos do Brasil, na época de Getúlio Vargas, sempre foram bem tratados e muito bem acolhidos.

Fortuna - Bem acolhidos não há a menor dúvida.

Millôr - Você conheceu o Manso de Paiva, que assassinou o Pinheiro Machado?

Conheci na Casa de Correção. Foi um bom detento, nunca deu alteração. Ele tirou 19 anos de cadeia dentro da cela número 2 da Casa de Correção.

Jaguar - Era manso, mesmo.

Fortuna - Qual é a sua concepção da Lapa de hoje?

Olha, enquanto eu for vivo a Lapa não morrerá.

Entrevistado por Sergio Cabral, Paulo Francis, Millôr Fernandes, Chico Júnior, Paulo Garcez, Jaguar e Fortuna, para O Pasquim, de 05/05/1971, e republicada no livro ALTMAN, Fábio. A arte da entrevista. São Paulo: Scritta, 1995.