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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Os Principais Marcos Históricos e Institucionais da Capoeira entre 2003 e 2026

 CAPOEIRA: CONQUISTAS, RECONHECIMENTO E POLÍTICAS PÚBLICAS  DE 2003 A 2026


Para compreender as conquistas da capoeira durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (2003–2016) e no terceiro governo Lula (2023 até outubro de 2026), é necessário olhar para além dos eventos e das cerimônias oficiais. É preciso considerar o reconhecimento da capoeira como patrimônio cultural, sua valorização como expressão da cultura afro-brasileira, a construção de políticas públicas, a luta dos mestres e mestras e a busca histórica por direitos, dignidade e melhores condições de trabalho para a comunidade capoeirística.

Um marco importante desse percurso foi a mobilização nacional dos capoeiristas, com destaque para os Congressos Nacionais Unitários da Capoeira, que expressaram a necessidade de união da categoria e de construção de uma agenda comum para o futuro da arte-luta brasileira.

A seguir, organizo as principais conquistas e os avanços institucionais desse período, distinguindo os fatos históricos consolidados das iniciativas que precisam de documentação específica para que se possa atribuir a elas resultados concretos.

1. O reconhecimento da capoeira como Patrimônio Cultural do Brasil — 2008

Uma das maiores conquistas históricas da capoeira ocorreu em 15 de julho de 2008, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu dois elementos fundamentais da manifestação como Patrimônio Cultural do Brasil:

- A Roda de Capoeira, inscrita no Livro de Registro das Formas de Expressão.

- O Ofício dos Mestres e Mestras da Capoeira, inscrito no Livro de Registro dos Saberes.

O reconhecimento aconteceu durante o segundo governo Lula, em um período de fortalecimento das políticas públicas para a cultura e valorização das manifestações afro-brasileiras. Os processos envolveram pesquisas, documentação histórica e participação de representantes da comunidade capoeirística. 

Por que essa conquista foi tão importante?

Porque a capoeira deixou de ser reconhecida apenas como uma prática corporal ou uma atividade esportiva. O Estado brasileiro passou a reconhecer oficialmente a roda, os saberes tradicionais, a transmissão oral dos conhecimentos e o papel histórico dos mestres e mestras na preservação dessa herança cultural.

Foi uma vitória simbólica, política e cultural de enorme dimensão. O conhecimento acumulado durante décadas por mestres e mestras, muitas vezes transmitido sem remuneração e em condições precárias, ganhou reconhecimento institucional.

Uma conquista que pertence à comunidade capoeirística, mas cuja concretização institucional ocorreu em um período de ampliação das políticas culturais do governo Lula.

Fontes oficiais: [Iphan — Registro da Roda de Capoeira](https://bcr.iphan.gov.br/acoes-de-salvaguarda/registro-da-roda-de-capoeira-como-patrimonio-cultural-do-brasil/?utm_source=chatgpt.com) e [Iphan — Registro do Ofício dos Mestres e Mestras](https://bcr.iphan.gov.br/acoes-de-salvaguarda/registro-do-oficio-dos-mestres-e-mestras-da-capoeira-como-patrimonio-cultural-do-brasil/?utm_source=chatgpt.com).

2. Capoeira Viva: o início de uma política de incentivo e financiamento — 2006 a 2008

Durante o primeiro e o segundo governos Lula, o Ministério da Cultura lançou o programa Capoeira Viva, voltado à valorização, à preservação e à divulgação da capoeira.

A iniciativa representou uma mudança importante: a capoeira passou a ser contemplada por mecanismos de financiamento cultural destinados a projetos de pesquisa, documentação, atividades socioeducativas, produção audiovisual e preservação da memória. 

Na edição de 2007, cujo resultado foi divulgado em abril de 2008, foram selecionados 122 projetos entre 1.286 inscritos, com R$ 1,2 milhão em recursos anunciados para a iniciativa. 

Essa política abriu oportunidades para que grupos, pesquisadores, associações e agentes culturais apresentassem projetos e disputassem recursos públicos para desenvolver atividades relacionadas à capoeira.

É importante, contudo, fazer uma ressalva histórica: a existência do programa não significou que todos os contemplados receberam os recursos pontualmente. Houve denúncias públicas de atrasos nos pagamentos, demonstrando que a criação de políticas de incentivo precisava ser acompanhada de execução financeira eficiente. 

Conquista principal: a capoeira ganhou espaço na agenda federal de fomento cultural, com instrumentos de apoio que ultrapassavam a realização de eventos e alcançavam a pesquisa, a memória e a transmissão de conhecimentos.

3. Pró-Capoeira: a construção de uma agenda nacional — 2010

Outro avanço importante foi o Programa Nacional de Salvaguarda e Incentivo à Capoeira, conhecido como Pró-Capoeira.

Em 2010, o programa promoveu encontros regionais e espaços de debate para reunir capoeiristas, representantes institucionais e integrantes da sociedade civil em torno das demandas da comunidade.

Os debates abordaram questões como financiamento, políticas públicas, reconhecimento profissional, preservação dos saberes tradicionais e organização coletiva. Os documentos produzidos registraram propostas para orientar a implementação de políticas de salvaguarda e incentivo à capoeira. 

A importância do Pró-Capoeira não está apenas nas ações que conseguiu concretizar, mas também no esforço de construir um diagnóstico nacional das necessidades da capoeira e de estabelecer canais de interlocução entre o poder público e seus praticantes.

Entretanto, é necessário distinguir a formulação de propostas da implementação efetiva de uma política permanente. O programa abriu caminhos e produziu debates relevantes, mas não resolveu estruturalmente todas as demandas da categoria.

Conquista principal: a capoeira ganhou um espaço mais organizado de interlocução com o Estado e de formulação de propostas para uma política nacional de salvaguarda.

4. Congresso Nacional Unitário da Capoeira: a luta por organização e direitos

A história das conquistas da capoeira não pode ser contada somente a partir das iniciativas governamentais. É indispensável reconhecer a mobilização autônoma dos próprios capoeiristas.

O Congresso Nacional Unitário da Capoeira, realizado em São Paulo entre 15 e 17 de agosto de 2003, constituiu um marco dessa organização coletiva.

A plenária final aprovou propostas que expressavam reivindicações históricas da comunidade, entre elas:

- A criação de um órgão nacional de representação da capoeira, com características plurais, democráticas e representativas.

- O fortalecimento da proteção constitucional da capoeira nos campos da cultura e do esporte.

- O apoio à discussão sobre a regulamentação profissional da atividade.

- A formação de uma comissão nacional para acompanhar as deliberações e preparar novos encontros.

Essas propostas estão documentadas no registro da plenária final do congresso. 

Qual foi o significado político desse movimento?

O congresso demonstrou que os capoeiristas não queriam ser tratados apenas como beneficiários de projetos culturais. Queriam participar da formulação das políticas, definir prioridades e construir mecanismos próprios de representação.

A defesa da unidade, nesse contexto, não significava apagar as diferenças entre estilos, linhagens, grupos ou entidades. Significava buscar pontos comuns para enfrentar problemas compartilhados.

É importante não atribuir automaticamente ao congresso a autoria de todas as conquistas posteriores. O documento comprova as reivindicações aprovadas, mas a realização de cada proposta exige uma análise própria.

Conquista principal: a consolidação de uma agenda política que colocou no centro do debate a representação da comunidade, a proteção institucional da capoeira e os direitos de seus profissionais.

5. O reconhecimento mundial pela UNESCO — 2014

Em 26 de novembro de 2014, durante o governo Dilma Rousseff, a Roda de Capoeira foi inscrita na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

O reconhecimento internacional resultou de uma candidatura apresentada pelo Brasil, fundamentada no trabalho de salvaguarda desenvolvido anteriormente e que contou com a participação de mestres, mestras e outros integrantes da comunidade capoeirística. 

A UNESCO reconheceu a relevância da capoeira como expressão da resistência negra no Brasil e como manifestação cultural que articula movimento, música, oralidade, sociabilidade e transmissão de conhecimentos.

O que mudou com esse reconhecimento?

A capoeira passou a contar com uma chancela internacional de enorme relevância cultural. Isso ampliou sua visibilidade, reforçou a importância de sua preservação e fortaleceu a responsabilidade pública de proteger os conhecimentos e as práticas que a mantêm viva.

O reconhecimento também valorizou internacionalmente a herança africana na formação da cultura brasileira.

Mas há uma distinção fundamental: o título internacional não regulamentou a profissão de capoeirista, não garantiu remuneração aos mestres e não resolveu os problemas de financiamento dos grupos.

Conquista principal: o reconhecimento da Roda de Capoeira como patrimônio cultural da humanidade, consolidando internacionalmente a importância histórica e cultural de uma manifestação nascida da experiência afro-brasileira.

Fonte: [UNESCO e Nações Unidas no Brasil — reconhecimento da Roda de Capoeira](https://brasil.un.org/pt-br/55365-roda-de-capoeira-%C3%A9-declarada-patrim%C3%B4nio-imaterial-da-humanidade?utm_source=chatgpt.com).

6. A retomada das políticas de valorização da capoeira — 2023 a 2026

O terceiro governo Lula trouxe a capoeira novamente para o centro de debates institucionais sobre culturas tradicionais e populares. Entretanto, é necessário distinguir a retomada do diálogo e a formulação de políticas de sua efetiva implementação.

6.1. Revalidação do reconhecimento como patrimônio cultural — 2024

Em 11 de novembro de 204, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou a revalidação dos títulos de Patrimônio Cultural do Brasil da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres e Mestras da Capoeira.

A decisão confirmou a importância desses bens culturais e a necessidade de continuar preservando os conhecimentos, as práticas e as tradições transmitidas pelas comunidades capoeirísticas. 

Por que isso importa?

Porque o reconhecimento patrimonial não deve ser entendido como uma homenagem definitiva, sem consequências práticas. A preservação exige acompanhamento, documentação, participação comunitária e medidas de salvaguarda.

A revalidação reafirmou institucionalmente o valor desses bens culturais e a responsabilidade de continuar protegendo-os.

Fonte: [Iphan — Revalidação dos títulos de Patrimônio Cultural do Brasil](https://bcr.iphan.gov.br/acoes-de-salvaguarda/reavaliacao-da-roda-de-capoeira-e-do-oficio-dos-mestres-e-mestras-de-capoeira/?utm_source=chatgpt.com).

6.2. A escuta nacional dos mestres e mestras — 2025

Em abril de 2025, o Ministério da Cultura promoveu um encontro virtual com mais de 200 participantes de diferentes estados para ouvir as demandas da capoeira durante a construção da Política Nacional para as Culturas Tradicionais e Populares.

A iniciativa integrou um processo mais amplo de escuta da sociedade civil, coordenado pela Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural. O objetivo era reunir contribuições para formular uma política capaz de contemplar as necessidades das manifestações tradicionais e populares. 

Entre as questões levantadas pelos participantes estavam:

- A necessidade de políticas públicas permanentes para a capoeira.

- O fortalecimento das iniciativas estaduais e municipais de salvaguarda.

- A ampliação dos mecanismos de financiamento.

- A construção de um diagnóstico nacional sobre a capoeira.

- A participação efetiva dos mestres, mestras e demais representantes da comunidade nas decisões governamentais.

Um ponto particularmente importante foi o reconhecimento de que a política cultural precisa chegar aos territórios e dialogar com quem mantém a capoeira viva.

A conquista foi a reabertura de um canal de diálogo institucional e a participação da comunidade na construção de uma política nacional. É preciso, porém, acompanhar sua implementação para avaliar os resultados concretos desse processo. 

6.3. A retomada da articulação nacional nos Pontos de Cultura — 2025

Outra iniciativa relevante foi a realização da 1ª Pré-Teia Nacional da Capoeira, reunindo representantes de Pontos e Pontões de Cultura de todas as regiões do país.

O encontro abordou a participação da capoeira na política cultural, a justiça climática, o combate ao racismo ambiental e a articulação das organizações culturais.

Também foi discutida a retomada do Grupo de Trabalho da Capoeira na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura e a proposta de inclusão desse espaço na reestruturação do Conselho Nacional de Política Cultural. 

Essa iniciativa é relevante porque os Pontos de Cultura podem funcionar como instrumentos de fortalecimento das organizações comunitárias, permitindo que grupos culturais desenvolvam atividades, articulem parcerias e participem de políticas de fomento.

É necessário, entretanto, distinguir a realização do encontro e a discussão dessas propostas de sua efetiva institucionalização.

Conquista principal: o fortalecimento da articulação nacional e a retomada do debate sobre a participação organizada da capoeira nos espaços de formulação das políticas culturais.

Fonte: [Ministério da Cultura — 1ª Pré-Teia Nacional da Capoeira](https://www.gov.br/culturaviva/pt-br/acesso-a-informacao/noticias/1a-pre-teia-nacional-da-capoeira-reune-representantes-de-pontos-e-pontoes-de-cultura-de-todas-as-regioes-do-pais/?utm_source=chatgpt.com).

7. A criação do Dia Nacional da Capoeira — 2026

Entre os avanços recentes, há uma conquista especialmente significativa.

Em 15 de julho de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.469, que instituiu o Dia Nacional da Capoeira, a ser comemorado anualmente em 15 de julho.

A data escolhida marca o dia em que o Iphan reconheceu a capoeira como patrimônio cultural brasileiro, em 2008. A lei resultou do Projeto de Lei nº 7.536/2010, de autoria do deputado Márcio Marinho, aprovado pelo Congresso Nacional. 

Qual é a importância dessa conquista?

A instituição da data nacional representa um reconhecimento público e permanente da importância histórica, cultural e social da capoeira.

Ela cria uma referência oficial para atividades educativas, manifestações culturais, homenagens, encontros e iniciativas de valorização da capoeira em todo o país.

Também contribui para manter viva a memória das lutas que permitiram à capoeira conquistar reconhecimento institucional.

É importante registrar que essa conquista resultou de uma trajetória legislativa iniciada em 2010 e concluída em 2026. Portanto, não seria correto atribuir sua autoria exclusiva a um governo ou a uma única organização. A sanção ocorreu no terceiro governo Lula, mas a construção legislativa atravessou diferentes períodos políticos.

Conquista principal: a instituição, por lei federal, de uma data nacional dedicada à capoeira, fortalecendo sua presença no calendário cultural brasileiro.

Fonte: [Câmara dos Deputados — Lei cria Dia Nacional da Capoeira](https://www.camara.leg.br/noticias/1291887-lei-cria-dia-nacional-da-capoeira/?utm_source=chatgpt.com).

8. O reconhecimento profissional: uma luta que avançou, mas exige atenção

A valorização dos mestres e mestras não pode se limitar ao reconhecimento simbólico. Uma das reivindicações históricas da comunidade é o reconhecimento do exercício profissional da capoeira.

Em 9 de abril de 2025, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou uma proposta legislativa que trata do reconhecimento profissional da capoeira, de suas diferentes formas de manifestação e das atribuições dos mestres.

O texto também prevê o reconhecimento de mestres e contramestres em exercício e medidas relacionadas à Classificação Brasileira de Ocupações. Naquele momento, a proposta poderia seguir ao Senado, salvo recurso para apreciação pelo Plenário da Câmara. 

Esse avanço é importante, mas requer uma ressalva: a aprovação de uma proposta em comissão não equivale, por si só, à conclusão do processo legislativo nem à garantia de todos os direitos reivindicados pela categoria.

A questão profissional envolve debates complexos sobre autonomia, diversidade de linhagens, reconhecimento comunitário dos mestres e condições de exercício da atividade.

Por isso, qualquer regulamentação precisa ser acompanhada com atenção pela comunidade capoeirística, assegurando que o reconhecimento profissional não se transforme em mecanismo de exclusão daqueles que construíram a capoeira fora das estruturas formais de ensino.

Fonte: [Câmara dos Deputados — Aprovação da proposta de reconhecimento profissional da capoeira](https://www.camara.leg.br/noticias/1148934-comissao-de-constituicao-e-justica-aprova?utm_source=chatgpt.com).

9. Balanço histórico: o que conquistamos e o que ainda falta conquistar?

Considerando o período de 2003 a outubro de 2026, é possível organizar os principais resultados em dois grupos: as conquistas consolidadas e as demandas que continuam exigindo mobilização.

Área Conquista ou avanço Situação

Patrimônio cultural brasileiro Reconhecimento da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres e Mestras Conquista consolidada em 2008

Financiamento cultural Programa Capoeira Viva e apoio a projetos culturais Iniciativa histórica, com limitações de execução

Políticas públicas Pró-Capoeira e encontros de formulação de propostas Avanço na articulação e no diagnóstico das demandas

Organização política Congresso Nacional Unitário da Capoeira e suas deliberações Marco de mobilização e construção de uma agenda coletiva

Reconhecimento internacional Inscrição da Roda de Capoeira na lista da UNESCO Conquista consolidada em 2014

Salvaguarda patrimonial Revalidação dos títulos nacionais Aprovada em 2024

Participação institucional Escutatória nacional e Pré-Teia da Capoeira Avanços no diálogo e na articulação em 2025

Reconhecimento nacional Criação do Dia Nacional da Capoeira Lei federal sancionada em 2026

Reconhecimento profissional Aprovação de proposta na CCJ da Câmara Avanço legislativo; não equivale, por si só, à regulamentação concluída

As informações da tabela estão fundamentadas nos registros do Iphan, da UNESCO, do Ministério da Cultura e da Câmara dos Deputados. 

10. As conquistas que ainda precisamos transformar em direitos efetivos

Apesar dos avanços, a comunidade capoeirística continua enfrentando desafios que não podem ser ignorados.

1. Remuneração digna para mestres e mestras. O reconhecimento cultural precisa ser acompanhado de oportunidades concretas de trabalho, mecanismos de financiamento e condições para a transmissão dos saberes às novas gerações.

2. Políticas públicas permanentes. A capoeira precisa de instrumentos estáveis de apoio, com continuidade administrativa, recursos adequados e participação dos seus representantes.

3. Presença na educação pública. A capoeira tem grande potencial educativo e dialoga diretamente com a valorização da história e da cultura afro-brasileira. É necessário ampliar as condições para que essa contribuição se concretize nas escolas, respeitando a legislação e as particularidades de cada rede de ensino.

4. Organização e representação nacional. As diferenças entre grupos, estilos, linhagens e entidades não devem impedir a construção de pautas comuns. A pluralidade precisa ser preservada, mas a fragmentação não pode inviabilizar a defesa dos direitos coletivos.

5. Reconhecimento internacional acompanhado de oportunidades. A projeção mundial da capoeira precisa beneficiar também aqueles que a mantêm viva: mestres, mestras, professores, contramestres, músicos e comunidades tradicionais.

6. Participação efetiva nas decisões. Os espaços de diálogo precisam resultar em políticas implementadas, recursos acessíveis, prestação de contas e mecanismos de acompanhamento.

Essas questões demonstram que o reconhecimento simbólico, embora indispensável, não substitui a construção de condições materiais para a continuidade da capoeira.

Conclusão: uma história construída pela luta da comunidade

O período de 2003 a 2026 reúne algumas das conquistas mais importantes da história institucional da capoeira brasileira.

Em 2008, conquistamos o reconhecimento da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres e Mestras como patrimônio cultural brasileiro. Em 2014, a Roda de Capoeira alcançou o reconhecimento internacional da UNESCO. Em 2024, os títulos nacionais foram revalidados. Em 2025, houve novas iniciativas de escuta e articulação institucional. Em 2026, o Brasil instituiu por lei o Dia Nacional da Capoeira.

Esses avanços ocorreram em diferentes contextos e resultaram de processos históricos nos quais a mobilização dos capoeiristas teve papel fundamental. As políticas públicas federais, especialmente durante os governos Lula e Dilma, abriram espaços relevantes para o fomento, o reconhecimento patrimonial e a formulação de propostas para a salvaguarda da manifestação.

Entretanto, é preciso reconhecer que a história não está concluída. A distância entre o reconhecimento cultural e a garantia de direitos permanece um dos grandes desafios da comunidade.

A capoeira já conquistou reconhecimento como patrimônio brasileiro e mundial. O próximo passo é assegurar que esse patrimônio seja valorizado também por meio da dignidade, do trabalho, da participação política e das condições de vida daqueles que o construíram.

A maior conquista não é apenas ver a capoeira reconhecida pelo Estado ou celebrada internacionalmente. É fazer com que os mestres e mestras, guardiões dessa herança, tenham condições dignas de continuar transmitindo seus conhecimentos e mantendo viva a roda.

A capoeira não chegou até aqui por concessão. Chegou pela resistência, pela ancestralidade e pela luta de gerações de capoeiristas. E é essa mesma comunidade que precisa continuar protagonista na construção de seu futuro.

Nota sobre a pesquisa

A pesquisa permitiu confirmar os principais marcos históricos e institucionais acima, mas não localizar documentação suficiente para atribuir aos Congressos Nacionais Unitários da Capoeira, individualmente, a responsabilidade direta por cada conquista. Para estabelecer essa relação com rigor, seria necessário confrontar as deliberações de cada congresso com atas, cartas, relatórios e registros de acompanhamento posteriores.

Essa distinção é importante para que a memória da luta coletiva seja preservada sem  confundir reivindicações históricas, decisões governamentais e resultados efetivamente alcançados.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene

 Assistam, ouçam, se deleitem com   essa Maestria obra de nossa Cultura Arte Capoeira.   A Orquestra de Berimbaus do Morro Querosene,  uma Sinfonia de  Arranjos melódicos  Regida  pelo nosso tão estimado  e valoroso Mestre Dinho Nascimento  junto com sua esposa, filhos  e sua Orquestra de Músicos percussionistas, que  a muitos anos enobressem os palcos com nossa Cultura...Asé 

https://youtu.be/QgNLiHRDlpY?is=rlvHf6gvhnUisR0i


A Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene é um aclamado grupo cultural fundado em São Paulo, idealizado e coordenado pelo músico, compositor e luthier Dinho Nascimento na   região do Morro do Querosene (localizado no bairro da Vila Pirajussara, na Zona Oeste da capital paulista), um polo de forte resistência e efervescência cultural, conhecido também por suas tradicionais festas de Bumba Meu Boi.

Características da Orquestra
  • Protagonismo do berimbau: O grupo reúne dezenas de tocadores de berimbau, apresentando o instrumento em suas diferentes afinações (gunga, médio e viola).
  • Diversidade musical: Embora o berimbau seja historicamente ligado à capoeira, a orquestra expande suas possibilidades sonoras, executando ritmos que vão do samba de roda e afoxé até arranjos instrumentais complexos e experimentais.
  • Inclusão e comunidade: É um projeto aberto que envolve moradores locais, músicos profissionais, estudantes e entusiastas da cultura popular de todas as idades.
Importância Cultural
O grupo desempenha um papel fundamental na preservação das tradições afro-brasileiras e na descentralização da cultura em São Paulo, mostrando a versatilidade e a riqueza do berimbau como um instrumento de concerto para o Brasil e para o Mundo.
Viva Mestre Dinho Nascimento
Viva Brasil!!!
Fonte web:
https://youtu.be/QgNLiHRDlpY?is=rlvHf6gvhnUisR0i

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Venham conhecer Amigos e Camaradas as obras de Mestre Alemão Angoleiro

 Mestre Alemão Angoleiro

Contato zap: 02111982684196

Pix: 11982684196






























CAPOEIRA E A POLITICA

 Capoeira fez parte ou deve fazer parte da politica?

Por: João Pitoco historiador

Fonte:

https://www.instagram.com/reel/DeDCTNiSozD/?stkn=MXZiNGo5ZnV3ZzF4ZA%3D%3D





terça-feira, 29 de setembro de 2026

Mestre Leopoldina em Guarulhos

 



        O Mestre Leopoldina deu aulas por mais ou menos  2 anos em Guarulhos. Ele foi um dos pioneiros da capoeira no município trazendo para a cidade a beleza da Arte Cultura Capoeira. O início da permanencia do famoso Mestre da velha escola de Capadócio do Rio de Janeiro capoeirista carioca Demerval Lopes de Lacerda o "Mestre Leopoldina" em Guarulhos destaca-se pelos seguintes fatos históricos: 

Chegou em Guarulhos, em 1969: Mestre Leopoldina mudou-se para Guarulhos e começou a implantar e divulgar a capoeira na região.

Local das aulas: 

Ele dava aulas na garagem do Sindicato da Construção Civil, localizado no centro de Guarulhos ao lado do tradicional Colégio Virgo Potens. 

Parceria com Mestre Mirão: 

Ele permaneceu na cidade dando aulas por cerca de dois anos. Pouco tempo depois de sua chegada, uniu-se a ele o Mestre Mirão (Emílio da Conceição Nascimento), outra figura central que se tornou o grande   idealizador  e defensor da capoeira e suas tradiçoes em Guarulhos. 

Embora Mestre Leopoldina tenha passado um período  curto em Guarulhos antes de seguir sua caminhada (ele faleceu anos mais tarde em São José dos Campos), sua semente plantada deu frutos e se enraizou na cidade , que de uma simples  garagem do sindicato ajudou a fundar a rica tradição cultural e  capoeirista da cidade. 

A história que une Mestre Leopoldina e Mestre Mirão em Guarulhos é um dos capítulos mais bonitos e importantes da capoeira paulista. Ela envolve uma amizade profunda, um resgate no Carandiru e a fundação da primeira grande academia da cidade. Por volta de 1970, o icônico Mestre Artur Emídio (mestre de Leopoldina no Rio de Janeiro) veio a São Paulo e acabou sendo preso na Casa de Detenção do Carandiru após ser flagrado gingando em praça pública — uma herança dos tempos em que a capoeira ainda sofria forte perseguição e preconceito institucional. Ao saber da prisão, Mestre Leopoldina viajou do Rio para São Paulo com o objetivo de ajudar a libertar seu mestre. Foi nesse cenário de solidariedade que os caminhos de Leopoldina e de Emílio da Conceição Nascimento (Mestre Mirão) se cruzaram na capital paulista. 

Mestre Mirão, baiano de Sapeaçú que já residia em São Paulo, uniu forças com Leopoldina. Juntos, eles conseguiram a liberação de Artur Emídio. A partir dessa forte sintonia, Leopoldina decidiu se estabelecer na região e levou Mirão consigo para dar aulas em Guarulhos. O primeiro espaço de treino dessa parceria foi improvisado na garagem do Sindicato da Construção Civil, no Centro de Guarulhos (esquina da Rua Diogo de Farias com a ladeira Dom Pedro II). O arranjo: Mestre Leopoldina comandava os treinos, trazendo a essência da malandragem carioca e os ensinamentos que herdara do Rio de Janeiro. Mestre Mirão atuava lado a lado com ele. 

Após cerca de dois anos de trabalho intenso na cidade, Mestre Leopoldina decidiu seguir viagem. Ele passou o bastão dos alunos e o comando dos treinos integralmente para o Mestre Mirão, que adotou Guarulhos como seu lar definitivo. Após assumir a responsabilidade deixada por Leopoldina, Mestre Mirão expandiu o trabalho. Em 1972, os treinos que começaram no bairro Jardim Paraventi foram oficialmente transferidos para um espaço fixo no estacionamento das Casas Pernambucanas, na Rua Dom Pedro II. 

Nascia ali a tradicional Associação de Capoeira Rosa Baiana, a primeira grande academia formalizada de Guarulhos. A relevância da Rosa Baiana para a cidade inclui: 

Foi uma das primeiras academias a obter registro oficial na Federação Paulista de Capoeira, logo após sua criação em 1974.

 Sob a tutela de Mirão, a academia formou grandes nomes da história local, como o Mestre Facada (primeiro Campeão Paulista registrado pela federação) e o Mestre Delicado (primeiro Campeão Universitário)

Mestre Mirão e os alunos da Rosa Baiana foram os responsáveis por organizar os primeiros grandes festivais públicos da cidade e a I Semana de Cultura Afro-Brasileira de Guarulhos em 1979. 

Essa trajetória é tão marcante que a história de Mestre Mirão e o cinquentenário da capoeira guarulhense viraram tema do aclamado documentário cinematográfico

 Mestre Mirão - O Legado.

 Por Celia Nascimento

Se hoje Guarulhos é um polo respeitado de capoeiragem, tudo começou com a chegada de Leopoldina e o compromisso eterno de Mirão, da qual inúmeras Academias, Associações, se perpetuam em labuta acadêmica e cultural mantendo vivo o nome de seus precursores tradição hoje que se confunde com a história de resistência da própria Cidade  de Guarulhos,  um dos exemplos hoje é a Associaçao  de Capoeira Arte Negra  da qual hoje se mantém  a 45 anos de academia e seu Mestre  Jose Lapa filho " Mestre Lapa"é  a linhagem direta desta herança da capoeira e seu mais discípulo férreo, com as tradições e ideologias de seu Mestre Mirão " Emilio da Conceiçao Nascimento".

Fontes:

artigos da web, 

Facebook

E artigos de Mestre Peixe

terça-feira, 15 de setembro de 2026

BIBLIOTECA VIVA DE NOSSA ARTE CAPOEIRA


 BALUARTE  DR HONORIS CAUSAS

MESTRE CHURRASCO

Mestre Churrasco (Jean Batista Cleber Teixeira dos Santos), uma das maiores referências da capoeira gaúcha. 


Ele fez história em Porto Alegre ao se tornar o primeiro mestre de saberes tradicionais e culturas populares a receber o título de Doutor por Notório Saber concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 


A cerimônia oficial de titulação aconteceu na sexta-feira, 11 de setembro de 2026, no Salão Nobre da Reitoria da universidade. O título reconhece formalmente sua trajetória de vida dedicada ao ensino da capoeira, à música, à confecção de instrumentos (como berimbaus) e à preservação da cultura afro-brasileira. Mestre Churrasco também já atuou como docente convidado na própria instituição dentro da disciplina Encontro de Saberes.(UFRGS)

Fonte

 https://www.correiodamanha.com.br/nacional/sul/2026/09/318840-mestre-churrasco-recebe-titulo-de-doutor-no-rs.html

https://www.facebook.com/ufrgsnoticias/videos/mestre-churrasco-%C3%A9-doutor-a-hist%C3%B3ria-da-ufrgs-ganhou-um-novo-cap%C3%ADtulo-mestre-chu/883799198003756/

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

"Ser ou não ser eis a questão!!!"

O Dia do Capoeirista, comemorado em 3 de agosto, teve origem na Lei Estadual nº 4.649 de São Paulo em 1985. A data não foi instituída por uma lei federal de âmbito nacional para o país inteiro, embora estados e municípios tenham adotado a comemoração...



O dia 15 de julho passa a ser Dia Nacional da Capoeira. A medida está prevista na Lei 15.469, sancionada pela Presidência da República e publicada na quarta-feira (15) no Diário Oficial da União (DOU).

A lei tem origem em projeto de lei da Câmara dos Deputados. No Senado, o PLC 17/2014 teve como relator o ex-senador Anibal Diniz (AC), que considerou que a criação de uma data oficial comemorativa reforça a importância da “arte-luta” como elemento de identidade cultural dos brasileiros.

A data escolhida se refere ao dia da reunião do conselho consultivo do Iphan que decidiu, em 2008, registrar a capoeira como patrimônio cultural imaterial do Brasil.

Resistência física e cultural
Desenvolvida no Brasil a partir do século 18 por africanos escravizados, a capoeira reúne elementos de luta, dança, música e expressão cultural. Na justificativa do projeto, o autor, deputado federal Márcio Marinho (Republicanos-BA), afirma que a prática surgiu como forma de resistência física e cultural "aos abusos da sociedade escravocrata".

O texto original indicava a homenagem para 20 de novembro, coincidindo com o Dia da Consciência Negra. No Senado, o entendimento do relator foi de que a coincidência das datas seria inconveniente, e o dia foi mudado para 15 de julho. Como o texto foi modificado, a proposta retornou à Câmara dos Deputados antes de seguir para sanção.

Segundo Anibal Diniz, a nova data associa a homenagem ao reconhecimento da capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial, destacando "uma das mais importantes características da capoeira: sua diversidade de estilos e manifestações regionais, pois foi exatamente o sentido da iniciativa do Ministério da Cultura que resultou em sua patrimonialização".
Fontes: web e Agência do Senado 



Lei 15.469/26


                      IÊHHHH...

     Eis mais uma contenda dentro de nossa comunidade capoeiristica, o que dizer sobre nossas internas indecisões,  sobre nossos fundamentos, seja musical, local ou estrutural.
    Não bastando as tantas que  ja labutamos, ainda não conseguimos definir uma data comemorativa  para nossa Arte, temos de nos atentar aos tantos caciques que fazem ou seu bel prazer e necessidades, sejam logísticas, políticas ou capacitativa. O importante que muito precisamos é nos unir e decidir  sem muitas delongas nossas bases.
      Será que essas estratégias, não são obras para confundir as mente de um todo  e não chegarmos a um senso comum?
     É  temos de tomar as rédeas de nosso próprio futuro políticos, sociais e comunitários em nossas próprias mãos, aí e só aí teremos voz perante o poder dominante e político do qual terão de reconhecer nossa força e união, até  lá ficará nas maos de poucos, sejam bendizentes ou galhofeiros oportunistas.
          AXÉ
                    MESTRE BICHEIRO

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Livro DESTEMIDOS

  "Destemidos" 

Herança Afro-americanas de nossas conquistas através do medo e da coragem

Este livro indaga ao leitor a busca da história de alguns dos heróis do passado Afro-americanos, que nos foi tirado  ao passar dos anos por subterfúgios racistas e segregativos.





Axé 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Malandragem tem nome certo na capoeira...

Demerval Lopes de Lacerda

"Mestre Leopoldina"

      Nascido no Rio de Janeiro,12 de fevereiro de 1933. E faleceu em São José dos Campos no dia de 17 de outubro de 2007. Considerado um dos maiores compositores de capoeira de seu tempo e o unico  legitimo  Capoeirista carioca de valor à carregar o Titulo da estirpe de Rei da Malandragem Carioca de sua epoca e que perdura  se misturando ao nostalgico contos de nossa contemporaineidade. 

      Foi discipulo do  famigerado e boemio, Mestre de Capoeira,"Mestre Quinzinho Carangola". Mestre Leopoldina era uma figura lendária ímpar da capoeira de outrora, conhecido por sua elegância, ginga e respeito profundo aos fundamentos da Capoeira. A sua história e ensinamentos sobre a arte da mandinga continuam sendo celebrados no meio da nata capoeiristica.  LAROYÊ SEU ZÉ...





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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Chico da Matilde "Dragao do Mar"


      

        Francisco Nascimento nasceu em Canoa Quebrada, distrito do município de Aracati, em 15 de abril de 1839, de origem pobre e filho do pescador Manoel do Nascimento e da dona Matilde Maria da Conceição. Aos oito anos, com a morte precoce do pai, sua mãe buscou um emprego para ele, quando ainda criança, tornando-o um menino de recados em navios que iam do Maranhão ao Ceará.

      Até os 20 anos, Chico da Matilde — conhecido assim por causa do nome da mãe — trabalhou no veleiro do comendador português José Raimundo de Carvalho como embarcadiço e depois como comandante, percorrendo portos do Norte e Nordeste.              Além disso, também trabalhou na construção do porto e como chefe dos catraieiros, até ser nomeado prático-mor na Capitania dos Portos do Ceará.Também alugava jangadas para transporte de pessoas e mercadorias.

       Tinha uma casa próxima ao Seminário da Prainha, em Fortaleza e casou-se primeiramente com Joaquina Francisca — que também se envolveu na causa abolicionista — e novamente em 1902, quando já viúvo, com Ernesta Brígido, sobrinha de João Brígido. Consta que ele andava sempre bem vestido, com a barba bem feita e tinha noções de inglês e alemão.

       O paradeiro do túmulo de Francisco Nascimento — desconhecido há mais de 100 anos — foi descoberto pelo historiador cearense Licínio Nunes de Miranda em julho de 2020, no âmbito de um trabalho de investigação acadêmica sobre a abolição da escravidão no Ceará.

      Em 25 de março de 1884, o Ceará tornou-se a primeira província brasileira a abolir a escravidão. O Movimento Abolicionista Cearense, surgido em 1879, contribuiu — embora não decisivamente — para essa abolição pioneira.

       As ações repercutiram no país e os abolicionistas cearenses, gente de elite econômica e intelectual, foram congratulados pela imprensa abolicionista nacional. Entre eles havia, porém, uma pessoa humilde, de cor parda, trabalhador do mar, o Chico da Matilde.

      Chefe dos jangadeiros, ele e seus colegas se engajaram à luta pela abolição em janeiro de 1881, recusando-se a transportar para os navios negreiros os escravos que seriam vendidos para o Rio de Janeiro, tendo proferido, segundo algumas fontes, a célebre frase "no porto do Ceará não embarcam mais escravos". Posteriormente, em agosto de 1881, houve uma nova tentativa de embarcar escravos que seriam vendidos em São Paulo e no Rio de Janeiro, contudo, novamente os jangadeiros, liderados por Chico da Matilde e pelo escravo liberto José Luis Napoleão, se recusaram a fazer o transporte e o porto do Ceará foi considerado, pelo movimento abolicionista, oficialmente fechado para o tráfico interprovincial.

       Segundo a historiadora Ângela Alonso "Os jangadeiros só conseguiram fazer o que fizeram porque tinham parte importante da elite política e das forças policiais ao seu lado". Um exemplo disso foi quando o tenente-coronel Sena Madureira fez elogios ao jangadeiro.

      Angelo Agostini registrou e homenageou o fato na capa da Revista Illustrada, com uma litogravura com ilustração alegórica de Francisco Nascimento, com a seguinte legenda: "À testa dos jangadeiros cearenses, Nascimento impede o tráfico dos escravos da província do Ceará vendidos para o sul".

      Assim, Chico da Matilde foi levado para corte com sua jangada, desfilou pelas ruas, recebeu homenagens da multidão e ganhou novo nome: Dragão do Mar ou Navegante Negro. De lá, escreveu à mulher: "(...) seu velho está tonto com tanta festa e cumprimentos de tanta gente importante".

     Francisco José do Nascimento é um símbolo da resistência popular cearense contra a escravidão, e foi homenageado pelo governo do Ceará, com seu nome dado ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, pelo que ele e seus colegas realizaram em nome da liberdade, em 1881, na Praia de Iracema.

     Além do já referido Centro Dragão do Mar, há uma escola pública estadual cujo nome também homenageia o Chico da Matilde, localizada no bairro do Mucuripe, Escola de Ensino Médio Dragão do Mar, que foi fundada em 1955, com o objetivo de alfabetizar os filhos de pescadores que moravam na região àquela época. Um tradicional grupo de estudos liberal com sede no Ceará também recebe o título Dragão do Mar em sua homenagem. Em Aracati, é homenageado com o nome da rua que dá acesso a cidade pela BR-304 (sentido Icapuí) e o aeroporto regional. Já em Canoa Quebrada pela praça central da praia.

     Em 23 de agosto de 2013, a Petrobras, por meio de sua subsidiária Transpetro, lançou ao mar um novo navio petroleiro construído em Pernambuco e batizado Dragão do Mar.         De fabricação e bandeira brasileira, foi construído em Ipojuca, pelo Estaleiro Atlântico Sul e inaugurado em 14 de abril de 2014 com a presença da presidente Dilma Rousseff. A embarcação integrou uma nova geração de petroleiros construídos no Brasil. Foi o oitavo navio a ser construído depois do lançamento do Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro, dos quais outros dois anteriores também receberam nomes de ícones da resistência negra: João Cândido e Zumbi dos Palmares.

Fonte: Wikipédia 

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Vertentes da Capoeira Carioca da dec de 20 a 40









Mestre Zeca Floriano vertente da Capoeira Carioca dec de 20 a 40

A temática do Professor Elton Silva, que sabiamente, explana sobre os caminhos da Capoeira Desportiva e seus principais atores e construtores, através dos tempos, nos mostra ,quanto vale apena ,adquirir os livros da coleção Muito antes do MMA . O primeiro Presidente, a ter conhecimento oficial da capoeira como luta metodizada, através do Mestre de capoeira Zeca Floriano ,filho do Presidente da República Marechal Floriano Peixoto ,foi o presidente Washignton Luis , em 1929 como comprova o Jornal Vida Carioca em 01/02/1929.Portanto, não foi o saudoso Mestre Bimba ,o primeiro Mestre de Capoeira, a levar para o Governo federal ,o conhecimento da Prática da capoeira em recintos fechados ,ou seja ,a Presidência da República ,a capoeira,como luta de ataque e defesa e ginástica nacional.

𝗠𝗲𝘀𝘁𝗿𝗶𝘀𝘀𝗶𝗺𝗼 𝗣𝗮𝘂𝗹𝗮̃𝗼 𝗠𝘂𝘇𝗲𝗻𝘇𝗮 .
𝗖𝗼𝗻𝗳𝗲𝗱𝗲𝗿𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗕𝗿𝗮𝘀𝗶𝗹𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗱𝗲 𝗣𝘂𝗴𝗶𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼 - 𝗥𝗚 𝟯𝟭  𝗗𝗲𝗽𝗮𝗿𝘁𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗘𝘀𝗽𝗲𝗰𝗶𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗖𝗮𝗽𝗼𝗲𝗶𝗿𝗮 / 𝟭𝟵𝟳𝟯.

Durante minha primeira participação no Conect Cast, afirmei que a Capoeira baiana, tal como era praticada antes da sistematização proposta por Mestre Bimba (já fortemente influenciada pelo modelo esportivo carioca), muitas vezes se apresentava como uma espécie de “brincadeira”. Esse termo, vale lembrar, era amplamente utilizado por cronistas, folcloristas e estudiosos para descrever a prática em diversos contextos. No entanto, minha colocação gerou críticas severas por parte de alguns tradicionalistas, mestres e praticantes, especialmente vinculados à vertente da Capoeira Angola. Fui até mesmo xingado por defender esse ponto de vista. O curioso é que essa leitura está longe de ser inédita. Já nas décadas de 1930 e 1940, folcloristas como Edison Carneiro e Renato Almeida registravam, de forma clara, percepções semelhantes sobre a Capoeira. Em suas análises, destacavam as múltiplas formas regionais da prática e chamavam atenção para o processo em curso de construção da ideia de uma Capoeira “pura” e “tradicional”, frequentemente identificada com a Bahia. Para esses estudiosos, a Capoeira possuía múltiplas formas e interpretações, muitas delas marcadas por um forte componente lúdico, performático e festivo, traços que contrastavam com o modelo esportivo e combativo que ganhava espaço no Rio de Janeiro no início do século XX, especialmente por meio da escola de Mestre Sinhozinho e de seus contemporâneos, como Zuma, Zeca Floriano, Jayme Ferreira e o professor Mário Aleixo. Enquanto no Rio a Capoeira se alinhava a métodos de preparação física e combate real, na Bahia ela se mantinha, em muitos aspectos, como uma prática de exibição, ritual e jogo simbólico, o que não diminui sua complexidade, mas a insere em um outro modelo cultural. Edison Carneiro descreve a Capoeira baiana como uma prática essencialmente lúdica, coletiva e performática, uma “brincadeira” mais do que uma luta. Em suas observações, os “capoeiras” da Bahia “se divertem fingindo lutar”, o que demonstra um jogo mais marcado pela teatralidade e pela convivência do que pela violência. 
Essa forma de Capoeira se contrapõe àquela praticada no Rio de Janeiro, onde a luta aparece como instrumento de autodefesa e sobrevivência em meio à violência urbana herdada do século XIX. Renato Almeida reforça essa visão ao afirmar que a Capoeira cultivada na Bahia possui “interesse particular”. Ele dizia que fora da Bahia, seus passos serviriam apenas para lutas corporais, desprovidos do valor simbólico, folclórico e cultural que estavam enraizados no contexto baiano. Assim, reconhecer esse modelo lúdico da Capoeira não significa negá-la como luta, mas sim compreender a complexidade de sua trajetória histórica, feita de equívocos, reinterpretações e disputas simbólicas que atravessaram o tempo.
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𝗣𝗿𝗼𝗳𝗲𝘀𝘀𝗼𝗿 𝗘𝗹𝘁𝗼𝗻 𝗦𝗶𝗹𝘃𝗮 .
𝗘𝘀𝗰𝗿𝗶𝘁𝗼𝗿 𝗲 𝗣𝗲𝘀𝗾𝘂𝗶𝘀𝗮𝗱𝗼𝗿.

𝙈𝙚𝙨𝙩𝙧𝙚 𝘿𝙧 𝙝𝙘 𝙑𝙞𝙘𝙩𝙤𝙧 𝙋𝙚𝙥𝙚 
𝙀𝙢𝙗𝙖𝙞𝙭𝙖𝙙𝙤𝙧 𝙄𝙢𝙤𝙧𝙩𝙖𝙡 𝙙𝙖 𝙋𝙖𝙯 
𝘿𝙚𝙡𝙚𝙜𝙖𝙙𝙤 𝘾𝙪𝙡𝙩𝙪𝙧𝙖𝙡 𝙙𝙖 𝙊𝙈𝘿𝘿𝙃 
𝘾𝙖𝙙𝙚𝙞𝙧𝙖 𝙞𝙣𝙩𝙚𝙧𝙣𝙖𝙘𝙞𝙤𝙣𝙖𝙡 𝙉 𝟵𝟮



 

domingo, 20 de abril de 2025

Esquadrao Zuavos








 Os Zuavos da Bahia


Os Zuavos Baianos, oriundo dos Voluntários da Pátria, era unidade composta só de homens negros. Seus vistosos uniformes, segundo Gustavo 

Barroso, lembravam os dos zuavos franceses da Argélia. Eles vieram para o teatro-de-guerra em maio de 1865, no navio "São Francisco" (antigo 

"Cotopaxi", americano), em número de duas ,companhias. Com eles, o ilustre 1 º Ten de Engenheiros André Pinto Rebouças, da Comissão de Engenheiros do 2º Corpo de Exército ao comando de Osório. 


André Rebouças, após sair do Exército depois de um ano na Campanha do Paraguai, aliou-se, em 1880, a Joaquim Nabuco e veio a tornar-se um dos maiores abolicionistas; comparticipação relevante na causa de libertação dos negros no Brasil. O fato de haver seguido para a guerra em companhia de seus irmãos de cor e co-provincianos baianos é muito significativo. 


A despedida dos zuavos no Rio de Janeiro contou com o prestígio das presenças de D. Pedro II e do Ministro da Guerra Angelo Ferraz, mais tarde Barão de Uruguaiana. 


Eles se encontrariam com o Imperador cerca de 4 meses mais tarde, por ocasião do sítio e rendição dos paraguaios, em Uruguaiana, de cujo dispositivo fizeram parte.


Cândido Lopes, ao focalizar o acampamento de Curuzu, após conquistado pelos paraguaios, focalizou alguns grupos de zuavos da Bahia entre as tropas. Eles tiveram papel destacado na conquista das trincheiras de Curuzu, segundo Arthur Ramos, em "O Negro como Soldado."


O capitão capoeira Marcolino subiu a muralha inimiga por sobre as costas de um de seus soldados, retirou uma bandeira paraguaia, hasteou o pavilhão verde-amarelo no seu lugar e,

segundo Manoel Querino, anunciou: “Está aqui o negro zuavo baiano!” A coragem do Zuavo Marcolino foi louvada em ordens do dia, registrada naimprensa do Rio de Janeiro e de Salvador, e posteriormente lembrada por folcloristas, entre eles Querino


Os zuavos integraram, no início da guerra, cerca dos 57 Batalhões de Voluntários da Pátria, os quais, com· as baixas ocorridas durante a guerra foram se fundindo e se reduziram a 19. Assim, logo após os primeiros embates, a tropa de zuavos foi sendo incorporada às outras, depois de dissolvidas por Osório. 


O Conde D'Eu em seu livro 

"Viagem Militar do Rio Grande 

do Sul" em 1865, escreveu sobre os zuavos da Bahia:


"É a mais linda tropa do Exército Brasileiro. Compõe-se unicamente de negros. Os oficiais também são negros; e nem por isso piores oficiais, pelo contrário. Conversei propositadamente muito tempo com eles. Estavam a par de todos os pormenores do serviço e orgulhosos do seu batalhão."


Pouco depois de as tropas aliadas atravessarem o rio Paraná e invadirem o sul do Paraguai em abril de 1866, Francisco Otaviano de Almeida Rosa escreveu jubiloso, de Buenos Aires, ao ministro da guerra: “Um abraço pelos nossos triunfos. Vivam os brasileiros, sejam brancos, negros, mulatos ou caboclos! Vivam! Que gente brava!”

  

O entusiasmo do diplomata brasileiro pelos feitos militares dos seus patrícios não brancos coloca a questão do impacto da guerra na política racial brasileira.


Muitos ecoam a declaração de Otaviano e vêem a guerracomo uma experiência racialmente compartilhada que forjou a nacionalidade nos campos de batalha.


A história de Cândido da Fonseca

Galvão, mais conhecido como Dom Obá II (o título iorubá por ele adotado no Rio de Janeiro na década de 1880), que serviu numa das companhias de zuavos criadas na Bahia em 1865-66, revela a complexidade da experiência de guerra para a população negra. 


Profundamente monarquista, Dom Obá destacava seu serviço ao imperador como evidência do seu pertencimento à nação brasileira, mas também publicava críticas sofisticadas da discriminação racial que ele e o resto da população negra enfrentavam.


Por que o governo baiano resolveu recrutar companhias de zuavos e couraças em 1865 ainda é um mistério. Recrutar companhias de homens negros negava a bem-estabelecida política militar de não levar em conta acor dos soldados. As últimas unidades segregadas nas forças armadas brasileiras (os batalhões milicianos de homens pardos e pretos) tinham sido extintas em 1831, quando da criação da Guarda Nacional. O último vestígio da preferência racial no recrutamento, isto é, a exclusão de “homens pretos” das fileiras do Exército, foi abolido em 1837, quando o

governo do Regresso sentiu a necessidade de aumentar o seu efetivo.


Desde então, o Exército seria uma instituição formalmente cega à cor da pele, e que levava essa política ao extremo: na fé-de-ofício padrão

não tinha lugar para indicar a cor do soldado e, portanto, o Exército não podia fornecer essa informação básica às autoridades policiais encarregadas da captura de desertores


A proposta para a criação de companhias negras na Bahia veio de fora do Exército, como grande parte da mobilização patriótica de 1865-66. 


Quirino Antônio do Espírito Santo  se ofereceu, no dia 26 de janeiro de 1865, para organizar um “respeitável corpo de voluntários” de “cidadãos crioulos”, “que pelo seu denodo, coragem e amor àpátria recordariam mais uma vez os valorosos combatentes sob o comando do celebre Henrique Dias”. 


Quirino invocou o patriotismo que tinha sentido durante a guerra pela Independência (1822-23) e proclamou que, “impelido por uma força sobrenatural venho oferecer-me ao

governo para ir combater em prol da honra, integridade e soberania do Império, que vis gaúchos pretendem insanamente macular"


A proposta foi logo aprovada e, no dia 1º de fevereiro, Quirino se instalou no Forte do Barbalho e começou a organizar a companhia. Dentro de poucos dias, tomou o nome de “zuavos baianos” e o presidente aprovou uma subscrição para fardar os novos recrutas com o uniforme garboso das tropas coloniais franceses na Argélia.  Desconheçoo porquê da decisão de adotar o nome e o uniforme das tropas coloniais francesas. Na década de 1860, a moda zuava de bombachas vermelhas,colete azul bordado e pequeno boné ou fez já havia sido amplamentedivulgada entre diversos exércitos, tais como as forças do Norte e doSul na guerra civil norte-americana e as tropas internacionais do papa.


Onze companhias de zuavos, com um efetivo total de 638 homens, bem como uma companhia de couraças, de 80 homens, embarcaram na Bahia para o Rio de Janeiro e os campos de batalha antes demarço de 1866 (há alguns indícios de uma tentativa de criação de umadécima segunda companhia de zuavos, mas é provável que seus integrantes fossem para o Sul na qualidade de recrutas.


Muitos dos líderes da primeira fase da mobilização baiana haviam lutado na guerra pela Independência. Quando Quirino embarcoucomo tenente comandante da Primeira Companhia de Zuavos, seu comandante era o tenente-coronel José da Rocha Galvão, outro veterano

da Independência. 


José Elói Buri, capitão da Companhia de Couraças, também foi veterano das lutas de 1822 e 1823. Os couraças, aliás, lembravam os vaqueiros do sertão, vestidos de couro, que haviam

se juntado aos patriotas que sitiavam os portugueses em Salvador.  A essa lista de veteranos da Independência envolvidos na mobilização de 1865, podemos acrescentar o tenente-coronel Domingos Mundim Pestana, comandante do Terceiro Batalhão de Voluntários da Pátria, quehavia assentado praça em 1821, com a idade de 15 anos, bem como ocoronel Joaquim Antônio da Silva Carvalhal, o principal idealizador daSociedade Veteranos da Independência e figura chave na organização das companhias de zuavos


Poucos dos veteranos idosos resistiram aos rigores da campanha. Quirino faleceu em novembro no hospital de Montevidéu, e Pestana, doente e cego, já estava de volta a Salvador em fevereiro de 1866;morreu dois anos mais tarde. Outros resistiram por mais tempo. RochaGalvão foi morto durante a primeira batalha de Tuiuti (24 de maio de1866), e Buri sucumbiu ao cólera três dias antes de sua licença médicater sido anunciada, em fins de 1867. Enquanto podiam servir, todavia,

suas idades lhes garantiram o respeito de seus soldados, a julgar por

uma descrição da Primeira Companhia de Zuavos durante uma curta

escala em Desterro (hoje Florianópolis): Quirino foi descrito como “umvelho preto [que] parece um verdadeiro homem de bem, a quem os seussoldados respeitam-no como a um pai”


Nasua despedida da Segunda Companhia de Zuavos, Carvalhal conclamouos a combater “denodados contra os paraguaios como o intrépido e imortal Henrique Dias combateu outrora os holandeses e na gloriosa épocada Independência o denodado tenente-coronel Manoel Gonçalves [da

Silva], fazendo sobressair o valor e [a] bravura da vossa cor”.


Para oembarque da Primeira Companhia de Zuavos, Francisco Moniz Barreto,então o poeta baiano mais popular (e também um veterano da Independência), escreveu às pressas o “Hino dos zuavos baianos”, cuja primeira estrofe e o estribilho são bem representativos da retórica patriótica

de 1865:


"Sou crioulo: da guerra na crisma

Por zuavo o meu nome troquei

Tenho sede de sangue inimigo

Por bebê-lo o meu sangue darei

D’Henrique Dias

Neto esforçado

Voo ao teu brado

Pátria gentil!

Mais que o da França

Ligeiro e bravo

Seja o zuavo

Cá do Brasil"


Em 1870, três batalhões de Voluntários da Pátria voltaram à Bahia. Foram recebidos com muita festa e logo depois dissolvidos. Muitos solda-

dos deram baixa sem receber os soldos atrasados que o governo ainda lhes devia.  Poucos oficiais ou soldados das companhias de zuavos

estavam entre os veteranos que voltaram naquele ano. Carvalhal preparou uma coroa de louros para receber o capitão Barbosa, o único oficialzuavo mencionado pela imprensa baiana na sua cobertura das festas.


Em versos dedicados a Carvalhal, um poeta saudoso lamentou o falecimento dos “nossos velhos amigos”, Rocha Galvão, Buri e Quirino, osveteranos da Independência que haviam servido como exemplo à juventude baiana, e logo passaram a bandeira à nova geração.


A carreira militar dos oficiais zuavos, agora melhor qualificadosde ex-zuavos, pode ser seguida durante o resto da guerra. Muitos ingressaram as longas listas de baixas que se acumulavam nas trincheiras em frente da fortaleza de Humaitá e nos insalubres acampamentos alia-

dos. Além de José Elói Buri, o tenente Manoel Teodoro de Jesus faleceu de cólera. Um “ferimento de estilhaço de bomba” foi a causa da

morte do tenente Augusto Francisco da Silva em março de 1867, e mais dois oficiais dos ex-zuavos morreram de ferimentos ou de doenças.


Outros, como os capitães Marcolino e Maniva, deram baixa por incapacidade física não especificada, entre eles também o alferes Bernardino de Sena Trindade e o tenente Balbino Nunes Pereira. Poucos serviram por toda a guerra. O capitão João Francisco Barbosa de Oliveira, comandante da Terceira Companhia de Zuavos, fez toda a campanha, mas não foi promovido (de fato, nenhum ex-zuavo chegou a major; capitão foi a graduação mais alta alcançada por eles). 


Ferido duas vezes, Barbosa nunca pediu licença, como explicou com orgulho num requerimento pós-guerra; ele estava entre as tropas que mataram Francisco Solano López em Aquidabã.


O cadete Constantino Luiz Xavier Bigode foi capturado pelos paraguaios pouco depois da Batalha de Curupaiti e passou mais de dois anos como prisioneiro de guerra, trabalhando na fundição de Ybicuí. Liberado em 1869, ele voltou ao serviço e foi promovido a alferes em março de 1870.


José Soares Cupim Júnior teve menos sorte que Barbosa e Bigode. Um dos primeiros voluntários zuavos (assentou praça na PrimeiraCompanhia no dia 1º de fevereiro de 1865), ele embarcou como sargento, e durante a guerra aos poucos foi promovido até chegar a capitão.Louvado por atos de bravura na Batalha de Curuzu, foi ferido na segunda Batalha de Tuiuti (24 de setembro 1867). Restabeleceu-se e voltouao serviço, mas foi ferido no primeiro dia das lutas em Lomas Valentinas(21 de dezembro de 1868). Não resistiu e faleceu no dia 13 de janeirode 1869, pouco depois da ocupação aliada de Assunção. Em 1871, sua viúva, dona Panfília Luiza Tolentino Soares, passou a receber uma pensão anual de 720 mil-réis.


O parlamento aprovou a pensão para viúvas de mais quatro oficiais zuavos falecidos: Sabina Joana do Espírito Santo (viúva de Quirino), Francisca Maria da Conceição (viúva de Tolentino), Josefina das Trevas Lima (viúva de Inocêncio) e Arcanja de

São Miguel Silva Serra (viúva de Augusto Francisco da Silva). 


Infelizmente, nenhum desses homens deixou documentos que possam revelar sua visão política de forma tão extensa como fez o alferes Candido da Fonseca Galvão, melhor conhecido na década de 1880 no Rio de Janeiro como Dom Obá II, numa longa série de artigos nosjornais fluminenses. Como a maioria dos veteranos, eles se reintegraram à população livre e pobre de cor da qual tinham sido recrutados.

Em Salvador a memória dos zuavos perdurou. No início do século XX, Manoel Querino registrou seus nomes e seus feitos militares a partir de

tradições orais.


Fonte: O Exército e a Abolição. Claudio Moreira Bento/OS COMPANHEIROS DE DOM OBÁ:OS ZUAVOS BAIANOS E OUTRAS COMPANHIAS NEGRAS NA GUERRA DO PARAGUAI

Hendrik Kraay