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domingo, 29 de janeiro de 2017

O destino dos negros após a Abolição





História - O destino dos negros após a Abolição

Morro da Favela (atual Providência), em 1927. Após a Lei Áurea, os negros libertos foram buscar moradia em regiões precárias e afastadas dos bairros centrais das cidades. Uma grande reforma urbana no Rio de Janeiro, em 1904, expulsou as populações pobres para os morros

Gilberto Maringoni - de São Paulo

A campanha abolicionista, em fins do século XIX, mobilizou vastos setores da sociedade brasileira. No entanto, passado o 13 de maio de 1888, os negros foram abandonados à própria sorte, sem a realização de reformas que os integrassem socialmente. Por trás disso, havia um projeto de modernização conservadora que não tocou no regime do latifúndio e exacerbou o racismo como forma de discriminação


A campanha que culminou com a abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, foi a primeira manifestação coletiva a mobilizar pessoas e a encontrar adeptos em todas as camadas sociais brasileiras. No entanto, após a assinatura da Lei Áurea, não houve uma orientação destinada a integrar os negros às novas regras de uma sociedade baseada no trabalho assalariado.

Esta é uma história de tragédias, descaso, preconceitos, injustiças e dor. Uma chaga que o Brasil carrega até os dias de hoje.

Uma das percepções mais agudas sobre a questão foi feita em 1964 pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995). Em um livro clássico, chamado A integração do negro na sociedade de classes, ele foi ao centro do problema:

“A desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho. (...) Essas facetas da situação (...) imprimiram à Abolição o caráter de uma espoliação extrema e cruel”.

As razões desse descaso ligam-se diretamente à maneira como foi realizada a libertação.

Várias causas podem ser arroladas como decisivas para a Abolição, algumas episódicas e outras definidoras. É possível concentrar todas numa ideia-mestra: o que inviabilizou o escravismo brasileiro foi o avanço do capitalismo no País. Longe de ser um simplismo mecânico, a frase expressa uma série de contradições que tornaram o trabalho servil não apenas anacrônico e antieconômico, mas sobretudo ineficiente para o desenvolvimento do País. Com isso, sua legitimidade passou a ser paulatinamente questionada.

ACELERADA TRANSFORMAÇÃO O Brasil das últimas três décadas do século XIX era uma sociedade em acelerada transformação. A atividade cafeeira vinha ganhando o centro da cena desde pelo menos 1840. O setor exportador torna-se o polo dinâmico da economia, constituindo-se no principal elo do País com o mercado mundial. Havia outras atividades de monta ligadas à exportação, como a borracha e a cana. Mas, a essa altura, a supremacia do café era incontestável.

A partir de 1870, com o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870), a agricultura de exportação vive uma prosperidade acentuada. Um expressivo fluxo de capitais, notadamente inglês, foi atraído para as áreas de infraestrutura de transportes – ferrovias, companhias de bonde e construção de estradas – e atividades ligadas à exportação, como bancos, armazéns e beneficiamento, todos garantidos pelo Estado.

O período marca a supremacia incontestável do império britânico. A expansão da economia internacional e a demanda crescente por matérias primas por parte dos países que viviam a Segunda Revolução Industrial resulta em um ciclo de investimentos nos países periféricos. O historiador inglês Eric Hobsbawm assinala o seguinte em seu livro A Era dos Impérios:

“O investimento estrangeiro na América Latina atingiu níveis assombrosos nos anos 1880, quando a extensão da rede ferroviária argentina foi quintuplicada, e tanto a Argentina como o Brasil atraíram até 200 mil imigrantes por ano”.

A CAMPANHA ABOLICIONISTA Embora rebeliões, fugas e a organização de quilombos já existissem no Brasil desde o século XVI e várias rebeliões regionais já tivessem a emancipação dos cativos em pauta, uma campanha organizada só acontece nas últimas décadas do século XIX.

A questão entra na agenda institucional a partir do final de agosto de 1880, quando é fundada a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. Começavam, no Parlamento, os debates sobre o projeto de libertação geral, apresentado pelo deputado pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910).

Uma intensa pressão popular resulta na libertação dos negros no Ceará, em 1884. Uma aguda crise na lavoura e reflexos da seca de 1877, além da ação de grupos urbanos, inviabilizaram o regime de cativeiro na região. Incentivado por esse desenlace, o abolicionismo toma ares de movimento em diversas províncias, como Rio Grande do Sul, Amazonas, Goiás, Pará, Rio Grande do Norte, Piauí e Paraná.

Foto: Acervo Gilberto Maringoni

Desenho de Ângelo Agostini, Revista Illustrada nº. 427 (18 de fevereiro de 1886)

A essa altura, a libertação total dos escravos já era uma possibilidade real. A perda de legitimidade da escravidão acentuava-se especialmente nas grandes cidades. A reação vinha de setores da oligarquia cafeeira, temerosos de um solavanco nos negócios com a previsão de perda de seu “capital humano” da noite para o dia. Como as evasões tornavam- -se frequentes, aumentou a repressão contra escravos fugidos em vários municípios da província do Rio de Janeiro.




ESCRAVIDÃO E MODERNIDADE A escravidão concentrava-se nas partes mais modernas da economia e tornara-se menos relevante nos setores atrasados ou decadentes. Em 1887, o Ministério da Agricultura, em seu relatório anual, contabilizava a existência de 723.419 escravos no País. Desse total, a Região Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo), produtora de café, abarcava uma população cativa de 482.571 pessoas. Todas as demais regiões respondiam por um número total de 240.848.

Ao mesmo tempo, o País passara a incentivar, desde 1870, a entrada de trabalhadores imigrantes – principalmente europeus – para as lavouras do Sudeste. É um período em que convivem, lado a lado, escravos e assalariados. Os números da entrada de estrangeiros são eloquentes. Segundo o IBGE, entre 1871 e 1880, chegam ao Brasil 219 mil imigrantes. Na década seguinte, o número salta para 525 mil. E, no último decênio do século XIX, após a Abolição, o total soma 1,13 milhão.

A implantação de uma dinâmica capitalista – materializada nos negócios ligados à exportação de café, como casas bancárias, estradas de ferro, bolsa de valores etc. – vai se irradiando pela base produtiva. Isso faz com que parte da oligarquia agrária se transforme numa florescente burguesia, estabelecendo novas relações sociais e mudando desde as características do mercado de trabalho até o funcionamento do Estado.

Para essa economia, o negro cativo era uma peça obsoleta. Além de seu preço ter aumentado após o fim do tráfico, em 1850, o trabalho forçado mostrava-se mais caro que o assalariado. Caio Prado Jr. (1907-1990), em seu livro História econômica do Brasil, joga luz sobre a questão:

“O escravo corresponde a um capital fixo cujo ciclo tem a duração da vida de um indivíduo; assim sendo, (...) forma um adiantamento a longo prazo do sobretrabalho eventual a ser produzido. O assalariado, pelo contrário, fornece este sobretrabalho sem adiantamento ou risco algum. Nestas condições, o capitalismo é incompatível com a escravidão”.

Foto: Acervo Gilberto Maringoni



“O escravo corresponde a um
capital fixo cujo ciclo tem
a duração da vida de um
indivíduo; assim sendo, (...)
forma um adiantamento a
longo prazo do sobretrabalho
eventual a ser produzido. O
assalariado, pelo contrário,
fornece este sobretrabalho
sem adiantamento ou risco
algum. Nestas condições, o
capitalismo é incompatível com
a escravidão”

João Manuel Cardoso de Mello,
economista


O economista João Manuel Cardoso de Mello escreve em seu O capitalismo tardio que:

“O trabalho assalariado se tornara dominante e o abolicionismo, a princípio um movimento social amparado apenas nas camadas médias urbanas e que fora ganhando para si a adesão das classes proprietárias dos Estados não-cafeeiros, na medida em que o café passara a drenar para si escravos de outras regiões, recebera, agora, o respaldo do núcleo dominante da economia cafeeira. Abolicionismo e Imigrantismo tornaram-se uma só e mesma coisa”.

CARA E OBSOLETA Esta condição – da escravidão ser uma relação de trabalho obsoleta – acentuou a necessidade de sua superação, tanto no plano econômico quanto no social e político.

A Abolição não era apenas uma demanda por maior justiça social, mas uma necessidade premente da inserção do Brasil na economia mundial, que já abandonara em favor do trabalho assalariado, mais barato e eficiente.

Um artigo publicado no semanário abolicionista Revista Illustrada, em 30 de abril de 1887, argumenta que a economia brasileira àquela altura já não dependia majoritariamente do trabalho servil:

“Pelos dados do Ministério da Agricultura, calcula-se que a cifra dos escravizados não chegue a 500 mil. Tirem-se as mulheres (50%), tirem-se os escravos das cidades, que nada produzem, e ver-se-á que o que fica para auxiliar a produção nacional é uma cifra tão irrisória, que podemos, com orgulho, afirmar, que a produção do nosso país já é devida aos livres”.

Os números não são exatamente iguais aos do Relatório do Ministério da Agricultura, já mencionado. Mas o comentário é digno de nota.

O fim do regime de cativeiro em São Paulo, em fevereiro de 1888, por exemplo, é ilustrativo. Às rebeliões de escravos ao longo da década de 1880 vieram se somar o formidável fluxo de mão-de-obra imigrante que chegava para a lavoura e para a incipiente indústria, inaugurando o regime de trabalho livre. A província já iniciara uma arrancada econômica – com a construção de ferrovias, instalação de casas bancárias e aumento das exportações – que a colocaria, na segunda década do século XX, na dianteira do desenvolvimento nacional. A libertação não representou nenhum abalo de monta para a economia regional.

A situação era diversa na província do Rio de Janeiro. A região enfrentava uma crise, com vários produtores rurais endividados em bancos. A libertação poderia representar um sério abalo. Com isso, os fazendeiros fluminenses ficaram contra a libertação.

LIMITES DO ABOLICIONISMO Apesar da ênfase abolicionista de setores das camadas médias e mesmo das elites em alguns centros urbanos, a pregação libertária tinha limites. Eles tornam-se perceptíveis quando examinamos que tipo de campanha os ideólogos da elite pretendiam realizar. Vale a pena conhecer as ideias do mais importante intelectual da emancipação, Joaquim Nabuco. Como deputado, ele liderou a jornada no parlamento.

Um trecho de sua obra mais importante, O abolicionismo, escrita em 1882, é esclarecedor. Nesta, Nabuco alega ter um “mandato da raça negra” (embora escravos não votassem):

“O mandato abolicionista é uma dupla delegação, inconsciente da parte dos que a fazem, (...), interpretada pelos que a aceitam como um mandato a que não se pode renunciar. Nesse sentido, deve-se dizer que o abolicionista é o advogado de duas classes sociais que de outra forma não teriam meios de reivindicar seus direitos, nem consciência deles. Essas classes são: os escravos e os ingênuos. Os motivos pelos quais essa procuração tácita impõem-nos uma obrigação irrenunciável não são puramente - para muitos não são mesmo principalmente - motivos de humanidade, compaixão e defesa generosa do fraco e do oprimido”.

Rico, filho do senador José Tomás Nabuco de Araújo (1813-1878), o parlamentar é membro de uma importante família pernambucana que teve entre seus membros altos funcionários do Império. Sigamos suas concepções:

“A propaganda abolicionista (...) não se dirige aos escravos. Seria uma covardia, inepta e criminosa e, além disso, um suicídio político para o partido abolicionista, incitar à insurreição, ou ao crime, homens sem defesa e que a lei da Lynch, ou a justiça pública, imediatamente, haveria de esmagar”.

Por que Nabuco pensa assim? Acompanhemos:

“A escravidão não há de ser suprimida no Brasil por uma guerra servil, muito menos por insurreições ou atentados locais. (...) A emancipação há de ser feita entre nós por uma lei que tenha os requisitos, externos e internos, de todas as outras. É, assim, no Parlamento, e não em fazendas ou quilombos do interior, nem nas ruas e nas praças das cidades que se há de ganhar ou perder a causa da liberdade”.

Sintetizemos: para Nabuco, o negro não tem consciência nem voz. Precisa de alguém para defendê-lo. É natural que quem o faça seja um branco, culto e influente. Mesmo assim, o negro não pode participar das mobilizações que visem mudar sua sina, sob pena de termos um cenário imprevisível.

Mesmo José do Patrocínio (1853-1905), tido como um abolicionista radical, não apresenta visão muito distinta. Pregava, no entanto, a necessidade de a campanha ganhar as ruas. O chamado Tigre da Abolição falava em “revolução”. Mas apontava ressalvas, dizendo ser necessária uma “aliança do soberano com o povo”:

“É uma revolução de cima para baixo. O povo não teria força por si só para realizar a abolição da escravidão”.

LEGALIDADE MONÁRQUICA As pregações de Nabuco e de Patrocínio envolviam duas vertentes principais.

A primeira é que o abolicionismo deveria ser conduzido nos estreitos limites da legalidade monárquica e escravocrata, no Parlamento e, no máximo, em salões e saraus. Deveria ser fruto de uma solução negociada entre o Estado e os fazendeiros, no espaço institucional e não no espaço social e público, sem risco de perda de controle.

A segunda é que os negros seriam sujeitos passivos nesse conflito. A essência da campanha abolicionista da chamada elite branca era clara: a emancipação deveria libertar os cativos sem tocar na ordem econômica vigente, centrada no latifúndio. Para isso, havia ao receio de que o movimento ganhasse as ruas, envolvendo seus principais interessados, os negros, e tivesse contornos de desobediência civil.

Em seu livro Onda negra, medo branco, Celia Maria Marinho de Azevedo chama a atenção para algumas decorrências dessa situação:

“Tudo se passa, enfim, como se os abolicionistas tivessem dado o impulso inicial e dirigido os escravos nestas rebeliões e fugas (...).Quanto aos escravos, tem-se a impressão de que são vítimas passivas, subitamente acordadas e tiradas do isolamento das fazendas pelos abolicionistas; ou então (...) a ideia que se passa é a de que o negro, apesar de toda a sua rebeldia, estava impossibilitado de conferir um sentido político às suas ações”.

Foi com esse caldo de cultura que se preparou a Abolição como uma intervenção restrita à libertação, sem medidas complementares, como reforma agrária, ampliação do mercado de trabalho, acesso à educação, saúde etc.

O que estava em jogo para a elite branca não era principalmente uma reforma social, mas a liberação das forças produtivas dos custos de manutenção de um grande contingente de força de trabalho confinada. A escravidão, no final do século XIX, tornara-se um obstáculo ao desenvolvimento econômico.

Foto: Acervo Gilberto Maringoni



O negro e o membro da elite. O primeiro, descalço, tira o chapéu, em respeito. O segundo parece alheio a quem está ao seu lado. A legenda da foto em Fon Fon nº 6, 18 de maio 1907 é: “Príncipe Dom Luiz [de Orleans e Bragança (1878-1921)] com o banhista Sant’Anna que o ensinou a nadar na praia do Flamengo”. A Abolição manteve libertos em posição subalterna na sociedade


A LIBERTAÇÃO Em maio de 1888 veio a Lei Áurea e, 16 meses depois, como consequência direta das contradições que vivia o País, a República.

Com a abundância de mão de obra imigrante, os ex-cativos acabaram por se constituir em um imenso exército industrial de reserva, descartável e sem força política alguma na jovem República.

Os fazendeiros – em especial os cafeicultores – ganharam uma compensação: a importação de força de trabalho europeia, de baixíssimo custo, bancada pelo poder público. Parte da arrecadação fiscal de todo o País foi desviada para o financiamento da imigração, destinada especialmente ao Sul e Sudeste. O subsídio estatal direcionado ao setor mais dinâmico da economia acentuou desequilíbrios regionais que se tornaram crônicos pelas décadas seguintes. Esta foi a reforma complementar ao fim do cativeiro que se viabilizou. Quanto aos negros, estes ficaram jogados à própria sorte.

A esse respeito, Celia Maria Marinho de Azevedo lembra que:

“A força de atração destas propostas imigrantistas foi tão grande que, em fins do século, a antiga preocupação com o destino dos ex-escravos e pobres livres foi praticamente sobrepujada pelo grande debate em torno do imigrante ideal ou do tipo racial mais adequado para purificar a ‘raça brasílica’ e engendrar por fim a identidade nacional”.

AS TEORIAS DO BRANQUEAMENTO A libertação trouxe ao centro da cena, além do projeto de modernização conservadora para a economia, o delineamento social que a elite desejava para o País. Voltemos a Joaquim Nabuco, em O abolicionismo:

“O principal efeito da escravidão sobre a nossa população foi africanizá-la, saturá- -la de sangue preto. (...) Chamada para a escravidão, a raça negra, só pelo fato de viver e propagar-se, foi se tornando um elemento cada vez mais considerável na população”.

Nabuco não pregava no deserto. O mais importante defensor da imigração como fator constitutivo de uma “raça brasileira” foi Silvio Romero (1851-1914). Republicano e antiescravocrata, ele notabilizou-se como crítico e historiador literário. Romero preocupa-se em relacionar fatores físicos e populacionais do País ao desenvolvimento da cultura. Segundo ele, no Brasil, desde o período colonial, se formou uma mestiçagem original. Este seria um fator decisivo para a superação de nosso atraso, através da futura constituição de uma “raça” brasileira, com supremacia branca. Daí a necessidade da imigração europeia. Vamos às suas palavras, em 1885, na introdução do livro Contos populares do Brasil (1885):

“Das três raças que constituíram a atual população brasileira a que um rastro mais profundo deixou foi por certo a branca segue-se a negra e depois a indígena. À medida, porém, que a ação direta das duas últimas tende a diminuir, com o internamento do selvagem e a extinção do tráfico de negros, a influência europeia tende a crescer com a imigração e pela natural tendência de prevalecer o mais forte e o mais hábil. O mestiço é a condição dessa vitória do branco, fortificando-lhe o sangue para habilitá-lo aos rigores do clima”.

Essas opiniões evidenciam o pensamento dos abolicionistas sobre a composição étnica pretendida para o País. Membros das camadas médias e altas urbanas, cultos, cosmopolitas, alguns ligados diretamente à oligarquia rural – caso de Nabuco – e em sua maioria defensores do “progresso” (os positivistas) ou do “desenvolvimento” (os liberais), a eles interessava sobretudo a modernização do país, a equiparação de hábitos de consumo aos correspondentes das camadas mais altas dos países ricos e a integração do Brasil, tanto econômica, como política e ideologicamente, aos parâmetros do liberalismo.

Não havia contradição, em fins do século XIX, em alguém se apresentar como um acendrado abolicionista e, ao mesmo tempo, manifestar um racismo ou um elitismo acentuado. Não há vínculo entre ambas as coisas, assim como não havia compromisso algum entre a grande maioria dos abolicionistas e os negros cativos. O mais importante era não tocar na ordem institucional, que tinha como pilar central a grande propriedade da terra.

Foto: Acervo Gilberto Maringoni


Desenho de Ângelo Agostinina Revista Illustrada nº 427, de 18 de fevereiro de 1886: denúncia crua da escravidão



RAÍZES DO RACISMO O preconceito racial abolicionista tinha raízes dentro e fora do País. A propalada superioridade da raça branca era parte constitutiva da ideia de “progresso”, lembra o historiador Eric Hobsbawm.

No século XIX, os maiores países europeus passam a ser, com hierarquias variadas, centros de poder imperial, conquistando colônias na África e na Ásia. Havia um nó teórico a ser desatado: como regimes liberais, lastreados nas ideias da Revolução Francesa (1789), poderiam colonizar nações inteiras, subjugando povos e culturas a seus desígnios?

É nesse ponto que surgem as primeiras teorias racialistas para justificar a superioridade intelectual, física e moral do europeu branco. O primeiro grande formulador foi o conde francês Joseph-Arthur Gobineau (1816–1882).

Diplomata, poeta, romancista e escultor, Gobineau tornou-se conhecido após a publicação de seu Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1855). Se os outros povos eram inferiores, como poderiam ter os mesmos direitos dos europeus?

A noção de superioridade racial passara a ser legitimadora da ordem imperial, na qual o fornecimento ininterrupto e a bom preço de matérias primas era o combustível para o funcionamento da economia internacional. As teorias raciais surgiram para legitimar uma concepção de mundo que pregava liberdade, igualdade e fraternidade entre brancos e que justificava a superexploração de outras etnias.

E a ideologia do racismo passou a existir dentro de cada país, mesmo nos da periferia do sistema, como explicação determinista para a dominação de classe, o desnível social e a europeização acrítica de suas camadas dominantes.

INDESEJADOS DOS NOVOS TEMPOS Os ex-escravos, além de serem discriminados pela cor, somaram- -se à população pobre e formaram os indesejados dos novos tempos, os deserdados da República. O aumento do número de desocupados, trabalhadores temporários, lumpens, mendigos e crianças abandonadas nas ruas redunda também em aumento da violência, que pode ser verificada pelo maior espaço dedicado ao tema nas páginas dos jornais.

Escrevendo sobre esse período, Lima Barreto (1881-1922) ressalta que:

“Nunca houve anos no Brasil em que os pretos (...) fossem mais postos à margem”.

A descrição do historiador Luiz Edmundo (1878-1961), em seu livro O Rio de Janeiro do meu tempo, sobre morro de Santo Antônio e suas moradias e vielas miseráveis, poucos anos depois, mostra um pouco da cartografia humana da então capital:

Foto: Acervo Gilberto Maringoni


Joaquim Nabuco, o principal teórico do movimento
abolicionista (Renascença nº 4, junho de 1904)


“Por elas vivem mendigos, os autênticos, quando não se vão instalar pelas hospedarias da rua da Misericórdia, capoeiras, malandros, vagabundos de toda sorte: mulheres sem arrimo de parentes, velhos que já não podem mais trabalhar, crianças, enjeitados em meio a gente válida, porém o que é pior, sem ajuda de trabalho, verdadeiros desprezados da sorte, esquecidos de Deus...(...) No morro, os sem- -trabalho surgem a cada canto”.

O novo regime, apesar das promessas, não viera para democratizar a sociedade ou possibilitar uma maior mobilidade social. Por suas características acentuadamente oligárquicas, a República brasileira chegara para manter intocada uma estrutura elitista e excludente.

Por conta disso, as autoridades logo voltam-se para a repressão a diversas manifestações populares. A partir de 1890, são impiedosamente perseguidos os capoeiras, valentões, predominantemente negros e pobres, que praticavam essa modalidade de luta pelas ruas do Rio de Janeiro.



LARGADOS À PRÓPRIA SORTE Em que pesem alguns episódios específicos, a base fundamental da campanha abolicionista movida por setores da elite econômica dos anos 1880 estava longe de ser um humanitarismo solidário aos negros, ou a busca de reformas sociais democratizantes. Isso tornou-se evidente com o passar dos anos, apesar de um discurso contraditório de setores das classes dominantes, simpáticos à libertação. Havia, por exemplo, o caso do projeto abolicionista de Joaquim Nabuco. Rejeitado pela Câmara dos Deputados, em fins de 1880, o texto manifestava alguma preocupação social. Seu artigo 49 definia:

“Serão estabelecidas nas cidades e vilas aulas primárias para os escravos. Os senhores de fazendas e engenhos são obrigados a mandar ensinar a ler, escrever, e os princípios de moralidade aos escravos”.

E havia mais. O historiador Robert Conrad assinala que:

“Os abolicionistas radicais, como Nabuco, André Rebouças, José do Patrocínio, Antonio Bento, Rui Barbosa, Senador Dantas e outros esperavam que a extensão da educação a todas as classes, a participação política em massa e uma ampliação de oportunidades econômicas para milhões de negros e mulatos e outros setores menos privilegiados da sociedade brasileira viessem a permitir que estes grupos assumissem um lugar de igualdade numa nação mais homogênea e próspera”.

O mesmo pesquisador assinala ainda o fato de que “durante os anos abolicionistas, a reforma agrária foi proposta frequente e urgentemente”. E lembra do plano de André Rebouças, no qual grandes proprietários venderiam ou alugariam lotes de terras a libertos, imigrantes e lavradores. Trata-se de uma modalidade de reforma que prescinde da democratização fundiária, restringindo-se às regras do mercado então vigentes.

Quando a campanha abolicionista tomou vulto, tais propostas foram pouco a pouco sendo deixadas de lado.

Quais as razões disso? Voltemos a Florestan Fernandes. Talvez a resposta esteja sintetizada neste trecho de seu livro já citado:

“A preocupação pelo destino do escravo se mantivera em foco enquanto se ligou a ele o futuro da lavoura. Ela aparece nos vários projetos que visaram regular, legalmente, a transição do trabalho escravo para o trabalho livre, desde 1823 até a assinatura da Lei Áurea. (...) Com a Abolição pura e simples, porém, a atenção dos senhores se volta especialmente para seus próprios interesses. (...) A posição do negro no sistema de trabalho e sua integração à ordem social deixam de ser matéria política. Era fatal que isso sucedesse”.

A história que se seguiu confirmou essas palavras.

fonte :  http://desafios.ipea.gov.br/

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

UM CICLO MONÓTO, REPETITIVO... OU PURA HISTORIA

Porque assistir a uma apresentação de capoeira?

De início, concordo com algumas pessoas não simpatizantes da nossa arte, que ao dizer que a roda de capoeira, por mais de 5 minutos é monótona, pois seus movimentos e ritmo são repetitivos e cansa para quem assiste.

Pois bem, agora vos convido para enxergarem seu verdadeiro propósito, que para além de um sistema capitalista, a apresentação da capoeira, tem como proposta expor uma arte marcial que se tornou patrimônio cultural dá humanidade.

É assim, apreciar uma arte, que no passado serviu de arma e instrumento contra o regime escravista, tendo estes mesmos golpes repetitivos, como auxílio do negro em sua luta para conquistar NOVAMENTE sua liberdade, uma singela liberdade de se afirmar como SER HUMANO.

Uma roda de capoeira, em sua plenitude, está intrínseca à história do Brasil, onde sua participação foi altamente imposta, como: guerra do Paraguai; revoltas nacionais ( vacina e chibata ); formação da guarda negra; criação do frevo e do passo do samba, e mais ainda, a abolição, dentre muitos outros eventos que não cabe aqui citar.

Assistir uma apresentação de capoeira, é participar de uma manifestação que se faz presente a maior rede marcial de absorção cultural, contendo elementos dos Mouros, Espanhóis e Portugueses, incorporados aos elementos de matrizes africanas, onde se fundiram em solo brasileiro.

Assistir a uma apresentação de capoeira, é saber que ali se faz presente, um processo de expansão mundial, tendo a capoeira como a maior difusora da língua portuguesa no mundo. É aprender os ensinamentos dos mais velhos, através da oralidade presente nas cantigas.

É saber que a roda de capoeira, possui ritualística, ritmos, defesa pessoal, malandragem, brincadeira, teatro, expressão corporal, religiosidade, bem estar físico e mental, interdisciplinaridade, disciplina, regras, moralidade, e entrosamento coletivo.

Por fim, a roda de capoeira, é ainda, estar no mesmo espaço e tempo, toda a sabedoria de um mestre e toda a inocência de uma criança, se resumindo na filosofia africana UBUNTU, onde todos somos um só.

Por Prof. ENGUILO

Guilherme Arengui

Prof. Hist. da Capoeira

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Frevo e a Capoeira


25 de novembro dia do frevo

O Frevo e a Capoeira 


O frevo vem da mistura de capoeira, com marchinha. Eram os "capoeiras", os valentões,brabos de sua época que se formavam Maltas,Grupos  que defendia uma letra de musica,uma marcha,de um determinado Cortejo, que no final do século XIX, na cidade do Recife, abriam as apresentações das bandas de música militares. Os passos e coreografias são fortes, frevados: a "dobradiça", o "parafuso", o "rabo-de-arraia". Em cima desse passos tem que improvisar com muita vontade, alucinar, "frever"... "Apare essa bomba", rapaz! "Segure essa brasa", véio! O que tocar a gente "freva"!... A capoeira é de origem brasileira. Mas, tem gente que brinca, dizendo que ela nasceu no Brasil, mas já veio grávida de Angola, nos navios negreiros. No Brasil ela surge nas cidades portuárias do Rio, Recife e Salvador, onde aportavam os escravos vindos da África. A história da capoeira tem umas misturas curiosas herança moura, com seus tamancos, lencinhos e "sardinhas" toda uma gíria fadista "capela", "branquinha", "rasteira"... a capoeira também é mestiça. Cabeçada, rasteira, rabo de arraia, meia lua... Arte, luta, malícia, brincadeira. Capoeira parece dança e é luta. Parece luta e é brincadeira. Capoeira é um jeito de lutar jogando, rindo, dissimulando. É liberdade brincada, dançada. 
O Frevo surgiu em Pernambuco, entre o fim do século XIX e o início do século XX, primeiramente como um ritmo carnavalesco, nascido dos maxixes, dobrados, polcas e marchinhas de carnaval. O frevo originalmente não tem letra, é só tocado por uma banda.

Do ritmo mais rápido, das bandas de músicas marciais, surgiu a dança do frevo, nos desfiles antigos de carnaval, quando jogadores de capoeira abriam o caminho para os músicos passarem pela multidão. O frevo mistura passos de ballet, capoeira e cossacos.

O nome frevo tem origem na palavra ferver, que na pronúncia popular virou “frever”. O significado é o mesmo de fervura, ou seja, agitação, rebuliço. O termo foi usado pela primeira vez em 1908, em um Jornal chamado Pequeno.

Embora arraste multidões dançando e divertindo-se, o frevo é uma dança complexa, de passos complicados, muita improvisação, que misturam rodopios, gingados, passos miúdos, malabarismos entre outros. Os dançarinos utilizam ainda uma sombrinha colorida (aberta) enquanto dançam, demonstrando grande técnica.

Existem mais de cem passos conhecidos do frevo, sendo os mais famosos: Locomotiva, Dobradiça, Fogareiro, Capoeira, Tesoura, Mola, Ferrolho e Parafuso, entre outros.

Nos anos 30, o frevo foi dividido em três ritmos:

* Frevo-de-Rua – É o frevo completamente instrumental, feito exclusivamente para dançar. A música do Frevo-de-Rua pode ter: notas agudas (frevo-coqueiro), predominância de pistões e trombones (frevo-abafo) e introdução de semicolcheias (frevo-ventania).

* Frevo-de-Bloco – Originada das serenatas realizadas paralelamente ao carnaval, no início do século. A orquestra de Pau e Corda é composta de banjos, violões, cavaquinhos e recentemente vem sendo utilizado também o clarinete.

* Frevo-Canção – Frevo mais lento, com algumas semelhanças em relação à marchinha carioca. É composto por uma introdução e uma parte cantada, terminando ou começando com um refrão.

O carnaval de Olinda é o carnaval do frevo, que pode ser considerado o carnaval mais popular do país, embora não seja o maior. Isso porque no carnaval do frevo não existem escolas de samba, sambas-enredo ou trios elétricos, ou seja, o carnaval é realizado pelo povo, pelas famílias que saem nas ruas para a folia.

Pesquisas:
web 
CURTA!
Thais Pacievitch  Dança
Postado por Mestre Bicheiro

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

MESTRE NASCIMENTO GRANDE


Nascimento Grande
"O gigante do Recife"

Assim como Manduca da praia que reinou entre os malandros do Rio de Janeiro durante o segundo império e Besouro Magangá um dos principais nomes da capoeira baiana nos primeiros anos da República velha, Nascimento Grande foi o maior nome da capoeira de Pernambuco durante o período das maltas até o apogeu das mesmas em 1912.

A data do seu nascimento é incerta, porém o professor, poeta, compositor, pintor e teatrólogo Wanderley Eustorgio(1882-1962), amigo pessoal de Nascimento grande, nos informa no seu livro;
 "Tipos populares do Recife antigo" que o nosso personagem teria nascido em 1942.

Outra grande contribuição vem do escritor, jornalista, historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898—1986), nos dá as seguintes informações.
José Antonio do Nascimento Silva, era estivador trabalhava no caís do porto do Recife, homem alto com 2 m de altura, corpo cheio de musculos, com aproximadamente 130 quilos, mulato com bigodes, de sorriso cordial e cortês, dotado de gentileza e educação. Usava chapeu com abas, tinha nos braços e pernas uma capa de borracha dobrada para amortecer as pancadas dos seus inimigos. Estava sempre acompanhado da sua bengala de quinze quilos, que ele chamava "a volta".Uma bengalada derrubava, duas bengaladas desmaiava, três bengaladas matavam. Há quem diga que essa bengala era de ferro.

Suspeitam se que Nascimento assim como besouro era um homem do povo que não provocava brigas, porém não aceitava injustiças com os menosprezados pela sociedade, ao contrário de Manduca da Praia que prestava serviços a elite e tinha os seus próprios interesses. Mas assim como os outros dois Nascimento não dispensava uma contenda quando topava de frente com outro valente.

Nascimento era adepto do Catimbó(religião nordestina que mistura catolicismo, cadomblé e crenças indígenas), carregava sempre um santo lenho(amuleto voltado para a cruz de cristo) que mantinha o seu corpo fechado, frequentava também os terreiros de cadomblé, e todo domingo estava presente na missa do vigário.

Nascimento era um homem da noite, estava sempre dentro dos cabarés e na boêmia do Recife antigo, as prostitutas lhe adoravam pois o mesmo era defensor das mesmas, Sempre que aparecia um valentão, um cafetão ou mesmo clientes metidos a machões maltratado essas moças, Nascimento comprava a briga. Isso era fato raro entre os antigos malandros, pois a maioria deles judiavam muito dessas moças que não tinham ninguém por elas, os baianos Pedro Mineiro e Pedro Porreta, que muitos acreditam terem sido cafetões de rua na Bahia, estavam sempre sendo detidos por violência contra essas mulheres da noite. 

Nascimento X Pagéu:

Pagéu era do bairro de São José foi um dos mais afamados e perigos valentes que o Recife já viu, um covarde que não tinha dó de surdo, nem de mudo, nem de cego, nem de alejado, espancava mulheres e crianças e era temido até pela policia. Certa vez em um cabaré Pajéu espancou uma moça que se recusou a ter relações sexuais com ele, Nascimento tava lá, comprou a briga da moça e o pau quebrou no local. Pajéu lhe atacou com uma "viana"(faca), na intenção de matá lo, mas Nascimento o desarmou e o espancou. Não contente com isso,  além de fazer o cara vestir a saia que a moça usava Nascimento ainda obrigou o mesmo a fazer sexo oral em um outro cliente que alí se encontrava.

Nascimento X Corre Hoje:

Certa vez em Vitória de Santo Antão, Nascimento defrontou-se com o terrivel e perigoso capoeirista conhecido pela alcunha corre hoje. Há quem diga que o valentão corre Hoje e o valentão Antônio Padroeiro seja a mesma pessoa, porém não existe fonte que comprove essa afirmação. Na ocasiso Corre Hoje e mais sete comparças cercou Nascimento Grande após a missa do Carmo. Durante a briga os comparsas fugiram deixando corre hoje,  ficou sozinho, nesse dia a tragedia inevital aconteceu Nascimento Grande acabou matando o seu desafecto. Porém o que marcou esse dia não a foi a morte do valente e sim a atitude de Nascimento grande, que pegou o corpo e levou até a igreja local exigindo que o padre fizesse um velório cristão. 

Nascimento X João sabe tudo:

Primeiro uma breve descrição sobre João sabe tudo. Esse ao contrário de Nascimento era franzino e de estatura média, e mancava de uma perna devido a um tiro que levou da policia no joelho esquerdo, o mesmo era tão temido e respeitado quanto Nascimento no Recife antigo, eram inimigos mortais e toda vez que se encontravam eram inevitável a contentenda. Nesse dia não foi diferente, Sabe Tudo com uma peixeira e Nascimento com a sua bengala, todos queriam ver a briga e a multidão se formou, os dois maiores valentes de Pernambuco mais uma vez se enfrentavam, a polícia não se meteu por que não teve coragem, a briga durou muito tempo, e só parou por que durante a pancadaria foram parar na frente da igreja com a multidão que os acompanhavam, o padre da igreja local teve que intervir e ordenou aos valentes que respeitassem a casa de Deus. Ambos por serem muito religiosos acataram a decisão do padre e pararam a briga já quase desfalecidos, ambos estavam muito machucados e a briga terminou sem um ganhador.

No início do séc. XX, Nascimento teria ido para o Rio de Janeiro com um grupo de retirantes e lá ele se defrontou com um dos mais perigosos capoeiristas do Rio o malandro e boêmio Miguel camisa preta Camisa Preta, um dos mais temidos capoeiristas do Rio de Janeiro, nesse confronto Nascimento teria lhe matado, porém essa versão é contestada pelos cariocas que atribui a morte do antigo malandro a uma emboscada.

Quanto morte de Nascimento grande alguns dizem que o mesmo teria morrido no Recife com mais de cem, após a sua volta do Rio de Janeiro. Outros dizem que ele morreu no Rio de Janeiro por volta de 1936 aos 94 anos de idade. 
Reza a lenda que antes da sua possível morte no Rio de Janeiro em 1936, Nascimento se meteu em uma última briga. Já idoso ele teria comprado um abacaxi e ao chegar em casa se deu conta que o abacaxi estava estragado e voltou para devolver, o vendedor achando que aquele ancião era um velhinho qualquer resolveu tirar uma onda da cara do nosso personagem e levou uma tremenda surra.

Uma breve reflexão:

Ser valentão, brigador, frequentador da noite, obter o respeito da malandragem era a meta da maioria dos capoeiristas, tanto os capoeiras das maltas dos séc. XIX, quanto os boêmios dos grandes centros do séc. XX. Porém homens de destaques como Nascimento Grande(PE), Besouro(BA), Manduca da Praia(RJ), Camisa Preta(RJ), Pedro mineiro(BA), e muitos outros tinham que ter as atenções dobradas no dia a dia, pois além da policia que os perseguiam, também haviam outros valentões tentando destrona los a qualquer custo. Essas brigas de Nascimento grande que parecem ser histórias exageradas eram fatos comuns da época. Imagine um cara que consegue derrotá-lo ou matá-lo? Esse seria respeitado entre os bambas, seria temido pela polícia, teria a mulher que quisesse, emfim obtinha o respeito à moda antiga. Ser valente era sinônimo de ser famoso, destronar um valente era sinal de fama eterna. A boa e a má malandragem andavam lado a lado, e no jogo pela sobrevivência valía de tudo, a mandinga, a covardia, a lealdade, a traição, a verdadeira e falsa amizade, a astúcia, a coragem tudo isso era sinônimo de sobrevivência onde a lei era só uma. "O último a cair era sempre o vencedor".

Fontes:
.Eustórgio Wanderley; 
(Tipos populares do Recife antigo). 1954.

.Luíz da Câmera Cascudo
Historiador, Antropólogo, Advogado, Jornalista e Folclorista brasileiro, que nasceu na virada do séc. XIX para o séc. XX, e chegou a conhecer Nascimento Grande. 
(Histórias que o tempo leva – Ed. Monteiro Lobato, S. Paulo, outubro 1923,1924).
CÂMARA CASCUDO, Luís da. Dicionário do Folclore Brasileiro. 10ª ed., Ediouro, Rio de Janeiro, s/d,

.ARAÚJO, Guilherme de. Capoeiras e Valentões do Recife. Revista do instituto arqueológico, histórico e geográfico pernambucano, Recife:

.Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São P

Texto:
Antônio Luíz dos Santos Campos ( boa alma )

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

MESTRE TOTONHO DE MARÉ

MESTRE TOTONHO DE MARÉ
              (m. maré)

Antônio Laurindo Das Neves nasceu na última década do séc. XIX, no dia 17 de setembro do ano de 1894 na Ilha de Maré, Salvador(BA) era filho de Manoel Gasparino Neves e de Margarida Neves, era 5 anos mais novo que o Mestre Pastinha(1889-1981), 1 ano mais velho que Besouro Magangá(1895-1924), e 6 anos mais velho que o Mestre Bimba(1900-1974). Foi um dos mais afamados entre os antigos capoeiristas da Bahia, o próprio dizia ter aprendido capoeira sozinho. Foi observando mais antigos que ele jogarem que o Mestre Maré desenvolveu o seu aprendizado e depois foi testa-lo pelas ruas de Salvador, com o passar do tempo o mesmo ganhou as rodas e o respeito dos bambas do seu tempo.

Maré compôs o seleto grupo de bambas que frequentava a  gengibirra. A gengibirra era a nata da capieoragem baiana, frequentada por Aberrê, Livino Diogo, Noronha, Amorzinho e muitos outros grandes nomes da  capoeira da Bahia nas primeiras décadas do séc. XX.(inclusive esse último "Amorzinho" era um guarda de quarteirão, foi ele quem entregou ao Mestre Pastinha a responsabilidade de assumir e organizar gengibirra no ano de 1941).

O Mestre Maré era um homem fisicamente muito forte, a sua força, a sua destreza e a sua grande  estatura o-fez ser vencedor de grandes duelos corporais em lutas de rua pela Bahia. Durante a sua juventude, foi por diversas vezes campeão baiano de capoeira(lutas clandestinas organizadas por estivadores do caís que além de Maré tinha o estivador e capoeirista Victor H.U, como um dos grandes campeões, lembrando que o Mestre Bimba foi o primeiro a subir no ringue em lutas oficiais durante os anos 30, inclusive Victor H.U, foi um dos lutadores derrotado pelo criador da regional). Muitos dos antigos angoleiros eram respeitados pelos seus certeiros rabos de arraia, Maré era respeitado pelas suas certeiras e fortes cabeçadas que sempre levava ao chão quem as-recebiam, ora fossem companheiros de jogo, ora fossem adversários de luta em brigas de rua.

Maré foi um capoeirista n'uma época em que a capoeira era proibida pelo código penal, um período onde os seus praticantes a-usavam para os mais variados meios. A capoeira era um meio de sobrevivência, era a principal arma nos conflitos com a polícia, era usada para fazer capangagem política, era usada para marcação de território, era usada nas brigas dentro das casas de prostituição, era usada para guardar casas de jogos, era usada para resolver pendências pessoais e etc. Todos esses fatores faziam a sociedade ver a capoeira e os capoeiristas como um perigo para a sociedade. Ser capoeirista no tempo do Mestre Maré era matar um leão por dia, não bastava ficar atento apenas com a perseguição policial, teria também que se esquivar dos grandes valentões que ganharam as ruas de Salvador nesse período.

Maré assim como o Mestre Noronha não tinha uma roda de capoeira fixa, ele participava das rodas dos amigos geralmente nas festas de largo da Bahia. A voz trêmula da velhice, a barba branca, as rugas no rosto e os cabelos brancos lhe garantiam o respeito de todos dentro da capoeiragem. Não era muito de se meter confusões e só brigava para se defender, foi preso apenas uma vez depois tomar a arma de um homem que queria mata-lo, e após espancar o dito cujo ele foi parar na cadeia. Participou do filme "dança de guerra dirigido pelo Mestre Jair Moura no ano de 1968, um documentário com a participação dos grandes mestres da velha guarda baiana, nesse periodo o Mestre Maré já tinha 74 anos de idade, seis anos antes da sua morte. A única entrevista existente em audio do Mestre Maré  foi gravada justamente por Jair Moura durante as gravações de dança de guerra, além do filme e da entrevista existe também um CD, relativo ao documentário, tudo isso está disponível no YouTube.

Muito pouco se sabe sobre esse importante nome da capoeiragem baiana, um dos mais
importantes nomes da capoeira antiga registrado na história. O Mestre Bimba se referia ao mesmo como "meu companheiro Maré", ambos tinham um respeito muito um pelo outro. Inclusive os antigos angoleiros ao questionarem as gloriosas vitórias do Mestre Bimba no ringue usaram o argumento que ele teria que lutar com o Mestre Maré que era campeão baiano, porém essa luta nunca aconteceu.

Para tristeza da capoeira e da cultura Brasileira, no dia 18 de outubro de 1974 as cortinas do espetáculo da vida se fechou para o mestre Maré, e ele fez a sua passagem aos 80 anos de idade. Oito décadas de muitas aventuras, capoeiragem, alegrias, tristesas, glórias e muitas histórias. Infelizmente Maré não escapou da triste sina da capoeiragem antiga de morrer na miséria, assim como morreu Bimba, Pastinha, Noronha e toda a nata da capoeira baiana.

 "Faço parte do grupo de galanteiros da capoeira "
              (M. Maré)

Fontes:
entrevista cedida por Maré a Jair Moura em 1968.

.MAGALHÃES FILHO JOGO DE DISCURSOS: A DISPUTA POR HEGEMONIA NA TRADIÇÃO DA CAPOEIRA ANGOLA BAIANA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

               Texto:
Antônio Luiz dos Santos Campos(boa alma)
Mestre Maré aos 80 anos de idade

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Proibição da Capoeira


No dia de 11 de outubro de 1890 a 126 anos atras através de um decreto de Marechal  Deodoro da Fonseca foi intiguido a legalidade  da CAPOEIRA.assim se tornando crime e repudiada  de todas formas caçada e quase erradicada do  nosso Brasil  sendo preso os seus praticantes e mandado pra o presídio Fernando de Noronha. E SÓ sendo removida do código  penal em 1937 pelo sr nosso presidente Getúlio  Vargas. 


DECRETO  N. 847 – DE 11 DE OUTUBRO DE 1890



O Generalissimo Manoel Deodoro da Fonseca, Chefe do Governo Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brazil, constituido pelo Exercito e Armada, em nome da Nação, tendo ouvido o Ministro dos Negocios da Justiça, e reconhecendo a urgente necessidade de reformar o regimen penal, decreta o seguinte: CODIGO PENAL DOS ESTADOS UNIDOS DO BRAZIL

LIVRO III - Das contravenções em especie

CAPITULO XIII - DOS VADIOS E CAPOEIRAS

Art. 399. Deixar de exercitar profissão, officio, ou qualquer mister em que ganhe a vida, não possuindo meios de subsistencia e domicilio certo em que habite; prover a subsistencia por meio de occupação prohibida por lei, ou manifestamente offensiva da moral e dos bons costumes:

Pena – de prisão cellular por quinze a trinta dias.

§ 1º Pela mesma sentença que condemnar o infractor como vadio, ou vagabundo, será elle obrigado a assignar termo de tomar occupação dentro de 15 dias, contados do cumprimento da pena.

§ 2º Os maiores de 14 annos serão recolhidos a estabelecimentos disciplinares industriaes, onde poderão ser conservados até á idade de 21 annos.

Art. 400. Si o termo for quebrado, o que importará reincidencia, o infractor será recolhido, por um a tres annos, a colonias penaes que se fundarem em ilhas maritimas, ou nas fronteiras do territorio nacional, podendo para esse fim ser aproveitados os presidios militares existentes.

Paragrapho unico. Si o infractor for estrangeiro será deportado.

Art. 401. A pena imposta aos infractores, a que se referem os artigos precedentes, ficará extincta, si o condemnado provar superveniente acquisição de renda bastante para sua subsistencia; e suspensa, si apresentar fiador idoneo que por elle se obrigue.

Paragrapho unico. A sentença que, a requerimento do fiador, julgar quebrada a fiança, tornará effectiva a condemnação suspensa por virtude della.

Art. 402. Fazer nas ruas e praças publicas exercicios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumultos ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal:

Pena – de prisão cellular por dous a seis mezes.

Paragrapho unico. E' considerado circumstancia aggravante pertencer o capoeira a alguma banda ou malta. Aos chefes, ou cabeças, se imporá a pena em dobro.

Art. 403. No caso de reincidencia, será applicada ao capoeira, no gráo maximo, a pena do art. 400.

Paragrapho unico. Si for estrangeiro, será deportado depois de cumprida a pena.

Art. 404. Si nesses exercicios de capoeiragem perpetrar homicidio, praticar alguma lesão corporal, ultrajar o pudor publico e particular, perturbar a ordem, a tranquilidade ou segurança publica, ou for encontrado com armas, incorrerá cumulativamente nas penas comminadas para taes crimes.

Mestre Bicheiro

domingo, 12 de junho de 2016

Manoel Raimundo Quirino


O autor: Manoel Raimundo Quirino (1851-1923)

Na busca por conhecer aqueles que se dedicaram a estudar a Capoeira encontrei Manoel Quirino. Esse homem, baseado em biografias espalhadas pela internet, me aparentou ser alguém muito maior do que somente, alguém que estudou (ou falou sobre) a capoeira. O inicio de sua vida se assemelha a história de vida de muitos brasileiros desprovidos de poder aquisitivo, inclusive tendo vivido experiências que somente aqueles esquecidos pelo poder publico passam, mas que no entanto, teve (ou construiu) um destino diferente.

Afrodescendente, nasceu em Santo Amaro da Purificação (28 de julho de 1851) e veio a falecer aos 71 anos em Salvador (14 de fevereiro de 1923), em sua vida acumulou feitos e posturas que para aquela sociedade da vira do século XIX para o século XX eram tida não para ele, mas para uma sociedade branca e elitista. Foi um intelectual afro-descendente, aluno fundador do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia e da Escola de Belas Artes, pintor, escritor, líder abolicionista e pioneiro nos registros antropológicos da cultura africana na Bahia.


Mas comecemos pela sua infância. A epidemia de cólera ocorrida 1855, em Santo Amaro, o tornou órfã e foi confiado aos cuidados de um tutor, o professor Manoel Correia Garcia, que o iniciou nas primeiras letras. Mais velho e o Brasil estando em conflito com o Paraguai serviu no exercito durante a guerra, a sua escolaridade lhe possibilitou ficar distante das linhas de combate atuando como escriba. Findada a guerra dedicou-se ao desenho e à pintura, estudando no Liceu de Artes e Ofícios e na Academia de Belas Artes, onde também trabalhou. Formou-se em Desenho Geométrico e passou a lecionar no Liceu e no Colégio de Órfãos de São Joaquim e produziu dois livros didáticos sobre desenho geométrico.

Atuou na política como abolicionista e fundou o Partido Operário e a Liga Operária Baiana, onde travou no meio intelectual debates contra as idéias preconceituosas da ciência de então, esposadas por Nina Rodrigues. Sua atuação foi tão notória que inspirou a criação do personagem Pedro Arcanjo, figura central do romance Tenda dos Milagres de Jorge Amado.


O texto: A Capoeira.

O texto de Manoel Quirino - A Capoeira, foi dividido em duas partes. Podemos considerar que na primeira parte o autor caracterizou o capoeira, definindo seu tipo, seus hábitos, seu jogo. Já na segunda parte, o autor fala dos capoeiras que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870). Quem sabe, nessa parte, não tenha muito de sua experiência de vida, pois participou nela.


Começa, desta forma, construindo uma definição para a capoeira de seu tempo (virada do século XIX para o XX) com os seguintes elementos: O Angola; A Capoeira; e O Capoeira. O Angola seria um tipo de instrutor da capoeiragem, a raiz africana; A Capoeira seria um jogo atlético. Já a definição sobre O Capoeira mais longa, expõe esse tipo como um sujeito desconfiado e alerta, que interpreta como um ataque um gesto de cortesia se lançando longe de quem lhe fazia uma saudação, um cumprimento. Sujeito que sempre estaria envolvido em luta, principalmente em dia de festa santa, como o domingo de Ramos. Fala que existiam capoeiras profissionais e amadores, e que a capoeira não era restrita somente à pessoas das camadas mais desfavorecidas, sendo também praticada como um exercício por "pessoas de representação social".

Zuavos da Bahia

Um ponto interessante de sua narrativa está na motivação que encontraria a juventude da época para a pratica da capoeira, inspirada em historias de Carlos Magnos e os doze pares de França e pelas narrações guerreiras sobre a vida de Napoleão Bonaparte. Não deixando, no entanto, de mencionar uma certa mania de ser valente.

Por fim, descreve a brincadeira e transcreve uma música que seria cantada nas rodas daquela época.


Na segunda parte, Manuel Quirino fala sobre os capoeiras durante a Guerra do Paraguai. Chama a atenção para os capoeiras (zuavos baianos) que lutaram na campanha do forte do Curuzú; conta a história de dois capoeiras que serviram no exercito brasileiro durante o século XIX e se destacaram (e enfrentaram problemas)  por serem capoeiras: Cezário Álvaro da Costa e de Antônio Francisco de Melo. Vale a pena conhece-los.
Fonte :Web
Postado por Mestre Bicheiro

CAPOEIRA DE OUTRORA


Manuel Raimundo Querino - Bahia de Outrora /1916

A Capoeira

O Angola era, em geral, pernostico, excessivamente loquaz, de gestos amaneirados, typo completo e acabado do capadocio e o introductor da capoeiragem, na Bahia. A capoeira era uma especie de jogo athletico, que consistia em rapidos movimentos de mãos, pés e cabeça, em certas desarticulações do tronco, e, particularmente, na agilidade de saltos para a frente, para traz, para os lados, tudo em defesa ou ataque, corpo a corpo. O capoeira era um individuo desconfiado e sempre prevenido. Andando nos passeios, ao approximar-se de uma esquina tomava immediatamente a direcção do meio da rua; em viagem, si uma pessoa fazia o gesto de cortejar a alguem, o capoeira de subito, saltava longe com a intenção de desviar uma aggressão, embora imaginaria.

O domingo de Ramos fôra sempre o dia escolhido para as escaramuças dos capoeiras. O bairro mais forte fôra o da Sé; o campo da lucta era o Terreiro de Jesus. Esse bairro nunca fora atacado de surpresa, porque os seus dirigentes, sempre prevenidos fechavam as embocaduras, por meio de combatentes, e um tulheiro de pedras e garrafas quebradas, em forma de trincheiras, guarneciam os principaes pontos de ataque, como fossem: ladeira de S. Francisco, S. Miguel, e Portas do Carmo, na embocadura do Terreiro. Levava cada bairro uma bandeira nacional, e ao avistarem-se davam vivas vas a sua parcialidade.

Terminada a lucta, o vencedor conduzia a bandeira do vencido.

Nos exercicios de capoeiragem, o manejo dos pés muito contribuia para desconcertar o adversario, com uma rasteira, desenvolvida a tempo.

No acto da lucta, toda a attenção se concentrava no olhar dos contendores; pois que, um golpe imprevisto, um avanço em falso, uma retirada negativa poderiam dar ganho de causa a um dos dois. Os mais habeis capoeiras, logo aos primeiros assaltos, conheciam a força do adversario; e, neste caso, já era uma vantagem, relativamente ao modo de agir.

Por muito tempo, os exercicios de capoeiragem interessaram não só aos individuos da camada popular, mas tambem às pessoas de representação social; estas, porém, como um meio de desenvolvimento e de educação physica, como hoje é o foot-ball e outros géneros de sport. Os povos cultos têm o seu jogo de capoeira, mas sob outros nomes: assim, o português joga o pau; o francez, a savata; o inglez, o soco; o japonez, o jiu-jitsu, a imitação dos jogos olympicos dos gregos e da lucta dos romanos.

Havia os capoeiras de profissão, conhecidos logo á primeira vista, pela attitude singular do corpo, pelo andar arrevesado, pelas calças de bocca larga, na pantalona, cobrindo toda parte anterior do pé, pela argolinha de oiro na orelha, como insignia de força e valentia, e o nunca esquecido chapéu á banda.

Os amadores, porém, não usavam signaes caracteristicos, mas, exhibiam se galhardamente, nas occasiões precisas. No domingo de Ramos e sabbado de Alleluia entregavam-se a desafios e luctas, nos bairros então preferidos, como fossem: o da Sé, S. Pedro, Santo Ignacio ou da Saúde.

Previamente, parlamentavam, por intermedio de gazetas manuscriptas. Duas circumstancias actuavam, poderosamente, no espirito da mocidade, para se entregar aos exercicios de capoeiragem: a leitura da Historia de Carlos Magno ou os doze pares de França, e, bem assim, as narrações guerreiras da vida de Napoleão Bonaparte. Era a mania de ser valente como, modernamente, a de cavador. Nesses exercicios, que a gyria do capadocio chamava de -- brinquedo, dansavam a capoeira sob o rythmo do berimbau, instrumento composto de um arco de madeira flexivel, preso ás extremidades por uma corda de arame fino, estando ligada a corda numa cabacinha ou moeda de cobre.

O tocador de berimbau segurava a o instrumento com a mão esquerda. e na direita trazia pequena cesta contendo calhaus, chamada -- gongo, além de um cipó fino, com o qual feria a corda, produzindo o som.

Depois entoava essa cantiga:

Cantiga 
"Tiririca é faca de cotá, 
Jacatimba muleque de sinhá, 
Subiava ni fundo di quintá.

Aloanguê, caba de matá 
Aloanguê.

Marimbondo, dono de mato 
Carrapato, dono de fôia, 
Todo mundo bêbê caxaxa, 
Negro Angola só leva fama.

Aloanguê, Som Bento tá me chamando,
Aloanguê.

Cachimbêro nã fica sem fogo,
Sinhá veia nã é mai do mundo,
Doença que tem nã é boa,
Nã é cousa de fazê zombaria.

Aloanguê, Som Bento tá me chamando, 
Aloanguê.

Pade Inganga fechou corôa
Hade morê;
Parente, não. me caba de matá.

Aloanguê, Som Bento tá me chamando, 
Aloanguê. Aloanguê.

Camarada, toma sintido,
Capoêra tem fundamento.

Aloanguê, Som Bento tá me chamando, 
Aloanguê, caba de matá.
Aloanguê. "

Por occasião da guerra com o Paraguay o governo da então Provincia fez seguir bom numero de capoeiras; muitos por livre e espontanea vontade, e muitissimos voluntariamente constrangidos. E não foram improficuos os esforços desses defensores da Patria, no theatro da lucta, principalmente nos assaltos á baioneta. E a prova desse aproveitamento está no brilhante feito d'armas praticado pelas companhias de Zuavos Bahianos, no assalto ao forte de Curuzú, debandando os paraguayos, onde galhardamente fincaram o pavilhão nacional.

Cezario Alvaro da Costa, rapaz bem procedido e caprichoso, não era um profissional, mas, amador competente. Marchou daqui para o sul, como cabo d'esquadra do 7°. batalhão de caçadores do exercito. Nos primeiros encontros com o inimigo, começou por distinguir-se, a ponto de ser apreciado por seus superiores, e, fora subindo gradualmente, até o posto de alferes. Certo dia, depois de um combate Cezario da Costa encontrou dois paraguayos, e enfrentou-os corajosamente. Depois de acirrados recontros e, auxiliado pelo que conhecia de esgrima da baioneta, conseguiu supplantar os adversarios. Este acto de bravura, unido a outros anteriormente praticados, levaram-no á promoção no posto immediato, e a ser condecorado com o habito da Ordem do Cruzeiro, pelo marechal Conde d'Eu. Esse official falleceu em Bage, Rio Grande do Sul, no posto de capitão.

Antonio Francisco de Mello, natural de Pernambuco, seguiu para a campanha, no posto de primeiro cadete sargento ajudante do 9°. batalhão de caçadores do exercito. Não se limitava a simples amador de capoeira, possuia tendencia pronunciada para um destemido profissional, o que, decididamente, lhe prejudicou, demorando a promoção apesar de possuir certa importancia pessoal, tendo o curso de preparatorios. Não lhe eram favoraveis as opiniões escriptas pelos commandantes de corpos, nas relaçoes semestraes, livro onde se apurava o comportamento dos officiaes inferiores. O cadete Mello usava calça fôfa, bonet ou chapeo a banda, pimpão, e não dispensava o geito arrevesado dos entendidos em mandinga.

Francisco de Mello fazia parte do contingente a bordo da corveta Parnahyba, na memoravel batalha do Riachuelo, e a respeito assim se pronunciou o commandante do navio:

"O contingente do 9°. batalhão portou-se como era de esperar de soldados brasileiros. Enthusiasmo no acto da abordagem, valor e esforço denodado na lucta travada braco a braço com o inimigo, excedem ao melhor elogio".

Depois dessa acção, o cadete Mello fôra promovido a alferes e condecorado. Esteve na campanha até o anno de 1869, quando voltou ao Brasil, ficando addido ao 5°. batalhão, no Rio de Janeiro. No dia que estava de serviço, costumava dizer: --

"Camaradas! sabem quem esta de estado hoje? Quem esta debaixo dos pés de S. Miguel."

Passava a noite a velar, fazendo revista incerta a toda hora. Quem faltava a revista, no dia immediato corria marche-marche por espaço de duas horas. Era o unico official que podia conter a soldadesea desenfreiada, nos dias de pagamento de soldo. Promovido a capitão, falleceu num dos Estados do Norte. Trago esses dois exemplos para justificar que a capoeira tem a sua utilidade em determinadas occasiões.

No Rio de Janeiro, o capoeira constituia um elemento perigoso; tornando-se necessario que o governo, pela portaria de 31 de Outubro de 1821, estabelecesse castigos corporaes e providencias outras, relativas ao caso.
Postado por Mestre Bicheiro

terça-feira, 19 de abril de 2016

História do uso do cordão na cintura.


História do uso do cordão na cintura.

Olá galera olha só uma curiosidade da capoeira, a origem da corda na cintura ela tem muitas hipóteses na época dos hebreus eram usadas para segurar sua batas na cintura e os pastores usavam uma especial com um couro no meio e era usada como arma de mão  para atirar pedras chamado de "Funda" o fato mais lembrado disso e a passagem de Davi e Golias. E ela foi usada mais ou menos por volta de 1200 pela Ordem dos Franciscanos e abades como um símbolo de pobreza e simplicidade. Já a partir  da escravidão os negro a usavam como corda de segurar as calças, mas foi usado uma forma um sistema para identificar e nomear o negro veja.

LADO ESQUERDO

Identificava os negros que chegavam e ainda não tinham donos eram estes chicoteados e maltratados.

LADO DIREITO 

Os negro escravos mas que ja tinham dono podendo andar em alguns lugares trabalhar mas tudo restringido pelo seu dono, tendo algumas regalias: andava melhor vestido, se alimentava melhor e não era chicoteado como os outros.

 Na capoeira primeiro fato famoso foi um célebre jogador de Capoeira que foi consagrado nos versos e prosas com um cordão de ouro  chamado  Besouro o cordão de ouro, após esse período  em 1969  se cria a primeira graduações de cordoes na Associação de Capoeira Senzala,ja em 1972 foi implantado  a recém Federação de Capoeira um sistema de graduação de cordões baseado nas cores da Bandeira e ja nesta mês época duas associações são contra a recém atitude da federação  paulista de Capoeira, sendo estas a Ass. de Capoeira Capitães  da Areia  e a Ass. de Capoeira Cativeiro não usando o sistema de cor e fundamento da federação por que a capoeira era escravizada pela Bandeira  e em pleno regime Militar; em  protesto criaram um sistema de graduação baseado nas fases da escravidão e o outro nas bases das cores da Religião Afro...
 Axé.
                

MESTRE BICHEIRO