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quarta-feira, 25 de março de 2015

Manoel Henrique Pereira





  Besouro a Lenda…

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa o homem apelidado de besouro mangangá, realmente existiu. Infelizmente muito pouco se sabe sobre essa figura envolta em lendas e mistérios que permanecem desde seu nascimento até a sua morte e que os mais velhos ainda lembram em suas história

Nascido em 1897 em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, filho dos ex-escravos João Grosso e Maria Aifa, Manuel Henrique Pereira (seu nome de batismo), teve toda sua vida permeada por muito misticismo. Não se sabe quando, mas iniciou seus primeiros passos na capoeira com Mestre Alípio, também ex-escravo, mais precisamente na Rua do Trapiche de Baixo. Diziam que besouro era um negro alto e muito forte e na capoeira possuía uma agilidade sem igual. O que provavelmente fez com que recebesse o apelido de ”besouro”, ou “besouro mangangá” (gênero de besouro venenoso).
Outros dizem que seu apelido se deve ao fato de uma vez tendo armado uma confusão, e vendo-se cercado de policiais, besouro simplesmente “sumiu”. Um policial atordoado com a cena, disse para o parceiro: “Você viu pra onde foi aquele negro? E o outro respondeu: “Vi sim. Ele virou um besouro e saiu voando”. Era exímio jogador de capoeira, assim como no manejo do facão e da navalha. Incluindo o jogo de “santa-maria”. Jogo violento onde os capoeiristas jogavam com uma navalha presa aos pés.
Esses são somente alguns dos “causos” contados sobre a figura baiana.
Soldado do exército
Besouro teria servido ao exército em determinada época de sua vida. Certo dia viu entre os objetos confiscados pelo exército um berimbau, pois a capoeira ainda era proibida naquela época. Besouro, que já era iniciado na capoeira, tentou com sua patente de soldado, resgatar o instrumento, mas não teve êxito, pois seu superior alegou que aquilo era uma ferramenta de vagabundos e vadios e que um soldado nada tinha que ver com o instrumento. O resultado foi uma briga entre besouro e seu superior que precisou de vários outros soldados para prender besouro e deixá-lo em observação. Depois disso besouro foi expulso do exército e passou a trabalhar nas fazendas do recôncavo baiano.

Presente de amigo
Era costume besouro presentear seus amigos mais chegados com penas de pavão arrancadas dos chapéus dos valentões do recôncavo baiano

Hoje é feriado
Diziam que besouro era tão respeitado que às vezes chegando à cidade, mandava que os comerciantes fechassem as portas, pois “ele” havia decretado feriado. E ai de quem não obedecesse.

A barraca de amendoim
Certo dia passeando no mercado, besouro resolve experimentar um amendoim em uma das barracas, mas recebeu do comerciante, um tapa na mão e ainda falou que estaria proibido de pegar os amendoins. Besouro então disse para o comerciante:
– Você não sabe com quem está falando.
Então besouro virou para os clientes do mercado e simplesmente convidou a todos para se servirem dos amendoins do comerciante. Sabendo então de que se tratava do temido besouro mangangá, o comerciante ficou assistindo aos clientes comerem toda sua mercadoria. Quando acabaram os amendoins, besouro perguntou quanto devia e pagou para o comerciante.

Quebrou para São Caetano
Uma história contada pelo primo Mestre Cobrinha Verde era a de que uma vez besouro conseguiu emprego em uma usina em Santo Amaro, onde o patrão tinha fama de não pagar aos funcionários. Diziam que quando era chegado o dia do pagamento o patrão simplesmente dizia que o salário “quebrou pra São Caetano”. Essa era uma expressão usada na região que significava que não haveria salário. Além do mais dizia que quem contestasse o patrão era surrado e amarrado a uma árvore até o final do dia. Besouro já tendo tomado conhecimento disso, ficou esperando sua vez de receber. Quando foi chamado, o patrão disse a frase: seu salário “quebrou pra São Caetano”. Mas acontece que ele não estava falando com qualquer um. Besouro pegou o patrão pelo cavanhaque e disse “Pague o dinheiro de Besouro Cordão de Ouro. Paga ou não paga?” O patrão morrendo de medo pagou besouro que pegou o dinheiro e foi embora.

No pé da cruz
Certa vez besouro, depois de tomar sua arma, obrigou o soldado a beber uma grande quantidade de cachaça no Largo da Santa Cruz, um dos principais de Santo Amaro. O soldado, depois disso se dirigiu até a delegacia e comunicou o ocorrido ao seu superior, o cabo José Costa, que decidiu mobilizar dez homens para capturar besouro morto ou vivo. Besouro vendo os soldados chegando, saiu do bar e se encostou a uma cruz que havia no largo e com os braços abertos disse que não se entregava. Então os soldados abriram fogo e só pararam quando besouro estava caído no chão. Cabo José Costa chegou perto do corpo e deduziu que estava morto, quando de repente, besouro se levantou, tomou sua arma e ordenou que levantasse as mãos, depois mandou que os outros soldados fizessem o mesmo e mandou que todos fossem embora e cantou os seguintes versos:

Lá atiraram na cruz/ eu de mim não sei/ se acaso fui eu mesmo/ ela mesmo me perdoe/ Besouro caiu no chão fez que estava deitado/ A polícia/ ele atirou no soldado/ vão brigar com caranguejos/ que é bicho que não tem sangue/ Polícia se briga/ vamos prá dentro do mangue.

A estranha morte de besouro
Muitas também são as histórias sobre a sua morte, mas uma delas é até hoje cantada em todas as rodas de capoeira.
Besouro havia conseguido trabalho como vaqueiro na fazenda do Dr. Zeca, fazendeiro da região. Dr. Zeca tinha um filho, cujo apelido era Memeu, que tinha fama de valentão e certa vez besouro teve uma discussão com o filho de fazendeiro e acabou batendo nele. Temendo pela vida do filho, Dr. Zeca procurou logo acabar com besouro. Para isso, mandou que besouro fosse trabalhar em outra de suas fazendas. Mais precisamente na fazenda de Maracangalha. Mas primeiro entregou uma carta a besouro que deveria ser entregue por ele ao administrador da fazenda. Mal sabia ele que aquela carta era a sua sentença de morte. A carta mandava simplesmente que o portador fosse morto por ali mesmo. Besouro, que era analfabeto, nada sabia sobre o conteúdo da carta achando se tratar de uma simples recomendação. Quando o administrador recebeu a carta, mandou que besouro esperasse até o dia seguinte para saber a resposta e que esperasse ali mesmo na fazenda. Assim no dia seguinte, besouro ao se apresentar foi cercado por quarenta homens, que abriram fogo contra ele mas as balas nada fizeram. Então um homem conhecido como Eusébio da Quibaca, provavelmente conhecedor das “mandingas”, atacou besouro pelas costas com uma faca de “tucum”, faca feita da madeira de uma árvore que dizem ter poderes mágicos e que era a única coisa capaz de ferir um homem de corpo fechado. Besouro morreu jovem aos 27 anos de idade, no dia 8 de julho de 1924, mas deixou um legado vivo até hoje. Contam ainda que besouro mesmo ferido conseguiu fugir de canoa e chegar até a Santa Casa de Misericórdia em Santo Amaro, mas devido ao ferimento não resistiu. E o mais incrível. Consta um documento nos autos do processo (PEREIRA 1920 –1927: 21) movido por Caetano José Diogo contra Manoel Henrique dizendo:
Besouro é Manoel Henrique Pereira – vaqueiro, mulato escuro, natural de Urupy, residente na usina de Maracangalha; dava entrada na Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro da Purificação – Bahia, com um ferimento perfuro-inciso do abdômen. Veio a falecer no dia 8 de julho de 1924 às 7 horas da noite, conforme registro na folha 42 v. do livro n° 3, linha 16, leito 418, de entrada e saída de doentes.
Existem tantas outras histórias sobre como aconteceu a morte de besouro, seria necessário uma postagem inteira dedicada a esse assunto, mas o mais importante é que devemos ter besouro como um herói brasileiro. Um homem que com sua própria força sempre lutou contra as injustiças praticadas contra um povo menos favorecido.
Suas proezas são lembradas em todas as rodas de capoeira em suas várias cantigas. Suas lendas são contadas e cantadas até os dias de hoje pelos mais antigos mestres da capoeira na Bahia.
Existem também, muitas outras lendas sobre besouro, muitas delas já caíram no esquecimento ou se perderam no tempo. E em meio à contradições é que a figura de besouro continua viva não só para os jogadores de capoeira, mas também na cabeça de todos os amantes da cultura de nosso país.

POSTADO POR MESTRE BICHEIRO

Rafael Alves França,




Mestre Cobrinha Verde

O Mestre Cobrinha Verde, viveu entre 1917 e 1983 e foi um dos mais temidos e respeitados capoeiristas de sua época. 
Nascido na cidade de Santo Amaro da Purificação, berço da capoeira baiana, afirmava ser um parente legítimo do lendário capoeirista Besouro Mangangá, mais precisamente seu primo. Foi com ele que aos quatro anos de idade que se iniciou na arte da capoeiragem. Além de seu primo, também teve a oportunidade de aprender com os mais famosos capoeiristas daquela época, como Siri de Mangue, Canário Pardo e Doze Homens. 
O apelido “cobrinha-verde” foi dado pelo próprio Besouro Mangangá, devido à sua agilidade e destreza com as pernas. Foi um dos poucos conhecedores do jogo de “Santa Maria”. Toque onde os capoeiras jogavam com navalhas entre os dedos dos pés e chegou a ser o mais antigo capoeirista em atividade.

Alcançou o posto de 3° Sargento no antigo Quartel do CR em Campo Grande e chegou a participar da revolução de 32. Após dar baixa no exército, começou a dar aulas de capoeira na Fazenda Garcia. Também ensinou no Centro Esportivo de Capoeira Angola Dois de Julho, localizado no nordeste de Amaralina. Chegou a dividir os trabalhos com Mestre Pastinha, onde passou seus conhecimentos para seus alunos que incluíam os futuros mestres, João Grande e João Pequeno.

Cobrinha Verde sempre ensinou a capoeira de graça. Conforme foi contado por ele próprio, seu primo Besouro o fez prometer que jamais cobraria dinheiro para ensinar a arte da capoeira. E essa promessa foi mantida até o final de sua vida.

Em determinada época de sua vida Mestre Cobrinha Verde sai do recôncavo baiano e viaja grande parte do nordeste se metendo em várias aventuras, entre elas, acompanhar o bando de cangaceiros de Horácio de Matos.

Em uma dessas aventuras contou que em certa ocasião, armado com um facão de 18 polegadas, enfrentou oito policiais que abriram fogo contra ele e com o dito facão conseguiu desviar todas as balas. Alguma semelhança com seu primo Besouro?

Esta e muitas outras façanhas eram atribuídas não só à sua agilidade e destreza, mas também a algumas mandingas que só os baianos do recôncavo conhecem. Contava o mestre que essas mandingas foram ensinadas por um africano de nome Pascoal que era vizinho de sua avó.
Dizia o mestre que possuía um patuá com poderes mágicos, que poderiam livrá-lo de inimigos e de algumas situações críticas, quando se metia em alguma confusão. Dizia também que esse patuá era vivo e que ficava pulando, quando era deixado num prato virgem. Mas um dia o patuá foi embora por causa de um erro que o mestre havia cometido.   

Depois de muitas aventuras e “causos” para contar, Cobrinha Verde volta à Bahia, onde vive até o final de sua vida.
Em 1963, foi convidado pelo ator de cinema Roberto Batalin, para gravar um disco de capoeira, junto com os mestres Traíra e Gato. Este disco recebeu o nome de “Traíra Capoeira da Bahia”. Foi um dos primeiros do gênero e é considerada uma obra prima da capoeira.

Em 1983, Mestre Cobrinha Verde se despede deste mundo, deixando um legado digno dos antigos mestres da capoeira da Bahia.

Salve Mestre Cobrinha Verde
POSTADO POR MESTRE BICHEIRO

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A Revolta dos Malês



 Os escravos muçulmanos no Brasil

A Revolta dos Malês foi a tentativa dos africanos muçulmanos de conquistar a cidade de Salvador, na Bahia, no ano de 1835. Tencionavam matar todos os brancos, africanos que não eram muçulmanos e os mestiços, poupando somente os mulatos para serem escravos. Uma africana soube do plano e contou a um juiz, a insurreição foi abortada, porém, alguns africanos se rebelaram e a tentativa de conquista, transformou-se em revolta.

Antes de iniciar a saga dos africanos muçulmanos no Brasil, é preciso entender que para os europeus, negro queria dizer africano e crioulo eram os afrodescendentes nascidos na América. Os mestiços tinham categorias: mamelucos (filho (a) de branco e índia e vice-versa), mulato (filho (a) de branco e negra e vice-versa) e cafuzos (filho (a) de negro e índia e vice-versa).

Os africanos escravizados no inicio do século XIX eram vitimas da guerra étnica que ocorreu na África. Os escravos de origem bantos eram fetichistas e adaptaram sua cultura com a religião católica. Os escravos de origem muçulmana não aceitavam outra religião, os católicos e os africanos bantos eram tidos como infiéis.

Alguns africanos escravizados, conseguiam sua liberdade ao chegar no Brasil. Os africanos livres muçulmanos não se misturavam com os demais africanos livres, eram mais fortes e alfabetizados no árabe. Difundiam o islã através do Alcorão. Esses africanos passaram a serem chamados de malês pelos brasileiros.

Os africanos muçulmanos eram na grande maioria soldados de guerra que foram capturados por tribos inimigas e vendidos aos portugueses como escravos. Alguns eram mestre na arte da guerra. Os escravos africanos muçulmanos quando chegavam na Bahia, encontravam com seus companheiros de guerra que haviam sidos capturados anteriormente. Alguns livres, sobrevivendo entre os libertos e outros escravizados, de onde acabavam fugindo e formando quilombos.

No inicio do século XIX a África foi assolada por uma guerra étnica que fora incentivada pelos europeus. No atual país da Nigéria, a nação Haussá controlava o norte do país e a nação Ioruba o restante do país nigeriano. Os haussás sofreram influências da nação Fulá, que eram mçulmanos e converteram-se ao islã. Os fulás pertenciam a uma vasta família que controlava toda região ao sul do deserto do Saará.

Os haussás entraram em guerra contra os "infiéis" iorubas entre os anos de 1802 a 1810, os iorubas perderam a guerra e teve parte da nação vendida como escrava no período. Todo território dos iorubas foram anexados ao império dos haussás e surgiu o imperio Sókotô. Depois de conquistar os iorubas, o império Sókotô se desfragmentou e surgiram três impérios vassalos: Wurnô, Gandô e Adamauhá. Novas guerras foram surgindo, e impérios foram caindo. Os destinos dos prisioneiros de guerra era a escravidão nos canaviais da Bahia.

Os europeus chamavam todos os africanos da região do conflito de sudaneses ou nagôs. Os haussás e alguns nagôs eram mulçumanos, quando chegavam ao Brasil não se misturavam com os outros africanos e nem com os afrodescendentes. Os mulçumanos livres sempre se encontravam nos portos pra indentificar os novos escravos, se algum haussá ou nagô  fosse reconhecido, era imediatamente informado que não estava só.

Os africanos muçulmanos prepararam os planos para a insurreição de 1813, conhecida como Insurreição Haussá. O objetivo principal era conquista a cidade de Salvador, matando todos os brancos, mestiços e africanos não muçulmanos. Os mulatos seriam feitos escravos e os lideres formariam um governo muçulmano controlado por africanos.

Insurreição de 1807

Africanos livres da nação haussá que viviam em Salvador se organizaram e prepararam um levante contra as autoridades da cidade. Aos poucos foram montando um arsenal de guerra. A intenção era assassinar todos os brasileiros brancos, mestiços e afrodescendentes, iriam escravizar os africanos que não fossem muçulmanos e criar um império.

No dia 26 de maio, segundo Nina Rodrigues, no livro Os africanos no Brasil, um escravo confiou o plano a seu dono; o Conde da Ponte. O presidente da província da Bahia, Visconde de Anadia, foi comunicado e na manhã do dia 27 de maio, os capitões do mato e a tropa real invadiram diversos casebres de africanos libertos.

A liderança do levante foi pega de surpresa, foram presos setes dos lideres com "cerca de 400 flechas, um molhos de varas para arcos, meadas de cordel, facas, pistolas e um tambor". Anadia decretou que todo escravo que fosse encontrado nas ruas após às 21h, sem a companhia de seu dono, fosse preso com pena de cem açoites em praça pública.

No dia 20 de março de 1808, dos sete lideres; dois foram condenados à morte, um de nome Antonio e o outro Baltasar. Os demais foram açoitados em praça pública. O levante terminou sem ao menos começar.

Insurreição de 1809

No dia 26 de dezembro de 1808, um grupo de escravos haussás e nagôs uniram-se e fugiram dos engenhos do Recôncavo. No inicio de 1809, fundaram um quilombo e para sobreviver cometiam "toda a sorte de atentados, assassinatos, roubos, incêndios e depredações" contra os engenhos e fazendas da região.

A população livre ficou atemorizada. Geralmente quando os quilombolas invadiam um engenho, matavam os feitores e senhores de engenho com toda a sua família. Depois libertavam os escravos, matando os que não fugissem e queimavam a propriedade e o canavial.

A tropa real foi enviada para conter os quilombolas, alcançando-os "a nove léguas" do Recôncavo. Houve uma sangrenta batalha e os quilombolas foram massacrados. A tropa aprisionou oitenta escravos fugitivos, alguns gravemente feridos. Os quilombolas foram facilmente vencidos, mas os haussás e nagôs uniram-se no Brasil, mesmo sendo inimigos de guerra na África. O islã foi responsável pela união.

O levante não foi levado a sério pelas autoridades baianas, para eles eram apenas um grupo de escravos fugitivos que pertubavam a ordem cometendo crimes. Segundo Nina Rodrigues, "uma poderosa sociedade secreta, obgoni ou ohogbo, verdadeira instituição maçônica, governava os povos iorubanos".

 Insurreição Haussá de 1813

Ocorreu uma fuga em massa de escravos das propriedades de Manuel Inácio da Cunha Meneses e de João Vaz de Carvalho e de outros fazendeiros vizinhos. Cerca de 600 escravos haussás armados atacaram o povoado de Itapuã, assassinando os brancos que encontravam no caminho, "treze pessoas brancas foram encontradas assassinadas pelos negros em Itapuã e na Armação de Manuel Inácio, além de oito gravemente ferido".

Os haussás queriam tomar a Casa de Pólvora de Matatu, na véspera da festa de São João, na intenção de armar-se para invadir Salvador. O governador foi avisado e proibiu o uso de fogos de artifícios durante a festa de São João. Durante as investigações, chegou-se aos nomes dos lideres e trinta e nove réus foram condenados.

Mais uma vez a insurreição foi contida sem ao menos começar. Dos condenados; doze morreram na cadeia, quatro foram enforcados e os demais açoitados em praça pública, e posteriormente degredados pra Moçambique, Benguela e Angola pra sempre. Alguns foram entregues aos seus donos depois de implorarem por clemência.

Porém, o número de africanos haussás e nagôs não paravam de chegar a Salvador. Todos os escravos eram prisioneiros da guerra civil que assolava a África subsaariana, sendo que alguns eram mestre na arte da guerra. Era só uma questão de tempo pra que uma mega insurreição escrava acontecesse.

Insurreições de 1826, 1827 e 1830

Entre os anos de 1802-1810, desembarcaram de forma oficial nos portos brasileiros 68 navios da África Setentrional com um total de 17.691 escravos de origem nagô. Da África Meridional chegaram 69 navios com 20.841 escravos de origem banto. Sabe-se que o número de escravos que desembarcaram de forma clandestina, era igual ou superior ao oficial.

A guerra étnica africana se espalhou da Nigéria após 1810, atingindo os atuais países: Angola, Congo, Gabão e Camarões. A pratica de capturar prisioneiros de guerra e vende-los como escravos, tornou a escravidão uma atividade altamente lucrativa. Impérios surgiram e foram conquistados, e as sucessivas guerras abasteceu o Brasil por décadas com os escravos africanos.

Quando esses escravos chegavam ao Brasil, encontravam antigos combatentes vivendo no país. Alguns livres e outros escravizados. A tortura física e psicológica em que passavam os africanos entre a captura na África e a venda no Brasil, logo desaparecia quando encontravam com seus iguais. Descobriam que o inimigo eram os portugueses, e a união entre os haussás e nagôs tornou-se espontânea, ambas nações era de maioria muçulmana.

Após a insurreição haussá de 1813, os africanos muçulmanos foram se organizando. Africanos fugitivos criaram o quilombo do Urubu, em Pirajá. A lider do quilombo era a africana de nome Zeferina. No ano de 1826, os nagôs entraram em contato com o quilombo do Urubu e propuseram uma aliança. O plano era tomar de assalto à cidade de Salvador na véspera de natal.

No entanto, no dia 17 de dezembro de 1826, um grupo formado por capitães do mato foi a Pirajá, na intenção de capturar escravos fugitivos e destruir o quilombo do Urubu. Os capitães do mato desconheciam que os quilombolas estavam se preparando para uma guerra e achavam que não encontrariam resistência. Quando chegaram no local foram surpreendidos e massacrados.

Os sobreviventes escaparam se embreando na mata, os quilombolas foram atrás deles e atacavam todos pelos caminho, "deixando em estado grave uma mulatinha, um capitão do mato e outras pessoas". Entusiasmados pelo sucesso do ataque, os quilombolas resolveram antecipar o ataque, sem avisar os muçulmanos que planejavam o ataque no natal.

A polícia de Pirajá soube do ataque quilombola contra os capitães do mato e no mesmo dia reuniu cerca de vinte homens e fotram até o quilombo do Urubu. Ocorreu uma batalha sangrenta no local, muitos quilombolas morreram e os sobreviventes foram capturados e escravizados.

Entre os capturados estava a líder Zeferina, que confessou o ataque aos capitães do mato, alegando legitima defesa. Zeferina contou também que tencionavam atacar à cidade de Salvador no natal com ajuda do malês. As autoridades não deu importância, não passava pela mente deles que os africanos podessem atacar a capital.

No dia 22 de abril de 1827, escravos muçulmanos do engenho Vitória, próximo a Cachoeira, provocaram uma rebelião nos engenhos do Recôncavo. Foram precisos dois dias de intenso combate para conter a rebelião. A polícia permanente obteve êxito e os rebelados foram mortos e os sobreviventes punidos.

Porém, quase um mês depois, no dia 11 de março de 1827, nova insurreição escrava aconteceu em salvador. Um grupo de africanos escravizados escaparam de um armazém e foram até o engenho do Cabrito e libertaram todos os escravos. O 2º Batalhão de Pirajá foi acionado e atacou os africanos. Muitos morreram e os sobreviventes foram punidos.

Os africanos continuavam se organizando, e no dia 01 de abril de 1830, cerca de vinte escravos africanos nagôs "atacaram três lojas de ferragens na cidade baixa com fim de se apoderarem de armamento". Depois de armados, foram até "os armazéns de negros novos de Vesceslau Miguel de Almeida" e libertaram mais de cem africanos, matando os que não queriam fugir.

Em seguida foram atacar a guarda policial, que contava com apenas oito homens, e mataram um policial. A polícia recebeu reforços e conseguiram repelir o ataque dos africanos. Que "foram destroçados e dispersos, morrendo mais de 50 e ficando prisioneiro mais de 40. Muitos, porém, dispersaram-se pelos matos de São Gonçalo e Outeiro.".

Nos anos que se seguiram, os africanos haussás e nagôs foram se organizando. Tinham seus próprios lugares de encontro, em geral na casa de algum africano muçulmano liberto. Os malês consideravam os africanos bantos fetichistas, e não se misturavam com outros africanos que não fosse muçulmano.

Entre os malês, somente os haussás sabiam ler e escrever em árabe, os mestres eram chamados alufás, na época, o alufá mais conhecido da Bahia era o africano Sanin; batizado Luís, já o mais venerado era o alufá Licutan; batizado Pacífico. Licutan era alfabetizado no árabe e ensinava o islã aos demais africanos.

A grande insurreição de 1935 

O alufá Sanin, pregava na casa dos nagôs libertos Belchior e Gaspar da Silva Cunha, na Rua da Oração. As reuniões muçulmanas eram realizadas na casa dos nagôs libertos Manuel Calafate e Arpígio, na ladeira da Praça, na loja do segundo sobrado e também na casa do haussá liberto Elesbão do Carmo, conhecido como Dandará, a casa ficava "no Beco de Mata-Porcos".

No ano de 1835, o alufá mais importante para os africanos muçulmanos era o Licutan. Era escravo do Dr. Varela, e costumava pregar o islã nas lojas da casa do seu senhor, no Cruzeiro de São Francisco. Licutan sabia ler e escrever em árabe, "reunia os patrícios nagôs e levava-os para seu quarto".

Dr. Varela contraiu dividas junto aos frades carmelitas, não pagou e teve seu escravo Licutan empenhorado, que acabou preso na cadeia de Ajuda. Todos os dias Licutan recebia visitas dos nagôs, que não se conformavam com a prisão de seu principal alufá.

Os nagôs conseguiram arrecadar o dinheiro para pagar a fiança de Licutan, porém, as autoridades não aceitaram o dinheiro e o manteve preso. Os nagôs se revoltaram e prometeram libertar Licutan a força após o ramadã. Já havia décadas que os africanos muçulmanos tencionavam tomar de assalto a cidade de Salvador, a negativa de libertação do alufá Licutan, mesmo pagando a fiança foi o estopim necessário para a revolta muçulmana.

No dia 24 de janeiro de 1835, "os combativos malês decidiram tomar o poder na última noite do nono mês islâmico, dedicado ao jejum diário, Laila-al-Qadr". A reunião foi marcada na casa dos libertos Calafate e Arpígio. Um grupo de africanos muçulmanos de Santo Amaro também participaria do plano. Estava armado o cenário para a guerra santa.

O plano dos africanos muçulmanos era o mesmo da insurreição haussá de 1813. Tencionavam tomar a cidade de Salvador, matando todos os brancos, mamelucos, afrodescendentes e africanos não muçulmanos que não aderisse o movimento. Poupando somente a vida dos mulatos pra que fossem escravos. Formando um governo muçulmano no Brasil.

No entardecer do dia 24 de janeiro de 1835, a africana nagô liberta Sabina da Cruz, ao chegar em sua casa após "seu turno" a encontrou toda revirada. Atribuiu a desordem a seu companheiro de nome Saule; batizado Vitório, pois tinha discurtido com ele na parte da manhã. Foi a procura dele na Rua da Guadalupe, na casa de uns africanos libertos, amigo de Saule.

Chegando a casa, Sabina encontrou a africana Edum que lhe confiou o plano da revolta, dizendo que Saule participaria e estava em reunião na casa de Belchior e Arpígio. Sabina apavorou-se e contou o plano a seu amigo, o nagô liberto Domingos Fortunato, companheiro da nagô liberta Guilhermina, que trabalhava para o juiz de paz.

Guilhermina foi até o "juiz de paz do 1º distrito do curato da Sé" e lhe contou o plano da revolta dos malês. O juiz avisou o presidente da província que colocou de prontidão a força do exército e todas as guardas, o responsável pela operação era o "chefe de polícia, dr. Francisco Gonçalves Martins", o visconde de São Lourenço.

Às 23 horas, a polícia cercou a casa de Arpígio e Belchior. O que desconheciam é que cerca de sessenta africanos estavam no local. O inquilino responsável, o "pardo Domingos Marinho de Sá" impôs resistência, os africanos perceberam a movimentação e ficaram de tocaia em um dos cômodos, então a casa foi invadida.

Quando a polícia abriu a porta do cômodo em que estavam os africanos, foram surpreendidos por um tiro de bacamarte. Na sequencia surgiram "60 negros armados de espadas, lanças, pistolas, espingardas, etc., e aos gritos de: mata soldado!". O tenente se feriu e os soldados retrocederam.

O grupo então decidiu antecipar o levante e foi até a cadeia pública em Ajuda, para libertar Licutan. A polícia, ciente do eminente ataque, conteve os africanos que não conseguiram invadir a cadeia. Os africanos foram até o largo do Teatro para comunicar aos outros africanos que o lavante havia sido antecipado. No caminho encontraram "uma força de oito soldados permanentes que sobre eles dera uma descarga".

Entusiasmados, os africanos seguiram em frente e foram até o forte de São Pedro, no quartel da artilharia, matando e ferindo a todos que encontravam no caminho. No quartel travaram uma batalha, um sargento foi ferido, mas como a polícia e o exército já sabia sobre um eventual levante, mais uma vez os africanos não conseguiram invadir.

Decidiram ir para Vitória e se agrupar com outros africanos muçulmanos. Em maior número, foram até o quartel da polícia, "na Mouraria, onde houve forte tiroteio". A polícia fechou o portão e o grupo de africanos não conseguiu invadir, porém, mataram alguns policiais no confronto.

Resolveram tentar invadir a cadeia em Ajuda novamente para libertar o Licutan. Estavam confiantes, pois estavam em maior número em comparação a primeira tentativa de invasão. O chefe de polícia estava em Bonfim e decidiu ir com a cavalaria para Água dos Meninos, a fim de impedir a invasão da cadeia.

Eram três hora da madrugada, a população foi agrupada na igreja do Bonfim e a cavalaria marchou para o quartel e aguardaram os africanos. Um grupo de policiais permanentes foram ao encalço dos africanos, no confronto, os africanos mataram um dos policiais. E "desceram então para a Baixa dos Sapateiros, mataram em caminho mais um pardo, seguiram para os Coqueiros e, saindo em Água dos Meninos, travaram luta com a cavalaria" que já os aguardavam para o confronto.

"Na manhã de 25, que foi um domingo, as ladeiras e becos de Salvador fediam de cadáveres". Centenas de rebeldes africanos foram presos na cadeia pública de Ajuda,  o alufá Licutan, apenas olhava tristemente para seus companheiros muçulmanos que entravam na cadeia e em silêncio fez uma oração.

Na época, a cidade de Salvador contava com uma população de 50 mil habitantes, sendo 14 mil brancos, 25 mil africanos e afrodescendentes e 11 mil mestiços. As autoridades temiam que todos os africanos estivessem envolvidos, desconheciam que os africanos muçulmanos não tinham aliança com outros africanos não-muçulmano. Desconheciam o caráter religioso por trás da revolta.

Durante as investigações, foram encontrados anotações em árabe na casa dos nagôs Belchior e Arpígio. O alufá Sanin, foi condenado ao degredo pra África, mas teve a pena atenuada para 600 açoites em praça pública.  Já o alufá Licutan, mesmo estando preso foi acusado de participação e considerado o líder dos malês. As duas tentativas de invasão a cadeia para libertá-lo foi o suficiente para condená-lo. Teve uma pena de mil açoites e os recebeu.

No total, 234 africanos foram condenados ao trabalho forçado com os pés agrilhoados e açoitados em praça pública, 06 africanos foram condenados ao enforcamento e 33 foram deportados para a África. Terminava assim mais uma insurreição dos africanos muçulmanos, pena capital para os lideres da revolta, trabalho forçado para os afrodescendentes e degredo para os africanos libertos.

A insurreição de 1835, foi diferente das anteriores. A de 1813, foi organizada pelos africanos haussás e tinha um caráter religioso. Os brancos católicos e os afrodescendentes fetichistas, era tido pelos muçulmanos como infiéis. Foram vencidos mais se fortaleceram para as futuras insurreições.

A insurreição de 1826, foi motivada porque o quilombo do Urubu, da líder Zeferina fora atacado e revidaram, massacrando os capitões do mato. No anoitecer do mesmo dia estavam mortos pela polícia e os sobreviventes punidos. Na insurreição de 1830, foi oportunismo dos africanos muçulmanos que se libertaram e se armaram, atacando os armazéns dos escravos e os libertando-os.

Já a insurreição de 1835, foi totalmente diferente das anteriores porque teve um caráter religioso e de indignação por trás da revolta. Motivado pela prisão do principal alufá, que teve o pedido de liberdade negado após os nagôs terem arrecadado o valor da fiança. O ataque seria no fim do ramadã, mais foi descoberto e o levante fora antecipado sem que a maioria dos envolvidos soubesse o que estava acontecendo.

Mesmo que o levante tivesse êxito, os muçulmanos teriam dificuldades em manter um exército. A grande maioria dos africanos livres ou escravos, eram de origem banto; católicos e fetichistas. E os muçulmanos não eram sociais e mantinham distância dos demais africanos, falando apenas no seu diáleto.

Outro problema que teriam seria a falta de apoio politico e militar, os muçulmanos eram desconhecidos no Brasil, que tinha uma população católica, além de uma minoria de maçons. O plano de assassinar todos os brancos, mamelucos, afrodesdendentes e africanos bantos; sem apoio militar não duraria por muito tempo. O isolamento que os muçulmanos mantinham dos demais africanos, os levou a derrota.

Por isso, a insurreição de 1835 dos africanos muçulmanos foi considerada mais uma das revoltas dos escravos ocorrida na Bahia entre 1807 e 1835. Os africanos muçulmanos tinham sua cultura, suas raízes, eram guerreiros e alfabetizados. Porém, estavam em menor número em um país católico, e isso fez a diferença...

Fontes:

Rodrigues, Nina. Os africanos no Brasil; editora Madras. São Paulo, 2008.

Coleção Caros Amigos - Os negros, história dos negros do Brasil. editora Casa Amarela. São Paulo

Coleção Caros Amigos - Rebeldes Brasileiros - Homens e mulheres que desafiaram o poder. editora Casa Amarela. São Paulo. 2000

POSTADO POR MESTRE BICHEIRO

  

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Zumbi dos Palmares e Mestre Bimba em cordel



Os dias 20 e 23 de novembro são, respectivamente, as datas de morte e nascimento de Zumbi dos Palmares e Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba.
Em novembro de 2006 publicamos o cordel " ZUMBI & BIMBA - Símbolos da Resistência Afro Brasileira " contando um pouco da trajetória destes grandes ícones da luta pela liberdade no Brasil. Dentro de nossas limitadas possibilidades, procuramos homenagear, informar e ajudar a preencher uma lacuna na literatura oficial:




" A história do Brasil
Que nos livros é contada
Muitas vezes se apresenta
De uma forma equivocada
Omitindo ou distorcendo
De maneira enganada

É claro que não podemos
Nunca generalizar
A minha intenção não é
De querer polemizar
Pois todos têm liberdade
Pra sua versão contar

Por isso em meus cordéis
Procuro sempre escrever
Histórias que muitos homens
Insistem em esconder
Mas que a memória do povo
Jamais irá esquecer

Zumbi dos Palmares foi
Um negro muito guerreiro
Lutou pela liberdade
Do povo afro brasileiro
Este sim, posso dizer
É um herói verdadeiro

Mestre Bimba é outro herói
Da história brasileira
Um negro também guerreiro
Que lutou a vida inteira
Buscando a dignidade
Da arte da capoeira ..."


E identificando também diversas semelhanças entre as personalidades e as histórias de vida dos dois:

" Zumbi e Bimba viveram
Duas épocas distantes
Mas tiveram em comum
Muitos pontos semelhantes
Vou tentar citar aqui
Alguns dos mais importantes

Os dois eram brasileiros
Eram negros, nordestinos
Descendentes de africanos
E ainda quando meninos
Escolheram seus caminhos
E traçaram seus destinos

Também eram lutadores
Corajosos e valentes
Nasceram pra liderar
Eram muito inteligentes
Lutavam pra seus irmãos
Viverem vidas decentes

Dedicaram sua vida
Defendendo um ideal
O Quilombo de Palmares
E a Capoeira Regional
E hoje são conhecidos
A nível internacional

Simbolizam até hoje
A marca da resistência
De um povo oprimido
E da nossa consciência
Da luta, da ousadia
Coragem e inteligência ..."




E os fatos que marcaram o mês de novembro em comum na celebração de seus nomes:

"Zumbi dos Palmares teve
Sua cabeça cortada
Por Furtado de Mendonça
Pra Recife foi levada
E em uma praça pública
Ela foi dependurada

Dia 20 de novembro
Foi o dia em que morreu
O maior guerreiro negro
Que o mundo já conheceu
Assassinaram Zumbi
O ideal sobreviveu

Mataram somente o corpo
Pois a alma é imortal
E também não conseguiram
Derrubar seu ideal
Zumbi dos Palmares hoje
É nosso herói nacional

Há mais de 300 anos
Zumbi vem simbolizando
A luta de todo o povo
Que continua lutando
Quanto mais o tempo passa
Sua fama aumentando

Mil seiscentos e noventa
E cinco Zumbi morreu
Duzentos e cinco anos
Depois que ele faleceu
No mesmo mês de novembro
Mestre Bimba então nasceu

Era 1.900
O dia foi 23
Como eu já disse antes
Novembro era o mês
Que nasceu mais um herói
Que o nosso Brasil fez..."


E o fim de suas vidas com a traição em comum e a certeza que suas lutas não foram e vão:

"Promessas falsas vieram
De vida nova em Goiás
Bimba deixou a Bahia
Partiu sem olhar pra trás
Em Goiânia ele sofreu
Dificuldades demais

Foi traído e enganado
Por alguém que confiou
Com toda sua família
Até fome ele passou
Chorou de tanta tristeza
Até que desencarnou

E assim como Zumbi
Morreu pela traição
Bimba também faleceu
Por causa da ingratidão
Mas entraram para a história
E não sofreram em vão

Jesus Cristo foi traído
Preso e crucificado
Foi xingado, foi cuspido
E até apedrejado
Por tentar salvar o mundo
De todo o seu pecado

Zumbi dos Palmares foi
A vida inteira atacado
Foi traído, esfaqueado
Baleado e degolado
Por lutar para que o negro
Não vivesse escravizado

Mestre Bimba também foi
Enganado e traído
Morreu longe da Bahia
Em Goiânia esquecido
Por lutar pro capoeira
Ter seu lugar merecido

Zumbi e Bimba morreram?
Isso eu não acredito
Com certeza estão agora
Em algum lugar bonito
Ao lado de Jesus Cristo
Nas terras do infinito

Mestre Bimba está no céu
Junto com Zumbi Guerreiro
Sorrindo só por saberem
Que acabou o cativeiro
E que hoje a capoeira
Já está no mundo inteiro

Todo ano em novembro
Eles vêm nos visitar
Nos dão força e coragem
Pra viver e pra lutar
Salve Zumbi & Bimba
Que Deus ponha em bom lugar"



A primeira edição do cordel patrocinada pela Petrobrás através do projeto Capoeira Viva do Ministério da Cultura está totalmente esgotado.
Para ler o texto na íntegra, teremos que aguardar o interesse de alguma editora e/ou patrocinador para uma nova edição. 
Fazemos tiragens especiais sob encomenda para escolas, universidades, ongs, grupos de capoeira e etc.
Contato pelo email
victorlobisomem@yahoo.com.br
POSTADO POR MESTRE BICHEIRO

MESTRE BIMBA




MESTRE BIMBA



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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

SISNANDO...UM DEDO BRANCO NA CAPOEIRA NEGRA DO BIMBA.




“Os bons nascem prontos”
Não me esperem para a colheita. Estarei sempre a semear. 
Ernesto Che Guevara


SISNANDO. “É A PEDRA FUNDAMENTAL DA CAPOEIRA REGIONAL”. (segundo mestre Decânio) 
 Se este cearense - José Sisnando de Lima, do Crato-CE, não tivesse cruzado com Bimba naquela tarde na carvoaria, com sua força descomunal de lutador, seria muito difícil a capoeira regional chegar onde chegou. Ele foi crucial neste processo da organização, sistematização de ensino e projeção da capoeira regional baiana. Ele foi a luva, Bimba a Mão, Ele a chave, Bimba a porta, Sisnando o rio, Manoel Bimba o oceano, este cearense foi a bússola e o mestre foi o barco, uma simbiose, uma simetria para esta arte-luta. Bimba vê em Sisnando uma grande oportunidade da expansão da sua luta regional. A subida da montanha também é a descida, falou Nietzsche.

Manoel Bimba dos Reis Machado criou a luta regional, lutou, bateu e venceu. Quem mandava era sempre ele, a última palavra era do grande mestre. José Sisnando de Lima que saiu de sua cidadezinha natal rumo à Bahia, com um sonho de ser médico e tinha juntado com seu “matulão” interesse pelas lutas, já treinava o jiu-jitsu, luta grega romana e outras, mas queria aprender capoeira. Sempre visitava as rodas de capoeira nos finais de semanas em Salvador. Morando numa pensão, lamentava por não ter encontrado o “verdadeiro mestre” de capoeira. Até que um dia ouviu de um cozinheiro: “vá aprender essa luta com um nego chamado Bimba (ainda não era o grande Mestre Bimba), lá no engenho velho de Brotas, doutorzinho”. Bimba um homem de quase 2 metros de altura que o Doutor o respeitou desde início, ai Bimba olha para ele de cima a baixo e faz aquela famosa afirmação: “ capoeira é coisa pra preto e não pra branco”. Bimba, então propôs um teste para o baixinho cearense: “se aguentar três minutos no colar de força eu lhe ensino”. Por ser muito forte e por ter vivenciado outras lutas ele passou pelo teste de desafio e começou ali uma grande amizade e uma trajetória inseparável para a solidificação da capoeira regional baiana.

Sisnando foi o primeiro aluno universitário do Bimba. Para o sábio Mestre Decânio tudo começa quando ele chega na Bahia. O cearense vendo a dificuldade de reconhecimentos, os preconceitos e a desvalorização por parte da sociedade baiana em relação a capoeira, buscou formas e batalhou muito em defesa desta nova luta criada pelo mestre Bimba. Sisnando e outros alunos começaram a aproximar Bimba dos universitários possibilitando uma maior aceitação social e organização da capoeira. O Cearense “arretado” abre o mundo acadêmico e a sociedade da Bahia meu rei para Mestre Bimba e sua capoeira criada no final da década de 20. “Mestre Bimba começa a ser convidado por boas famílias para ensinar aos seus jovens meninos capoeira, presumivelmente como defesa pessoal” (Decânio) 

EM SUMA: SISNANDO É O CARA. E BIMBA O LUTADOR. 

Com 3 pancadas derrubava tudo e todos, com sua luta “regioná”. COMEÇA AI A HISTORIA. A influência evolutiva deste capoeirista - médico cearense é incontestável para a capoeira regional, angola e contemporânea até hoje. Bimba é um divisor de águas, tempo e espaço para capoeira naquela época e até hoje não existe nada de novo na capoeira que se aproxime desta obra fenomenal de arte chamada LUTA REGIONAL NORDESTINA BAIANA. O que temos hoje, são só repetições, pantomimas, plágios e uma “nova roupagem” de se jogar capoeira... Pois os toques são os mesmos, sequência, golpes, e a roda é a mesma, somos todos geneticamente filhos do incomparável todo poderoso Bimba, que ainda é inspiração e água de beber... Analisando a capoeira atual: “quando o bicho pega na roda, o dênde esquenta, voltamos rapidamente para capoeira do Bimba em pé e de 3 pancadas, ponteira, asfixiante e arrastão.

” Existem comentários que na década de 30 Sisnando participou de uma história curiosa: Defensor do governo de Juracy Magalhães, então interventor federal do Estado Novo da Bahia e também cearense, escutou que um grupo de estudantes de jornalismo iria escrever contra o governo. Sisnando então, disse aos estudantes que ao acabarem de escrever iria ler a notícia e caso não gostasse iria rasgá-la. Dito e feito. Os estudantes ficaram revoltados, partiram pra cima dele e não se deram bem. Um jornal da época publicou que um estudante de medicina enfrentou vários estudantes de jornalismo em defesa do governo. “Pouco depois Juracy se tornou amigo de Sisnando, que passou a integrar sua guarda pessoal”. (ABIB)- Sisnando começa a ter influencias políticas na Bahia e aproveita para apresentar Bimba e a capoeira regional ao governador Juracy e o presidente Getúlio Vargas e é nesta época que ele consegue a permissão para que a capoeira tivesse autorização legal pra ser praticada e sair do código penal. Bimba tem mais tarde a primeira academia oficial de educação física para ensinar seu METODO DE CAPOEIRA REGIONAL no Brasil. 

Com o passar do tempo, Sisnando e outros alunos do mestre começaram a ganhar espaço no cenário da capoeiragem baiana. A competência desse grande homem do Crato, cearense, nordestino e brasileiro Jose Sisnando de Lima, foi um momento histórico que desencadearia mudanças profundas no universo da capoeira até hoje. Com enorme acesso dos alunos em diversos setores na sociedade como a imprensa e o Estado a capoeira começa ser bem aceita. Bimba começa a viajar com seu grupo de alunos espalhando a Capoeira Regional por todo o País. Com essa união de forças a Capoeira Regional passa a ser aceita por seletos grupos sociais e conquistar prestígios na Bahia. Ninguém pode sobreviver sem uma utopia, salientou o Emil Michel Cioran. (1937).

Sisnando é homem digno de homenagens por parte de todos os capoeirista do Brasil e do mundo pelo seu trabalho e contribuição valorosa para formação faraônica da capoeira regional, na sistematização metodológica de ensino da luta regional, como também pela bravura de libertar a capoeiragem da marginalização, diásporas e rejeição social, e a colocar nos seios da sociedade baiana brasileira. Sisnando e Bimba já sabiam muito bem o valor que a capoeira tinha, pena que muitos capoeiristas e cearenses e brasileiros não sabem o valor que Sisnando tem na capoeira, não conhece e nem valoriza este nobre discípulo do Bimba: o homem que trouxe a luz e vento do Ceará para o dendê baiano.

Dr. José Sisnando Lima que depois formou-se pela Faculdade de Medicina de Salvador, tornando-se especialista em neuropsiquiatria, clinicou em Santa Bárbara seguindo depois para o sul do Ceará e norte de Minas. Retornou à Bahia e novamente em Santa Bárbara destacou-se pelos investimentos na agricultura o que lhe garantiu a presidência do Sindicato Rural de Feira de Santana. Foi também médico da Secretaria de Agricultura, supervisor estadual da Merenda Escolar e professor de Biologia. Eleito vereador em 1958, chegou à presidência da Câmara e nesta condição, substituiu o então prefeito Arnold Silva por quatro meses, no ano de 1962. 
Atribui-se a esse capoeirista cearense a coragem de um lutador incansável em busca dos seus sonhos. E a coragem é a primeira das qualidades humanas. Um homem de coração valente não admite falsificação. Ele era um sujeito leal, honesto e verdadeiro com suas palavras, firme em seus passos e digno com suas ações. Sisnando era um homem “cabra da peste”, de atitudes, determinações e perseverança em busca dos seus objetivos, por isso chegou onde chegou. 
Vamos congratulá-lo, respeitá-lo e parabenizá-lo pela sua grande contribuição na capoeira e colocá-lo no seu verdadeiro lugar de honraria na capoeira. "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa. “A diferença fundamental entre o homem comum e o guerreiro, é que o guerreiro encara tudo como desafio, enquanto o homem comum encara tudo como bênção ou maldição”. Carlos Castañeda
SARAVA...
DADOS BIOGRÁFICOS
gentileza de seu filho Hildebrando “Kimura”
José Cisnando Lima nasceu em 9 de Outubro de 1914, no Sítio Santa Rosa, Crato/CE.
Ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1932 , formando-se em 1937.
Iniciou suas atividades profissionais em Sta. Bárbara/Ba.
Regressou à sua terra natal, em 1943, clinicando em varias cidades do sul do estado até 1950, quando retornou a Sta. Bárbara/BA.
Sonhador, empreendedor, apaixonado pela agricultura, trouxe colonos japoneses para incrementar as técnicas agrícolas em sua propriedade e foi pioneiro na irrigação das suas culturas, o que o conduziu à presidência do Sindicato Rural de Feira de Santana/BA.
Eleito vereador em Feira de Santana, foi líder do partido situacionista neste município.
Nomeado médico da Secretaria de Agricultura, foi requisitado paras a função de legista da Secretaria de Segurança Pública.
Exerceu os cargos de Supervisor Estadual da Merenda Escolar e representante federal da Campanha Nacional para a Merenda Escolar.
Eleito Presidente da Câmara Municipal de Feira de Santana, assumiu a Prefeitura local durante 4 meses por motivo de saúde do prefeito em exercício.
Dois anos depois dedicou-se inteiramente à psiquiatria, fundando duas clínicas particulares para doentes mentais.
Ensinou biologia no Colégio Santanópolis, no Instituto Guimarães e no Educandário da Casa São José.
Aprendeu Jiu-jitsu com Takeo Yano antes de chegar a Salvador.
Com Takamatsu, 5o dan da Shotokan e 2oda Kodokan, praticou e estudou o karatê.
Um dos seus colonos japoneses o iniciou em Kendô e Bojitsu.
A sua equipe de japoneses, oriunda da TakuDai, incluía Saito Masahiro, 2o dan pela Kodokan e 1o dan pela Shotokan,  que ensinou Judô e Karatê no Spartan Gym de Dr. Geraldo Blandy Motta e no Gremio da Escola de Politécnica, com o qual também pratiquei as duas artes marciais

POSTADO POR MESTRE BICHEIRO

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

NAVIO NEGREIRO






Navio negreiro (também conhecido como "navio tumbeiro") é o nome dado aos navios de carga para o transporte de escravos, especialmente os escravos africanos, até o século XIX.

Aprisionados no interior da África subsaariana, por outros africanos que lucravam com o tráfico, os escravos eram trazidos em marcha forçada até o litoral do continente, onde os sobreviventes, que não haviam sido comercializados localmente, eram despojados de suas roupas e eventuais pequenos pertences que ainda carregassem consigo, para serem vendidos aos comerciantes europeus, que os embarcavam nos navios negreiros. Neles, os escravos eram destinados aos porões da embarcação, onde ficavam presos em grupos às correntes. Cada navio, levava em média quatrocentos africanos amontoados. O mau-cheiro imperava, e o espaço para movimentação era mínimo, porque embora navios deste tipo fossem geralmente grandes, se otimizava o espaço do mesmo para caber o maior numero possível de escravo.
                     
A partir de 1432 quando o navegador português GIL EANES levou para Portugal a primeira carga de escravos negros vindos da África que os portugueses começaram a traficar os escravos com as Ilhas das Madeiras e em Porto-Santo. Mais adiante os negros foram trazidos para o Brasil.
A história dos navios negreiros é das mais comoventes. Homens, mulheres e crianças eram transportados amontoados em compartimentos minúsculos dos navios, escuros e sem nenhum cuidado com a higiene. Conviviam no mesmo local, a fome, a sede, as doenças, a sujeira, os agonizantes e os mortos. Em média transportava-se 400 negros em cada compartimento desses.

Sem a menor preocupação com a condição dos negros, os responsáveis pelos navios negreiros amontoavam negros acorrentados como animais em seus porões que muitas vezes advinham de diferentes lugares do continente africano, causando o encontro de várias etnias e que por vezes eram também inimigas. Seus corpos eram marcados pelas correntes que os limitavam nos movimentos, as fezes e a urina eram feitas no mesmo local onde permaneciam. Os movimentos das caravelas faziam com que muitos passassem mal e vomitassem no mesmo local. Os alimentos simplesmente eram jogados nos compartimentos uma ou duas vezes por dia, cabendo aos próprios negros promover a divisa da alimentação. Como os integrantes do navio não tinham o hábito de entrar no porão, os mortos permaneciam ao lado dos vivos por muito tempo.

               Quando o navio encontrava alguma dificuldade durante seu trajeto, o comandante da embarcação ordenava que os negros moribundos ou mortos fossem lançados ao mar, como alternativa para reduzir o peso do navio. Nestes casos, o mar acabava se tornando a única saída dos negros para a luz, antes de chegarem aos destinatários do comércio.



A organização da Companhia dos Lagos propunha-se a incentivar e desenvolver o comércio africano e dar expansão ao tráfico negreiro, sua viagem inicial motivou a formação de várias companhias negreiras, tais como:

COMPANHIA DE CACHEU,
COMPANHIA DE CABO VERDE e COMPANHIA DE CACHEU DE NEGÓCIOS PRETOS (1675)

 COMPANHIA REAL DE GUINÉ e COMPANHIA DAS ÍNDIAS (1690)

 COMPANHIA DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS(1636).

                
                               

No Brasil, devido ao êxito do empreendimento, deu-se a criação da Companhia Geral de Comércio do Brasil(1649).

Somente no século XIX que as leis proibiram o comércio de negros. Entre 1806 e 1807, a Inglaterra acabou com o tráfico negreiro em seu Império e em 1833 proibiu o trabalho escravo. No Brasil, mesmo após o tráfico negreiro ter sido proibido, a escravidão permaneceu até 1888.

O tráfico transatlântico de escravos africanos começou a entrar em decadência, somente a partir da sua abolição no início do século XIX peloReino Unido, com alguns países como oBrasil persistindo em sua prática, até serem forçados a abandoná-lo décadas depois. Devido às péssimas condições, físicas e psicológicas, em que se encontravam os escravos transportados, muitos morriam, eram mortos ou suicidavam-se durante a travessia.


Fonte:
Rediker marcus


POSTADO POR MESTRE BICHEIRO

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

•Estudo Sobre Toques de Berimbau


Francisco Ferreira Filho Diniz
Professor de Educação Física


O berimbau é um instrumento que foi adotado pelos capoeiristas como o principal regente da orquestra da capoeira. Antigamente o atabaque era quem ditava o ritmo. 
Estamos pesquisando os toques abaixo relacionados procurando associá-los ao jogo correspondente conforme descrição de Mestres, através de literaturas aqui citadas, (ver bibliografia) bem como através de entrevistas. 
ANGOLA- Toque lento e cadenciado. Serve para jogo rente ao chão, lento e malicioso (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 03).
BANGUELA- Jogo de dentro com faca - segundo Carybé em citação de Nestor Capoeira no livro: Os fundamentos da Malícia, ed. Record, pág. 119.
SÃO BENTO PEQUENO - Também chamado de "ANGOLA INVERTIDA" - Toque para um jogo amistoso, muito técnico (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 04). 
SÃO BENTO GRANDE DE ANGOLA -
SANTA MARIA -
APANHA LARANJA NO CHÃO TICO-TICO - toque para o jogo de apresentação em que os capoeiristas apanham dinheiro no chão com a boca (Revista Praticando Capoeira, ano I - n º 02, pág. 07).
AVISO - Toque para denunciar a presença do senhor de engenho, capitão do mato ou capataz (Revista Praticando Capoeira, ano I - n º. 02, pág. 07). Segundo dizem os capoeiristas mais antigos, servia para avisar aos escravos da presença do feitor ou capitão-do-mato (Mestre Bola Sete, em: Capoeira Angola na Bahia, pág. 66, ed. Pallas, RJ, 1997).
CAVALARIA - toque que imita o trotar do cavalo, avisando que há polícia nas proximidades. Esse toque foi criado por volta de 1920 para avisar a chegada da cavalaria de "Pedrito", um temido delegado de polícia que perseguia os capoeiristas (Revista Praticando Capoeira, ano I - n º 02, pág. 07). Antigamente servia para avisar aos capoeiristas, da presença da Cavalaria da Guarda Nacional (Mestre Bola Sete, em: Capoeira Angola na Bahia, pág. 66, ed. Pallas, RJ, 1997).
Capoeira Regional
Os toques de Regional inicialmente eram acompanhados por uma bateria inconstante que se apresentava de acordo com a decisão do Mestre Bimba, podendo conter um, dois ou três berimbaus. Tempos depois por sugestão de Decânio, a charanga resumiu-se a um berimbau e dois pandeiros. 
AMAZONAS - criação de Bimba, era dificílimo de acompanhar tal a riqueza de ritmos, a sutileza das variações melódicas; poucos capoeiristas conseguiam obedecer aos seus comandos, mais raros ainda os que conseguiam executá-lo no berimbau. 
Amazonas é um toque festivo para saudar mestres e visitantes. É chamado de hino da capoeira (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 05).
BANGUELINHA - Jogo de dentro, colado, corpo a corpo, treinamento para defesa de arma branca.
BANGUELA - Jogo de dentro, colado, corpo a corpo, treinamento para defesa de arma branca.
Benguela - Toque para jogo compassado, curtido, malicioso e floreado (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 05).
CAVALARIA - Jogo duro, pesado, violento. 
IDALINA - jogo alto, solto, manhoso, rico em movimentos.

Idalina - Apresentação de jogo com facas, facões, porretes (Revista Universo Capoeira, ano I, n.º 03, agosto/99).
Idalina - Toque para jogo de navalha (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 03).
IÚNA -Jogo baixo, manhoso, sagaz, ardiloso, coreográfico, exibicionista; retorno ao estado lúdico. 
Iúna - Só para formados e mestres com movimentos de balões (Revista Universo Capoeira, ano n.º 03, agosto/99).
SANTA MARIA - Toque simples, porém rápido; permite jogo solto e alto aceitando bastante floreio. 
Santa Maria - Jogo com navalhas (Revista Universo Capoeira, ano n.º 03, agosto/99). 
SÃO BENTO GRANDE DE REGIONAL - Jogo ao estilo regional: forte, rápido, mais para violência que para exibicionismo; viril sem perder a malícia. 
SÃO BENTO PEQUENO DE REGIONAL - São Bento Grande às avessas; um jogo mais suave, corpo a corpo, aceitando mais deslocamentos e malícia. 
NOTA: As explicações feitas aqui, dos toques que estão SUBLINHADOS e em ITÁLICO, referentes a Capoeira Regional foram retiradas do livro de Ângelo Decânio:

A Herança de Mestre Bimba, págs. 183 e 184.
Outros Toques de Berimbau
Angola em Gegê - 
Angola Santo Malandreu - Criação de Silvio Acarajé, uma ladainha, uma preparação para o início do jogo de capoeira (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 06). 
Angolinha -
Assalva - 
Ave-maria - Toque com início lento, demonstrando equilíbrio e conhecimento da arte (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 08).
Barravento - Toque rápido, bonito e agradável de se ouvir, em que o solista demonstra os infindáveis recursos de repique que há no berimbau. O jogo é solto, muito à vontade; é uma demonstração de alegria (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 08). É apropriado para o desenvolvimento do jogo em ritmo acelerado (Mestre Bola Sete, em: Capoeira Angola na Bahia, pág. 65, ed. Pallas, RJ, 1997).
Toque Capoeirarte –

Capoeirarte - Criação do Prof. Francisco em 27/09/1998 para exposição individual, no início ou final da roda. 
Dandara - Criação de Silvio Acarajé em homenagem às mulheres que praticam capoeira. Dandara, de acordo com os registros de Palmares, foi o grande amor de Zumbi, o rei do Quilombo dos Palmares (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 06). 
Estandarte - 
Gegy - É um toque vigoroso. O jogo da capoeira é em angola, a diferença está no toque do berimbau, no repique, onde predomina a influência do Gegy-Nagô (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 06). 
Ijexá - 
Jeje (Gegê) - 
Jeje-ketu - 
Maculelê - 
Muzenza - Toque originário do candomblé, criado pelo Mestre Canjiquinha. Na capoeira demonstra-se desprezo pelo adversário (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 08). 
Samango (homem preguiçoso) - Criação de Canjiquinha. É lutado de lado, tem a presença de poucos movimentos. Sua característica de manifestação é a chapa giratória, a chapa de lado,rasteira e vôo do morcego (Revista Praticando Capoeira, ano I, n.º 04). 
Samba de Angola - é usado quando se dança o samba de roda ou o samba duro (Mestre Bola Sete, em: Capoeira Angola na Bahia, pág. 66, ed. Pallas, RJ, 1997).
Samba de roda - 
Samba duro –

São Bento Grande Gegê
Sete de Ouro - 
Signo-Salomão (Cinco Salomão) - utilizado para denunciar a presença de estranhos na roda de capoeira (Mestre Bola Sete, em: Capoeira Angola na Bahia, pág. 66, ed. Pallas, RJ, 1997).
Comentários 
Na realização dos toques de berimbau destinados à capoeira é interessante lembrar que não há consenso entre mestres e grupos. Em parte, isso é bom pois mostra a complexidade e sua riqueza, exigindo do capoeirista disposição para o estudo e aprofundamento sobre o assunto. Nestor Capoeira cita, no seu excelente livro "Fundamentos da Malícia, ed. Record", uma preleção de Mestre Morais em 1984 onde alguns toques são apresentados de forma diferente. Os toques de São Bento Pequeno e São Bento Grande por exemplo, são tocados de uma forma que eu, particularmente, desconhecia.
Mestre Bola Sete dá uma explicação diferente (da que eu conheço) sobre os toques de Santa Maria, Amazonas, Idalina, Benguela, e Yuna. Em seu livro Capoeira Angola na Bahia, ed Pallas, pág. 68, ele comenta: "O toque de São Bento inverte o toque de Angola; o toque de Santa Maria inverte o toque de Benguela e o toque de Amazonas (jogo de dentro) inverte o toque de Idalina (jogo de fora). O toque de Yuna deve ser executado apenas pelo berimbau viola". 
Longe aqui de querermos determinar o que é certo e o que é errado. Queremos mesmo é refletir sobre a maneira de cada mestre ou grupo executar determinados toques e concluir que esta maneira peculiar de cada um precisa ser preservada. Assim diríamos: o toque de Santa Maria da linhagem de Caiçara é... ou, Santa Maria executado na linhagem de Morais é... o toque de benguela segundo Bimba é... cavalaria ensinado por Mestre Nô é ... 
Aparentemente temos a impressão de uma grande confusão, mas na verdade isso mostra o quanto é difícil estudar a capoeira sem dar aos seus conteúdos um caráter conclusivo, especialmente o seu lado musical. 

POSTADO POR MESTRE BICHEIRO

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ciríaco x A República



Breves considerações acerca da vida de um capoeira na virada do século XIX/XX

Marco Castilho Felício


Ciríaco Francisco da Silva, vulgo Macaco, talvez seja um nome conhecido entre os praticantes mais interessados na arte-luta. Natural de Campos (RJ), sujeito elegante – sempre acompanhado de sua bengala, ou “Santo Antônio 16”, como ele preferia chamá-la – entre grande parte dos cariocas de hoje, ele não passa de um anônimo (pesquisando no Google Maps, não é sequer nome de rua). Entretanto, nem sempre foi assim. Não que os dias tenham sido melhores. Aliás, pelo contrário. Mas por ironia do destino e por contradições peculiares de nossa história, quis o tempo que um negro pobre nascido em 1872, capoeira e morador dos cortiços do Rio de Janeiro tivesse seus dias de glória justamente num momento em que todas as suas qualidades, características e condições concretas de vida fossem, sob o ponto de vista do poder instituído, algo indesejável. Ciríaco era exatamente o que a nascente República queria extirpar da sociedade.
No dia 15 de maio de 1909, a revista O Malho publicou uma reportagem sobre o acontecimento que transformou Ciríaco numa celebridade: a luta do capoeirista contra o japonês Sado Miako, expoente do jiu-jitsu que ministrava ensinamentos da luta para a Marinha do Brasil, ocorrida no Pavilhão Internacional Paschoal Segreto. Nas palavras do próprio Ciríaco, eis o desenrolar da contenda: ”Cheguei em frente com ele, dei as minha cuntinença e fiz a primeira ginga, carculei a artura do negrinho, a meiada das perna, risquei com a mão p’ra espantá tico-tico, o camarada tremeu, eu disse: então? Como é? Ou tu leva o 41 dobrado ou tu está ruim comigo, pruque eu imbolá, não imbolo. O japonês tremeu, risquei ele por baixo, dei o passo da limpeza gerá, o negrinho aturduou, mexeu, mas não caiu”. Durante a luta, Ciríaco percebeu as reações do público ao seu favor e continua no relato: “Eu me queimei e já sabe: tampei premero, distroci a esquerda, virei a pantana, óia o hóme levando com o rabo-de-arraia pela chocolateira. Deu o ar comprimido e foi cumê poeira. Aí eu fiz o manejo da cumprimentação e convidei o hóme p’ro relógio de repetição, mas o gringo se acontentou com a chamada e se deu por sastifeito”. O êxito na luta resultou em “dezoito mil réis” jogados pela platéia, entrevistas a jornais e demonstrações para estudantes do Rio de Janeiro.
Mas é necessário que o acontecimento seja analisado em seu contexto. Durante quase todo o século XIX, os debates parlamentares sobre o que fazer com a enorme massa de escravos, caso a escravidão acabasse, e em como fazer do Brasil um país racialmente branco, livre da presença negra, foram constantes no parlamento. O pensamento de Tavares Bastos, jurista e político atuante na segunda metade do século XIX, reflete bem isso. Defendia ele, sobre o estímulo à imigração européia, que: “O homem livre, o homem branco, além de ser muito mais intelligente que o negro, que o africano boçal, tem o incentivo do salário que percebe, do proveito que tira do serviço, da fortuna que enfim pode accumular a bem da sua família. Há entre esses dous extremos, pois, um abysmo que separa o homem do bruto [...] Cada africano que se introduz no Brazil, além de afugentar o emigrante europeu, era em vez de obreiro do futuro, o instrumento cego, o embaraço, o elemento de regresso das nossas indústrias”.
Na virada do século, discursos racistas que defendiam o branqueamento da população – o tal “racismo científico” – ainda encontravam forte repercussão entre as elites e o meio acadêmico. Oliveira Vianna, outro jurista e defensor da eugenia, referência nas primeiras décadas do século XX, acreditava que: “A miscigenação roubou o elemento negro de sua importância numérica, diluindo-o na população branca. Aqui o mulato, a começar da segunda geração, quer ser branco, e o homem branco (com rara exceção), acolhe-o, estima-o e aceita-o no seu meio. Como nos asseguram os etnólogos, e como pode ser confirmado à primeira vista, a mistura de raças é facilitada pela prevalência do ‘elemento superior’. Por isso mesmo, mas cedo ou mais tarde, ela vai eliminar a raça negra daqui”.
Na mesma onda, a cidade do Rio de Janeiro, desde os anos de 1880, sofria profundas transformações urbanísticas, orientadas por idéias higienistas, cujos principais propósitos eram a modificação/eliminação das áreas onde se encontravam as chamadas “casas de habitação” (casarões velhos que tinham seus quartos alugados para diferentes famílias) e principalmente os malfadados cortiços, maciçamente habitados por escravos e capoeiras. Não somente o espaço urbano, mas várias manifestações negras foram sistematicamente perseguidas pela ordem. Nesse momento, a capoeira, considerada pelo estudioso Luiz Sérgio Dias como “prática negra organizada”, é criminalizada e enquadrada no Código Penal de 1890. De maneira geral, a “turba” carioca está sob inconveniente assédio por parte do Estado – vide aí a Revolta da Vacina.


Cortiço no Rio de Janeiro da virada do século XIX-XX

Voltemos ao nosso camarada Ciríaco. Havia, de um lado, uma estrutura político-ideológica francamente racista, e de outro, uma cidade que, se na época das maltas era a “cidade-esconderijo” dos capoeiras e escravos, oferecendo sempre vias de fuga e espaços de socialização (como os cortiços), no período da contenda do ilustre personagem, ela apresentava-se como “cidade-inimiga”.
Surge então um paradoxo: apesar da ordem vigente, perseguidora dos capoeiras, existe também uma grande receptividade (ainda que problematizável, inclusive do ponto de vista das relações raciais) popular, mostrada na própria luta de Ciríaco e Sado Miako. Os jornais apresentavam discursos exaltando a capoeira, sobre sua importância como a “luta brasileira”, revelando indícios sobre manifestações de nacionalidade, fortemente exploradas anos mais tarde no governo de Getúlio Vargas (também sobre isso, ler O Jogo da Capoeira: corpo e cultura popular no Brasil, de Luiz Renato Vieira). A própria manifestação de apreço por parte da platéia durante e após o embate, de certa forma, demonstra isso, assim como a notícia de falecimento de Ciríaco veiculada até em Porto Alegre, em 21 de maio de 1912 (vitimado pela uremia). A capoeira tornava-se então a benção e maldição do Brasil, e em particular, do Rio de Janeiro.
Como nos lembra Jair Moura, Ciríaco e seu rabo-de-arraia certeiro colaboraram muito para a reafirmação da capoeiragem, desarticulada pela repressão no Rio de Janeiro desde as últimas décadas do século XIX. Se Mestre Bimba e Mestre Pastinha foram representantes que reivindicavam a importância da capoeira como grande manifestação cultural brasileira frente ao poder institucional e a setores da intelectualidade, Ciríaco é uma espécie de titã negro; é a cara de uma capoeira cujo único poder era seu enorme apelo popular.
http://estudoscapoeira.blogspot.com.br/2011/08/ciriaco-x-republica.html?m=1



Referências:


CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

MOURA, Jair. A Capoeiragem no Rio de Janeiro através dos Séculos. Salvador: JM Gráfica e Editora LTDA, 2009.

SILVA, Eduardo. Dom Obá II d’África, o príncipe do povo: vida, tempo e pensamnto de um homem de cor. São Paulo : Cia. das Letras, 1997.

THEODORO, Mário. (Org.). As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição. Brasília : Ipea, 2008.

VIEIRA, Luiz Renato. O jogo da capoeira: corpo e cultura popular no Brasil. Rio de Janeiro: Sprint, 1998.
MESTRE LUIZ RENATO
POSTADO PÓR MESTRE BICHEIRO